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No Brasil, costuma-se dizer que o ano só começa depois do Carnaval. Em 2026, coincidentemente, o Ano Novo Lunar tem início em 17 de fevereiro, exatamente na terça-feira de Carnaval. A data marca a primeira lua nova do calendário lunar e abre oficialmente o Ano do Cavalo de Fogo, dando início aos 15 dias do Festival da Primavera, considerado o período mais importante do calendário na China e em comunidades chinesas ao redor do mundo.

O sistema que define o novo ciclo é baseado no zodíaco chinês, estruturado em um ciclo de 12 anos representado por animais nesta ordem: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco. O signo é determinado pelo ano de nascimento. Em 2026, crianças nascidas a partir de 17 de fevereiro passam a ser do signo Cavalo. As nascidas no ciclo anterior pertencem à Serpente, enquanto aquelas que vierem ao mundo a partir do Ano Novo Lunar de 2027 serão Cabras.

Além do animal correspondente ao ano, o calendário combina um tronco celestial, vinculado aos cinco elementos e às categorias yin ou yang, com um ramo terrestre. Em 2026, o tronco é “Bing” (grande sol) e o ramo é “Wu” (Cavalo), formando o Ano do Cavalo de Fogo. Seguidores da tradição acreditam que a sorte individual depende das posições do Tai Sui, conjunto de divindades estelares associadas a movimentos paralelos e opostos ao de Júpiter. Mestres da geomancia interpretam essas posições e indicam tendências para cada signo ao longo do ano. Para muitos praticantes, visitar templos e realizar bênçãos é prática comum no início do ciclo.

As comemorações se estendem por 15 dias, mas a preparação começa cerca de uma semana antes. No 24º dia do último mês lunar, que em 2026 correspondeu a 11 de fevereiro, são preparados bolos e pudins festivos. A tradição está associada à palavra gao (mandarim) ou gou (cantonês), que tem pronúncia semelhante à palavra “alto”, simbolizando crescimento e progresso no novo ano. Entre os pratos tradicionais está o bolo de rabanete.

Outro passo fundamental é a colocação de faixas vermelhas com expressões auspiciosas, conhecidas como fai chun em cantonês e chunlian em mandarim, especialmente na porta principal da casa. A cor vermelha e os fogos de artifício remetem ao mito de Nian, criatura lendária descrita como uma besta subaquática com dentes e chifres afiados que, segundo a tradição, atacava aldeias na véspera do Ano Novo. A narrativa conta que um velho conseguiu afugentá-la com faixas vermelhas, roupas da mesma cor e explosões de fogos. O vermelho, portanto, tornou-se símbolo de proteção e boa sorte.

No 28º dia do último mês lunar (que em 2026 caiu em 15 de fevereiro) muitas famílias realizam uma grande limpeza doméstica para eliminar o azar acumulado. Nos cinco primeiros dias do novo ano, porém, alguns evitam varrer ou descartar lixo para não afastar a boa sorte recém-chegada. Também há quem evite cortar ou lavar o cabelo no primeiro dia do ano, já que o caractere chinês para cabelo é o primeiro da palavra prosperidade, e o ato poderia simbolizar perda de fortuna.

A véspera do Ano Novo Lunar, em 2026 celebrada em 16 de fevereiro, é marcada por um jantar de reunião familiar. O cardápio é composto por alimentos associados a significados auspiciosos: peixe, cuja pronúncia se assemelha à palavra excedente; pudins, que simbolizam progresso; e bolinhos de massa que lembram lingotes de ouro. No norte da China, bolinhos e noodles são mais comuns; no sul, o arroz cozido a vapor ocupa lugar central. Em países como Malásia e Singapura, a tradição inclui o yusheng, conhecido como “lançamento da prosperidade”, quando legumes e peixe cru são misturados de forma coletiva antes da refeição.

Os primeiros dias do novo ano são dedicados a visitas familiares. Pessoas casadas distribuem pacotes vermelhos com dinheiro (chamados hongbao ou lai see) para crianças e jovens solteiros. Acredita-se que os envelopes afastam maus espíritos conhecidos como sui. Na Coreia do Sul, o festival recebe o nome de Seollal, com três dias dedicados a homenagens aos antepassados, jogos tradicionais e pratos como tteokguk (bolo de arroz) e jeon (panquecas).

O terceiro dia, 19 de fevereiro, é chamado chi kou ou cek hau, “boca vermelha”. A tradição associa a data a maior propensão a discussões, motivo pelo qual algumas pessoas evitam interações sociais e preferem visitar templos para oferendas. O sétimo dia, 23 de fevereiro, é conhecido como renri ou jan jat, considerado o “aniversário do povo”, pois marca a data em que, segundo a crença, a deusa-mãe Nuwa criou a humanidade. Comunidades celebram com pratos específicos, como receitas com sete tipos de legumes entre cantoneses e novamente o yusheng no Sudeste Asiático.

O encerramento ocorre no 15º dia, em 3 de março de 2026, com o Festival das Lanternas, chamado Yuan Xiao Jie. A data coincide com a primeira lua cheia do ano. Yuan significa início; Xiao, noite. O festival simboliza o fim do inverno e a chegada da primavera. Lanternas são acesas para afastar a escuridão e trazer esperança. Historicamente, era o único dia em que jovens mulheres podiam sair para admirar as lanternas e conhecer pretendentes, motivo pelo qual também ficou conhecido como o Dia dos Namorados chinês. Atualmente, cidades em diferentes países organizam exposições e feiras de lanternas para marcar o encerramento do ciclo.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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