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Na 1ª Bienal de Arte Indígena de Buenos Aires, o Coletivo Artístico Ava Amazônia, formado por artistas do povo Tupinambá do Pará, será o único representante brasileiro. Em uma seleção que reúne 46 criadores de diferentes países latino-estadunidenses, o grupo assume sozinho a representação nacional na mostra internacional, instalada no Pabellón de las Bellas Artes da UCA, onde permanece aberta ao público até 12 de abril de 2026.

Intitulada “Voces Indígenas Contemporáneas: Una mirada desde el corazón de las comunidades”, a bienal foi inaugurada no último dia 11 de fevereiro, às 18h, com a proposta de dar visibilidade às cosmovisões e às histórias das comunidades originárias do continente. O evento reúne artistas da Argentina, Peru, Paraguai, Chile e Brasil, sob organização da Fundación Redes Solidarias, com curadoria e direção geral de Mercedes A. de Bocca e Cecilia Cavanagh, diretora do espaço expositivo.

A representação brasileira se materializa na coleção “Arqueologia da Alma”, composta por cuias trabalhadas com incisões que retomam grafismos ancestrais. As obras são assinadas pelo artista Theo Lima, da Ilha das Onças, em Barcarena, e integram uma proposta estética que desloca o objeto tradicional do campo do artesanato para o da arte contemporânea. O coletivo apresenta as cuias como tecnologia ancestral e ciência contemporânea, propondo leitura que conecta saberes originários, memória coletiva e experimentação artística.

O percurso criativo do artista é resultado de mais de 25 anos de estudo da iconografia marajoara. Autodidata, Theo Lima cresceu em olarias familiares no distrito de Icoaraci, ambiente que influenciou sua formação técnica e conceitual. A partir desse repertório, passou a transformar elementos naturais da floresta em peças carregadas de simbolismo espiritual e identitário, convertendo um utensílio cotidiano amazônico em obra artística voltada ao diálogo com o cenário internacional.

Theo desenvolve pesquisas em antropologia visual, mitologia e cosmologia marajoara, e produz cuias baseadas sobretudo em símbolos clânicos associados à fase Formiga da ocupação do arquipélago, período que se estendeu por cerca de 75 anos e terminou em 1250.

A escolha das cuias também carrega dimensão política e ambiental. A liderança fundadora do Coletivo Ava Amazônia e conselheira estadual de cultura audiovisual do Pará, Jazz Tupinambá, afirma que a participação na bienal extrapola o campo estético e se insere em uma disputa narrativa sobre representação e pertencimento. Segundo ela, “Nossa arte não pede licença, ela ocupa seu lugar de direito por mérito, história e potência. Estar na 1ª Bienal de Artes Indígenas em Buenos Aires é mais que um ato de diplomacia ancestral: é a nossa história finalmente sendo escrita por nós mesmos. Diante das práticas ilegais que agridem os rios da Amazônia, sobretudo com a situação crítica atualmente no Tapajós, é profundamente simbólico representarmos o Brasil com as cuias, ícone intrínseco da nossa cultura em plena conexão com as águas, nossa principal fonte de vida. Lembrar a importância da preservação da cultura originária é sinônimo de respeito ao meio ambiente e um futuro digno a todos”.

O posicionamento do coletivo associa produção artística, defesa territorial e preservação ambiental, estabelecendo um diálogo entre arte indígena contemporânea e debates urgentes sobre sustentabilidade, uso do território e permanência cultural.

Com visitação diária das 11h às 19h, a mostra transforma Buenos Aires em um ponto de encontro entre diferentes linguagens indígenas do continente. Para o coletivo tupinambá do Pará, a participação marca a inserção das narrativas amazônicas em um espaço internacional de arte, ao mesmo tempo em que reforça a leitura das tradições ancestrais como conhecimento vivo, atualizado e em constante diálogo com o presente.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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