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A queda de uma árvore, no último sábado (14), em frente ao portão das ruínas do sítio histórico Engenho Murukutu, no bairro do Curió-Utinga, em Belém, virou um alerta imediato para a mobilização do povo Tupinambá e a reorganização de suas ações de cobrança pública. Segundo a liderança indígena Angelo Tupinambá, o episódio tem um sentido interno, ligado à proteção espiritual do território e à organização dos Tupinambás, que deve ser convertido em mensagem dirigida ao Estado e a órgãos de patrimônio. Porém, a queda da árvore, afirma, não pode ser lida apenas como um evento isolado, pois integra um cenário de degradação material do sítio, conflitos envolvendo obras de infraestrutura em Belém e disputas mais amplas sobre território e águas na Amazônia.

O sítio histórico Engenho Murukutu é uma área de Preservação Ambiental (APA), criada para proteção dos mananciais Água Preta e Bolonha que abastecem a cidade e o Parque Estadual do Utinga, grande ponto turístico e de conservação de espécies animais e vegetais.

Angelo aponta episódios de força das águas e impacto sobre moradias, relatando o dia em que o Ygarapé Ykatú se revirou e derrubou casas. A partir daí, ele conecta diretamente a queda da árvore à mensagem que considera estar sendo transmitida ao povo e, agora, ao poder público: “para a gente, a derrubada dessa árvore, bem em frente ao portão das ruínas do sítio histórico Murukutu, é um recado das nossas entidades que estão defendendo o nosso território mas que estão cobrando da gente também a responsabilidade, a nossa iniciativa. Isso foi um chamado para o nosso povo Tupinambá.”

A liderança afirma que os parentes, há muito tempo, constatam a deterioração das ruínas e do entorno: “são péssimas as condições que estão as ruínas do Engenho Murukutu e toda a área do sítio arqueológico, inclusive com pessoas fazendo uso de drogas, moradores de rua morando aí na frente do território, denunciamos várias situações”.

A queda da árvore foi o gatilho para intensificar cobranças institucionais: “com a derrubada dessa árvore, com o tombamento dessa árvore, o que a gente quer é alertar o poder público. Essa é uma comunicação para fora que a gente quer fazer.”

Angelo localiza a gravidade do momento a partir do simbolismo de uma data-chave: “no dia 7 de janeiro desse ano, foi celebrado dentro do território, mais uma vez, o martírio do cacique Guaimiaba Tupinambá, no levante Tupinambá de 1619, no Forte do Castelo.” Ele ressalta que o 7 de janeiro condensa outras referências históricas e políticas: “A gente também celebra nesse dia a Revolução Cabana, do dia 7 de janeiro de 1835. É o dia também que nós fizemos a primeira declaração aos povos sobre o território histórico e ancestral Murukutu. É o dia que marca o segundo levante Tupinambá em Belém de 2021”.

As reuniões que envolvem esta data orientaram ações de fortalecimento do território. “Essa data é muito importante para a gente e, por isso, a gente levou o mestre da Jurema Sagrada, Kaio, com a presença de Yapuratã Tupinambá e Amana Aira Tupinambá, para assentar as entidades que fazem a proteção ao território.” Ele relata que “várias entidades desceram por intermediação do cacique José Tupinambá”, e destaca Malunguinho como protetor do território. Segundo Angelo, Malunguinho, no ritual realizado em 7 de janeiro, teria anunciado medidas de defesa associadas a pontos específicos do traçado urbano: “Malunguinho falou que ia despertar a serpente que mora embaixo do Ygarapé Ykatú para derrubar o viaduto que faz a ligação da Avenida Liberdade com a estrada velha da fazenda de Antonio Landi”.

Em seguida, ele descreve a promessa atribuída à entidade como uma espécie de fechamento do território para conter investidas e afastar ameaças ao sítio histórico e arqueológico: “Ele também prometeu que ia fechar as matas do Murukutu e ia empestear a área com serpentes venenosas e com escorpiões para proteger o território e afastar as pessoas mal intencionadas do sítio histórico e arqueológico do Engenho do Murukutu.” Angelo sustenta que, no entendimento do povo, sinais dessa proteção já teriam se manifestado: “E tudo isso tem acontecido mesmo.”

No centro dessa cobrança, ele cita o IPHAN e direciona a crítica à atuação local do órgão: “no entanto, o que a gente quer agora é cobrar o IPHAN do estado do Pará, porque parece que tem o interesse de ver o sítio histórico e arqueológico tombando, porque tudo isso aí é um projeto que beneficia a especulação imobiliária”. O argumento combina denúncia de abandono, risco ao patrimônio e a leitura de que a degradação pode servir a interesses econômicos. A liderança afirma que, desde a queda da árvore, a comunidade Tupinambá tem tentado comunicação com o órgão e não obtém resposta.

A construção da Avenida Liberdade, que corta um território de floresta Amazônica protegida, tem sido uma luta dos povos originários, tradicionais, cientistas e ambientalistas. O objetivo declarado da obra é a reduzição do trânsito de Belém, com o mote de que a cidade receberia mais de 50 mil pessoas, incluindo líderes mundiais, durante a COP30, realizada em novembro de 2025. O governo estadual divulga credenciais sustentáveis, mas moradores e de conservacionistas não aceitam o impacto ambiental, argumentando, inclusive, que o desmatamento contradiz a finalidade de uma conferência do clima.

Moradores dos territórios próximos à obra declaram a destruição das colheitas e, consequentemente, da renda que sustenta as famílias. Também afirmam que não receberam compensação e que temem que sejam expulsos de onde nasceram e foram criados com a valorização da área. Também afirmam que a comunidade não seria conectada à via por conta de muros laterais e que os benefícios seriam apenas para a circulação de cargas.

Também não são poucas as preocupações científicas registradas por pesquisadores sobre o desmatamento, a fragmentação do ecossistema, a dificuldade para fauna circular entre os dois lados da floresta e a perda de uma área para devolver animais à natureza.

A Avenida Liberdade é protagonista de uma disputa antiga: o governo estadual defendia a ideia desde 2012, mas o projeto foi engavetado repetidas vezes por preocupações ambientais. Voltou com força na preparação para a COP30. O governo estadual defende que a sustentabilidade da rodovia e representaria uma intervenção importante de mobilidade, incluindo passagens de fauna, ciclovias e iluminação solar. Atualmente, a obra já está em um estágio avançado, com um percentual estimado de 85% de execução.

Para o povo Tupinambá, a obra produz uma violência literal pois, na visão indígena, o igarapé, o rio não são só caminho de canoa e sim entidades vivas, um parente, assim como a floresta. Angelo Tupinambá afirma que o Ygarapé Ykatú foi assassinado na obra da Avenida Liberdade e alerta que os Tupinambás vão cobrar isso do governo do Estado.

A luta sobre território, águas e sobrevivência em Belém não pode ser desconectada da manifestação que já dura quase um mês no Baixo Tapajós. A ocupação do terminal portuário da Cargill, em Santarém, iniciada em 22 de janeiro por lideranças indígenas, ribeirinhas e movimentos sociais, se posiciona contra a dragagem do Rio Tapajós, contra a concessão da hidrovia prevista no Decreto nº 12.600/2025 e, de forma mais ampla, pela demarcação dos territórios indígenas no Baixo Tapajós.

As lideranças que ocupam o local insistem que a demarcação é condição de sobrevivência indígena e de preservação da floresta, biodiversidade, águas e do equilíbrio climático global.

O foco imediato é a intervenção planejada no trecho Santarém–Itaituba, estimada em R$ 74,8 milhões, para ampliar a navegabilidade a grandes embarcações usadas no escoamento de grãos. Para as lideranças, a ação transforma o Tapajós em corredor logístico do agronegócio e subordina o rio a uma função econômica que desconsidera impactos sobre quem vive historicamente do território.

O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita) tem alertado que “a dragagem permanente ameaça as margens, altera o curso das águas, coloca em risco as praias, a pesca e a saúde da população, com a possibilidade de ressuspensão de mercúrio e outros contaminantes já presentes nos sedimentos do rio”. O movimento defende a revogação do Decreto nº 12.600/2025, a suspensão do edital de dragagem nº 567/2025, combate ao garimpo ilegal e medidas emergenciais de saúde para comunidades expostas ao mercúrio. Também aponta risco de comprometimento da qualidade da água, danos à pesca, aceleração da erosão e impactos às praias de areia branca de Alter do Chão.

As mensagens do protesto contrastam mais de 10 mil anos de presença dos povos indígenas no território com os últimos 500 anos de um modelo de desenvolvimento destrutivo colonialista, e apontam ausência de consulta livre, prévia e informada, prevista na Convenção 169 da OIT, como elemento central de contestação.

Entre a destruição da floresta pela Avenida da Liberdade, em Belém, e as vendas dos rios Tapajós, Tocantis e Madeira, no interior do Pará, as lideranças apontam um eixo comum: território e águas não são apenas suporte físico de projetos, são vida. Os povos indígenas da Amazônia não estão dispostos a se calarem enquanto as grandes obras ameaçarem sua sobrevivência e seus direitos.

Fotos e vídeos: povo Tupinambá

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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