Publicado em: 16 de fevereiro de 2026
Um dos maiores e mais autênticos polos carnavalescos do Pará, Cametá preserva tradições seculares, pilares da folia local. Ao som de marchinhas do povo cametaense, o Carnaval é uma verdadeira galeria de personagens vivos. Cada um deles carrega um pedaço da história da cidade e da resistência da cultura popular do Baixo Tocantins.
O Cordão da Bicharada é um dos mais lúdicos e fascinantes, representa o lado mais “raiz” e ecológico da festa, transformando a fauna da Amazônia em protagonista da folia. Diferente dos blocos de abadá, é uma manifestação de teatro de rua itinerante. Nele, os brincantes se fantasiam de animais da região, criando um zoológico fantástico que desfila ao som de marchinhas e ritmos regionais. As fantasias são artesanais, utilizando materiais como papel machê, miriti, arames e tecidos coloridos. Os personagens são onças, jacarés, araras, tatus, cobras grandes e botos. Cada “bicho” se comporta como tal. A onça finge que vai atacar, o jacaré abre a bocarra e as aves “voam” entre os foliões, encantando principalmente as crianças. A cobra grande precisa de várias pessoas para serpentear pela rua. Como todo cordão tradicional, a Bicharada tem a figura do Mestre ou coordenador, que organiza a fila e garante que os animais não se dispersem. É uma tradição passada de geração em geração, mantendo viva a técnica de confecção das máscaras e das armações dos bichos. Subjacente à brincadeira, há uma exaltação da natureza local e da importância de preservar os animais. E também funciona como resistência cultural, mantendo o formato dos antigos carnavais de rua que existiam antes da era dos trios elétricos. As fotos da Bicharada com o casario histórico de Cametá ao fundo são algumas das imagens mais bonitas e icônicas do Pará.


O Carnaval das Águas é um espetáculo à parte. Como a cidade é banhada pelo rio Tocantins, a festa se desloca para as embarcações. O desfile de barcos decorados une a cultura ribeirinha à alegria da data. Os barqueiros e comandantes de rabetas e canoas se tornam personagens centrais. Decoram suas embarcações como se fossem carros alegóricos flutuantes, criando identidade visual única.
O Fofó é icônico, com suas roupas largas, coloridas e máscaras, cheios de mistério, invadindo as ruas. Alma do Carnaval cametaense, é o símbolo da irreverência e da liberdade. A fantasia é de chitão, máscaras de papel machê ou plástico e chapéu de palha ou pano. O Fofó não fala: emite um som agudo (“fofó, fofó!”) para esconder a voz original. O objetivo é brincar com conhecidos sem ser identificado.
Em algumas comunidades e nos bairros mais antigos, ainda se vê a figura das Caretas, personagens que usam elementos naturais, como palhas e barro ou roupas velhas para assustar e divertir as crianças, lembrando muito o antigo entrudo.
Mesmo atraindo milhares de turistas, o Carnaval de Cametá consegue manter um clima de interior, e a comunidade realmente se envolve na confecção das fantasias e na organização dos blocos. É uma festa que consegue ser, ao mesmo tempo, um grande evento de massa e um patrimônio imaterial.

Fotos: acervo do Mestre Zenóbio









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