Publicado em: 14 de fevereiro de 2026
Em celebração interreligiosa reunindo a Pastora Doris Jagger, da Igreja Luterana; a Reverenda Eliane Cristina Vieira, da igreja Anglicana; e o Frei Alex Assunção, da Ordem Franciscana Menor marcou o primeiro mês da Páscoa de Irmã Henriqueta Cavalcante. Os líderes religiosos, defensores dos direitos humanos e inclusive pessoas acolhidas por ela deram testemunhos marcantes.

A presidente do Instituto de Direitos Humanos Dom Azcona e Ir. Henriqueta, Mary Cohen, exortou: “Henriqueta nos ensinou que a espiritualidade verdadeira se expressa no cuidado com quem sofre, na coragem de enfrentar injustiças e na escolha cotidiana pela dignidade humana. Sua trajetória nos recorda que defender a vida é um compromisso que atravessa crenças, territórios e diferenças. Que saiamos daqui fortalecidos e fortalecidas, com o coração aquecido e o olhar atento. Que cada um de nós encontre caminhos para manter acesa a chama da justiça, da solidariedade e da esperança que ela ajudou a semear. Encerramos esta celebração, mas não encerramos a memória, nem o compromisso. Que a lembrança da Irmã Marie Henriqueta siga nos acompanhando como presença inspiradora, transformando luto em cuidado, saudade em ação e fé em compromisso com a vida”.

Frei Alex fez uma reflexão emocionante:
“A memória que hoje fazemos não é neutra, nem apenas afetiva. É uma memória que incomoda, denuncia e compromete, porque nasce do Evangelho vivido até as últimas consequências. Ir. Henriqueta nunca se desvinculou da mística profunda da vida consagrada, que é seguir Jesus pobre, servo e defensor da vida ameaçada. Sua consagração permaneceu viva no chão da história, na prática cotidiana da justiça, da solidariedade e da opção radical pelos pobres.
No arquipélago do Marajó, coração ferido da Amazônia paraense, Ir. Henriqueta fez de sua vida um grito profético em defesa da vida. Foi articuladora de redes de proteção, presença corajosa junto às vítimas, voz firme diante das estruturas de morte. Assumiu, com radicalidade evangélica, o enfrentamento da exploração sexual, do tráfico de pessoas e de todas as formas de violência que violentam a infância, as mulheres e os corpos vulnerabilizados.
Sua fidelidade ao Evangelho não se traduziu em discursos, mas em escolhas concretas. Ao consolidar o Fórum Cidadania Marajó, fortaleceu articulações, promoveu denúncias e tornou visível aquilo que muitos insistiam em silenciar. Mesmo diante de ameaças, perseguições e riscos à própria vida, não recuou. Sua existência tornou-se denúncia das injustiças estruturais e anúncio teimoso da esperança.
Ao fazer memória de Ir. Henriqueta, a CRB faz também memória de tantas religiosas e religiosos que, neste chão amazônico, doaram e seguem doando suas vidas pelo Reino de Deus. Homens e mulheres que caminharam entre rios e florestas, aldeias e periferias, muitos deles marcados pela perseguição, pelo adoecimento e até pelo martírio, porque escolheram ficar ao lado dos pobres e da vida ameaçada. A Amazônia guarda em sua terra e em suas águas o sangue, o suor e a esperança da vida consagrada comprometida com o Evangelho da vida.
O testemunho de Ir. Henriqueta ultrapassou os espaços pastorais e institucionais, alcançando o campo cultural e social, inspirando consciências e narrativas que denunciam a violência e anunciam a vida, como ecoa também na personagem que carrega sua memória no filme Manas.
Sua história continua a provocar e a interpelar nossa fé. Hoje, a Conferência dos Religiosos do Brasil não apenas agradece a vida doada de Ir. Henriqueta, mas reafirma publicamente seu compromisso profético com a defesa incondicional da vida, especialmente onde ela é mais ameaçada. Comprometemo-nos a manter acesa a chama da proteção das crianças, adolescentes, mulheres e povos vulnerabilizados; a não silenciar diante das violências; a seguir fazendo da vida consagrada um sinal do Reino no meio das contradições do mundo.
Que a memória de Ir. Henriqueta Cavalcante nos una para além de credos, igrejas e instituições, e continue a nos provocar a viver uma fé encarnada, crítica e comprometida com a justiça, a paz e a dignidade humana. Que seu testemunho nos desinstale, nos converta e nos envie.
Ir. Henriqueta. Sua vida foi profecia. Seu sangue, semente. Seu legado, compromisso permanente com a vida. Ir. Henriqueta presente! Presente! Presente!”


















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