Publicado em: 15 de fevereiro de 2026
Alerta para gatilhos de violência e ódio explícitos.
Nestes últimos dias, a trágica morte de duas crianças tem inflamado a internet, esse barril de pólvora sempre pronto a explodir em escândalos morais. Convém iniciar esta reflexão com a gravidade que o tema exige, embora a seriedade raramente atravesse incólume o filtro das redes. Sarah, uma mulher comum, dessas que atravessam a rua sem que ninguém lhes conte os passos, viu seu nome transformar-se em assunto nacional depois que o marido matou os dois filhos e, em seguida, a si próprio. Bastou acrescentar à narrativa uma palavra antiga e sempre eficaz, adultério, para que a tragédia adquirisse contornos que excitam a imaginação coletiva.
Nada mobiliza tanto a internet quanto uma desgraça acompanhada de um ingrediente moral. A morte, por si só, já impressiona, mas a morte temperada com suposta traição conjugal feminina oferece ao espectador uma satisfação peculiar, pois lhe permite julgar enquanto lamenta. E julgar é uma atividade profundamente democrática, que dispensa estudo, preparo, empatia ou responsabilidade.
Em poucas horas formou-se uma assembleia invisível, composta por um júri popular de cidadãos respeitáveis, cada qual armado de opinião firme e indignação de grosso calibre. Estabeleceu-se uma sequência conveniente: Sarah traiu; o marido sofreu; o sofrimento transbordou; as crianças morreram. A narrativa possuía clareza exemplar, quase didática. Se todos os dramas obedecessem a essa lógica linear, os tribunais poderiam ser substituídos por fluxogramas em PowerPoint. Pronto: causa, consequência, culpa.
Entretanto, há um detalhe incômodo. O homem que matou os filhos realizou o ato com as próprias mãos. Não foi a palavra “traição” que empunhou a arma ou executou o gesto fatal. O Direito brasileiro sustenta uma ideia simples e civilizatória: cada pessoa responde por sua própria conduta. Essa noção, embora elegante, encontra resistência quando confrontada com a necessidade popular de diluir responsabilidades de maneira mais satisfatória ao sentimento coletivo.
É curioso observar como a figura da mulher supostamente adúltera, no caso de Sarah, atravessa os séculos com notável eficiência simbólica. Em diferentes épocas, bastou acusá-la de infidelidade para que se organizasse o espetáculo público do apedrejamento. A infidelidade masculina, embora censurada em teoria, sempre encontrou atenuantes generosos. Já a feminina adquire proporções de cataclismo moral, como se o equilíbrio do universo doméstico dependesse exclusivamente da mulher.
No Brasil, o adultério foi crime até 2005. A lei apresentava aparência de neutralidade, mas a praça pública tinha preferências claras ao julgar. Durante décadas, homens que matavam suas companheiras invocaram a chamada defesa da honra, expressão de sonoridade quase trágica. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade desse argumento. A honra, afirmou-se com serenidade, não autoriza homicídio.
Há ainda, no Código Penal, o instituto do perdão judicial. O juiz pode reconhecer que determinadas tragédias já impuseram ao autor sofrimento tão intenso que a pena estatal se tornaria redundante. Trata-se de mecanismo que revela algo raro: a lei, por vezes, reconhece a inutilidade de punir quem já se encontra devastado. É uma delicadeza institucional que dificilmente encontra paralelo nas assembleias digitais. A internet não admite atenuantes.
No tribunal da internet, a devastação não encerra o julgamento; ela o alimenta. A mulher que traiu converte-se em personagem central, quase mais relevante que o autor do crime. Cada clique, cada comentário, cada compartilhamento funciona como uma pedra arremessada por mãos invisíveis. A cada notificação, uma acusação renovada; a cada curtida, uma sentença reiterada. A vida concreta dissolve-se na narrativa virtual.
Há certo conforto nesse mecanismo. Se a tragédia pode ser explicada por uma falha moral individual, o restante da sociedade preserva-se íntegro. Atribuir à mulher parcela ampliada de culpa restaura simbolicamente a ordem. O mundo volta a parecer coerente, ainda que ao preço da simplificação.
Contudo, permanece um fato teimoso: entre a descoberta de uma traição e o ato de matar duas crianças existe um intervalo em que a vontade decide. Muitos sofrem e continuam vivendo. Muitos se sentem humilhados e não convertem a dor em destruição. Esse detalhe, embora menos espetacular que a indignação coletiva, insiste em sobreviver aos argumentos mais engenhosos.
Muitos membros do tribunal da internet colhem da Bíblia as citações que lhes interessam para linchar moralmente a mulher adúltera, esquecendo que o próprio Cristo disse: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela” (João 8:7). As pedras continuam a cair, agora digitais, rápidas e impunes.
Quando a comoção diminuir e outra história ocupar o centro do interesse coletivo, talvez reste um aprendizado silencioso. A facilidade com que se organiza um tribunal moral revela menos sobre Sarah e mais sobre a sociedade que a julga. Nada agrada tanto quanto uma tragédia que tenha uma mulher culpada. E poucas figuras foram tão persistentemente apedrejadas quanto a mulher que rompe a fidelidade esperada.
Enquanto o apedrejamento virtual atinge seu ápice, a vida segue indiferente aos algoritmos. As verdadeiras tragédias não cabem em um feed. No tribunal da internet, a verdade torna-se secundária; o que importa é a narrativa que acalma a consciência coletiva. E, ao final, todos assistem, culpando a mãe enquanto ela chora a dor da perda brutal de dois filhos e sequer dispõe do direito elementar de se defender.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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