Publicado em: 18 de fevereiro de 2026
O enredo “Plantar para Colher e Alimentar – Tem muita terra sem gente. Tem muita gente sem terra”, apresentado pela escola de samba Acadêmicos do Tatuapé no Carnaval de São Paulo, em 2026, foi uma narrativa de forte cunho social e político, centrada na questão da terra, da reforma agrária e do direito à alimentação.
A escola levou para o Anhembi uma reflexão profunda sobre a histórica concentração fundiária no Brasil, denunciando a desigualdade no acesso à terra e exaltando a luta dos trabalhadores rurais. O enredo dialogou diretamente com o lema do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sintetizado na frase: “Tem muita terra sem gente. Tem muita gente sem terra”.
“No princípio, era a terra; era semente.” Sob o sopro divino de Tupã, senhor dos trovões e da criação, o chão tornou-se ventre fértil. Da terra molhada brotaram os primeiros povos — originários, guardiões da mata, filhos do Sol e irmãos da Lua. Era tempo de comunhão. As florestas erguiam-se em reverência, os rios corriam como cânticos sagrados, e a natureza ensinava que viver é partilhar.
A comissão de frente abriu o espetáculo mostrando essa criação. Sob efeitos de luz e som que simulavam trovões, Tupã surgia como força criadora, soprando vida sobre um grande cenário que representava a terra fértil. Elementos cenográficos remetiam a raízes, sementes e barro molhado, enquanto bailarinos encarnavam os povos originários, em coreografia que simbolizava comunhão com a natureza.
Nesse mundo de equilíbrio nasceram as deusas da abundância: a Agricultura, que ensinou a semear; a Fertilidade, que fez germinar o amor da terra; e a Fartura, que pintou os campos de alimento. A vida pulsava em ciclos harmônicos, respeitando o tempo das chuvas e o silêncio das sementes. Esse fenômeno da criação era observado no primeiro carro alegórico que trouxe as deusas da abundância em uma explosão de cores verdes, douradas e terrosas. Alas coreografadas representavam o plantio, a colheita e os ciclos naturais, com fantasias inspiradas em folhas, espigas e flores. A bateria, com paradinhas cadenciadas, evocava o som da chuva caindo sobre a lavoura.
Era o Brasil antes das cercas, antes das divisões.
Mas o enredo também recorda a ruptura. Um imponente carro simbolizou a chegada dos colonizadores vindos de Portugal. Cruz, espada e cercas ganharam forma cênica, enquanto alas caracterizadas de sesmeiros e senhores de terra representavam o nascimento do latifúndio. A harmonia conduziu o refrão que ecoava forte: “Tem muita terra sem gente, e muita gente sem terra”, arrancando aplausos e emoção das arquibancadas. A terra, que era mãe, passou a ter dono. Nascia o latifúndio, crescia a desigualdade, e ecoava a ferida que atravessa séculos.
Um carro impactante trouxe referências aos quilombos, com destaque para a força coletiva e a agricultura de subsistência como símbolo de liberdade. Alas representavam o cultivo da cana, do algodão e de outras culturas, ressignificando a dor em resistência. Nessas lavouras, entre o açoite e a enxada, ergueram-se quilombos — territórios de liberdade onde a roça era símbolo de autonomia e sobrevivência. O samba ganhava cadência mais intensa, com o surdo marcando como batida de coração insurgente. A escola procurava também demonstrar que depois vieram outros povos, outras sementes: trigo, algodão, hortaliças. Mãos imigrantes ajudaram a escrever, grão a grão, a memória de um Brasil plural.
A avenida também revive as lutas que mancharam o solo de sangue e fé: Guerra de Canudos e Guerra do Contestado, campos onde o povo simples disse “não” à injustiça. Um carro alegórico mesclava fé e resistência, com elementos que simbolizavam a cruz do sertão e a floresta contestada. Das cinzas dessas batalhas nasceu a teimosia da esperança. A resistência virou reza, e a fé, feijão na panela.
Mas a cobiça persiste. O enredo denuncia as florestas derrubadas, o solo envenenado, o falso progresso que sufoca o broto. As secas queimavam sonhos, pragas espalhavam-se pela ambição humana. Ainda assim, a natureza respondia com sabedoria: abelhas polinizavam futuros, joaninhas protegiam os brotos, libélulas dançavam na luz. Capuchinha, funcho e girassol revelavam que plantar com respeito é curar a terra.
No coração da narrativa está o homem do campo. De chapéu e fé, ele ora ao sol, saúda a chuva e transforma a casa simples em altar de barro e ternura. O galo anuncia o dia; milho cresce, feijão floresce. No quintal, a vaca leiteira, a cabra, a galinha e seus ovos sustentam a vida. Arar, semear, cuidar e colher: eis a liturgia sagrada do lavrador.
A agricultura crioula resiste. Sementes guardadas em latas antigas preservam a memória genética e cultural. Milho crioulo, arroz orgânico, café de quintal, cacau de esperança. O saber ancestral ensina que cultivar é também proteger. A terra dividida com justiça é a colheita que alimenta todos, procurava demonstrar a escola. Neste momento, o desfile ganhou leveza e esperança. Alas representando abelhas, joaninhas, libélulas e plantas companheiras como girassol e capuchinha trouxeram a mensagem da agroecologia e do equilíbrio natural. As fantasias misturavam cores vibrantes e detalhes artesanais, remetendo à agricultura crioula e a sabedoria ancestral.
O último carro alegórico foi a grande festa da colheita. Um cenário que lembrava uma roça em celebração tomou conta da avenida: espigas gigantes, sacas de grãos, hortas cenográficas e trabalhadores do campo exaltados como heróis. A bateria veio fantasiada de lavradores, com chapéus de palha estilizados, transformando a enxada em símbolo de dignidade. O casal de mestre-sala e porta-bandeira bailou como quem reverenciava a terra-mãe.
O clímax do desfile foi a grande festa da colheita. A enxada transforma-se em estandarte, a palha vira fantasia, o suor brilha como ouro na avenida. A roça canta, a terra sorri, e o povo celebra a partilha como banquete de sustentabilidade. Plantar com a natureza — e não contra ela — é semear futuro e colher dignidade.
A Acadêmicos do Tatuapé procurou transforma a avenida em chão sagrado ao exaltar a terra como mãe e altar, denunciar a desigualdade histórica e proclamar a esperança que insiste em germinar. Como dizia o enredo, quem planta com amor colhe o eterno carnaval da fartura. Colhe o amanhã no hoje. Colhe a vida em flor. E samba — como quem agradece — por cada semente, por cada fruto, por cada trabalhador e trabalhadora do campo que nunca desistiu de fazer da terra um espaço de justiça, memória e esperança.
O enredo não deixou de passar por crítica, como a acusação de politização excessiva do Carnaval. Alguns entendem que a festa deveria priorizar temas culturais, históricos ou lúdicos, evitando debates contemporâneos considerados ideológicos. Nesse sentido, haveria quem argumentasse que a escolha do enredo aproximou a escola de um posicionamento político explícito, potencialmente gerando divisões entre espectadores e torcedores.
Outra crítica recairia sobre uma eventual visão unilateral da questão agrária. O tema da reforma agrária envolve múltiplos atores e interesses, incluindo o agronegócio, pequenos produtores, o Estado e movimentos sociais. Assim, críticos poderiam sustentar que o enredo teria privilegiado uma narrativa específica, sem contemplar a complexidade econômica e jurídica do problema fundiário no Brasil.
Também poderia ser apontada uma possível romantização dos movimentos sociais do campo. Para setores que veem com ressalvas determinadas estratégias de ocupação de terras e conflitos judiciais, o desfile poderia ter apresentado uma visão idealizada da luta pela terra, sem abordar as controvérsias e tensões que envolvem o tema. Nesse sentido, se questionaria a simplificação de um problema estrutural profundo. A concentração fundiária e a desigualdade no campo são questões historicamente enraizadas e multifacetadas. Em razão da natureza artística e simbólica do Carnaval, o enredo poderia ser percebido como reduzindo essa complexidade a slogans e imagens fortes, o que, para alguns, empobreceria o debate público sobre o assunto.
Diante das críticas o enredo resiste e se sobrepõe. Sua importância reside na capacidade de levar ao maior palco cultural do país — o desfile das escolas de samba de São Paulo — um debate estrutural sobre a desigualdade no acesso à terra e o direito à alimentação. Ao abordar uma pauta historicamente vinculada à luta do MST, a escola transformou a avenida em espaço de reflexão pública, ampliando a visibilidade de um tema que, muitas vezes, permanece restrito ao campo jurídico ou político.
Além disso, o enredo reafirma o papel das escolas de samba como agentes de consciência social. Desde sua origem, o Carnaval tem sido espaço de resistência cultural e de expressão das camadas populares. Ao tratar da função social da terra, da produção de alimentos e do combate à fome, a narrativa dialoga com princípios constitucionais e com a realidade brasileira, marcada por profundas desigualdades.
Outra dimensão importante é a simbólica. Ao associar o ato de plantar à ideia de colher dignidade e alimentar vidas, o enredo construiu uma metáfora potente sobre justiça social e solidariedade. O desfile transformou sementes em esperança, a colheita em partilha e o trabalho coletivo em caminho para transformação. Ao optar por um assunto sensível e controverso, a Acadêmicos do Tatuapé assumiu o risco de provocar debate, reafirmando que o carnaval não é apenas entretenimento, mas também instrumento de crítica, memória e construção de cidadania.
Que novos enredos possam unir carnaval, política e consciência social.









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