Publicado em: 5 de fevereiro de 2026
O término do New Start encerrou, nesta quinta-feira, o último mecanismo vinculante que limitava os arsenais nucleares estratégicos de Estados Unidos e Rússia, abrindo um período inédito em mais de meio século sem tetos formais para as duas maiores potências atômicas do planeta. O alerta partiu do secretário-geral da ONU, António Guterres, que classificou o momento como crítico para a segurança internacional e pediu que Washington e Moscou retornem imediatamente às negociações.
“Pela primeira vez em mais de meio século, enfrentamos um mundo sem quaisquer limites vinculantes sobre os arsenais nucleares estratégicos”, afirmou Guterres. Ele acrescentou que a dissolução de décadas de acordos ocorre no pior cenário possível, quando o risco de uso de arma nuclear voltou a patamares não vistos há décadas.
Assinado em 2010, em Praga, pelos então presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev, o tratado fixava em 1.550 o número máximo de ogivas estratégicas implantadas por cada país, representando uma redução de quase 30% em relação ao limite anterior, de 2002. O acordo ainda previa inspeções presenciais, troca contínua de dados e um canal formal de comunicação para evitar interpretações equivocadas sobre capacidades militares.
Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), EUA e Rússia concentram quase 90% das mais de 10.500 ogivas nucleares existentes no mundo. A ausência de inspeções, notificações e parâmetros verificáveis aumenta o risco de interpretações erradas, corrida armamentista e decisões baseadas em suposições, avaliam especialistas que participaram da implementação do tratado.
Medvedev afirmou que o fim do acordo deveria “alarmar todos”. Obama advertiu que a ausência do tratado “pode desencadear outra corrida armamentista que torna o mundo menos seguro”. Já o papa Leão XIV pediu que as potências façam “tudo o possível” para evitar uma nova escalada nuclear.
A extensão do New Start por cinco anos foi negociada pelo presidente Joe Biden em 2021. Contudo, a deterioração das relações após a invasão da Ucrânia pela Rússia levou Moscou a suspender o cumprimento do acordo em 2023, ainda que declarasse manter os limites de forma voluntária. Em setembro de 2025, o presidente russo Vladimir Putin propôs prorrogar as restrições por mais um ano. O presidente estadunidense Donald Trump considerou a ideia “boa”, mas não houve negociações posteriores.
Para diplomatas e pesquisadores, o vazio atual não decorre apenas de divergências ideológicas, mas também da falta de prioridade política e de capacidade técnica para conduzir negociações complexas em meio a múltiplas crises internacionais.
O secretário de Estado estadunidense Marco Rubio afirmou que qualquer novo acordo precisaria incluir a China, cujo arsenal cresce rapidamente. Estimativas apontam cerca de 600 ogivas chinesas hoje, com aumento de aproximadamente 100 por ano desde 2023, ainda distante das cerca de 800 permitidas para EUA e Rússia pelo New Start. Pequim, no entanto, considera “nem justo nem razoável” participar de negociações quando possui um arsenal muito menor.
Além da limitação de ogivas, o New Start garantiu, até 2023, 328 inspeções presenciais e mais de 25 mil notificações formais entre as partes. Sem esses mecanismos, analistas destacam que satélites e inteligência humana não substituem a previsibilidade gerada pela transparência institucionalizada.
Especialistas lembram que episódios da Guerra Fria, como a crise dos mísseis em Cuba, demonstraram como suposições equivocadas podem levar a confrontos desnecessários. A regulação que surgiu após aquela crise pode agora estar se desfazendo.
Para negociadores veteranos, a perda do tratado representa também a erosão de um processo de controle de armas iniciado ainda nos anos 1960, quando EUA e União Soviética começaram a limitar e depois reduzir seus arsenais. Hoje, além do risco de uma corrida por ogivas mais numerosas, há preocupação com o desenvolvimento de armamentos mais precisos, sofisticados e difíceis de interceptar nos próximos anos.
Guterres pediu que Washington e Moscou retornem “sem demora” à mesa de negociações para construir um novo marco regulatório. Para ele, os tratados anteriores “melhoraram drasticamente a segurança de todos os povos”.
A revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), prevista para este ano, acontecerá sob esse cenário de incerteza. Países sem armas nucleares podem questionar o compromisso das potências atômicas com o desarmamento, fundamento central do acordo de 1970.
Ainda há, no entanto, espaço para negociação. Quanto mais cedo a conversa for iniciada, maiores as chances do mundo voltar a regular a corrida nuclear antes que ela se torne irreversível.









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