Publicado em: 1 de fevereiro de 2026
Entre a imagem da Suécia perfeita e a proposta de encarcerar crianças abre-se um
intervalo revelador, desses que, além de expor uma contradição política, iluminam uma
fissura mais profunda no modo como imaginamos o mundo. Não se trata só de uma
discussão jurídica sobre a redução da idade de responsabilidade penal para treze anos
em casos de crimes graves, mas de um abalo simbólico: a queda de um mito moderno
de que existem sociedades que teriam superado, de uma vez por todas, as sombras que
perseguem as demais.
Durante décadas, os países escandinavos foram convertidos em metáforas morais. Mais
do que realidades históricas, tornaram-se espelhos nos quais o restante do mundo se vê,
quase sempre, em posição de insuficiência. A Suécia, em particular, passou a funcionar
como uma espécie de consciência civilizatória do planeta: organizada, racional, justa,
igualitária. Seu nome deixou de designar apenas um país para designar uma promessa. E
toda promessa, quando cristalizada, corre o risco de virar dogma.
É nesse terreno que floresce o que se pode chamar de falácia do sueco, uma operação
retórica que parece inocente, mas carrega um peso ideológico considerável. Segundo
ela, o bem-estar escandinavo seria fruto direto de certos valores culturais, racionalidade,
ética do trabalho, confiança institucional, espírito cívico. Bastaria adotar esses valores
para que qualquer nação alcançasse resultados semelhantes. A história, com seus
conflitos, desigualdades e violências estruturais, é substituída por uma pedagogia moral.
A política cede lugar à lição de comportamento.
O problema desse discurso, muito apregoado pelo brasileiro despolitizado que vai, às
vezes, ao “primeiro mundo”, não está em admirar conquistas sociais, mas em despojá-
las de sua espessura histórica. O chamado modelo escandinavo não nasceu de uma
virtude espontânea nem de uma harmonia natural entre Estado, mercado e sociedade.
Foi o produto de lutas sociais intensas, de sindicatos fortes, de pactos difíceis entre
capital e trabalho, de escolhas políticas que limitaram o poder desregulado do mercado e
instituíram formas amplas de proteção social, além da posição geopolítica privilegiada
da Escandinávia. Em termos de economia política, trata-se de uma variante histórica de
capitalismo coordenado, em que a redistribuição, a negociação coletiva e os serviços
públicos universais foram construídos como barreiras contra a desagregação social.
Ao esquecer essa genealogia, a falácia do sueco inverte causa e efeito. O que é resultado
de estruturas e disputas históricas passa a ser interpretado como traço cultural inato. A
desigualdade global, que envolve séculos de colonialismo, hierarquias econômicas e
posições desiguais na divisão internacional do trabalho, reaparece como deficiência
moral dos que “não conseguiram ser como a Suécia”. Assim, a geopolítica é traduzida
em psicologia coletiva.
É nesse contexto que a proposta de reduzir a idade penal na própria Suécia adquire um
significado que ultrapassa suas fronteiras nacionais. O país frequentemente evocado
como símbolo de humanidade e racionalidade discute agora a possibilidade de punir
criminalmente crianças de treze anos. Não se trata de negar os problemas reais que
alimentam esse debate, a violência associada a gangues, o recrutamento de jovens pelo
crime organizado, o sentimento de insegurança, mas de reconhecer que a resposta
punitiva também ali se apresenta como tentação.
Essa discussão revela que nenhuma sociedade está fora das tensões entre proteção social
e controle penal. O direito penal moderno se fundamenta na ideia de culpabilidade, que
pressupõe maturidade para compreender o caráter ilícito da conduta e agir de modo
diverso. Aos treze anos, essa maturidade está longe de estar plenamente formada. A
psicologia do desenvolvimento e a neurociência indicam que adolescentes nessa faixa
etária são mais impulsivos, mais suscetíveis à influência de grupos e menos capazes de
avaliar consequências de longo prazo. Reduzir a idade penal, portanto, não é mero
ajuste técnico, mas o deslocamento de uma fronteira moral, pois redefine quem pode ser
considerado plenamente responsável diante do poder punitivo do Estado.
Punir uma criança pode soar como gesto de firmeza diante da violência, mas também
pode ser lido como confissão de fracasso coletivo. É como se a sociedade reconhecesse,
sem dizê-lo, que não conseguiu garantir condições de proteção, cuidado e pertencimento
a esses jovens e que, diante da falha, opta por transformar vulnerabilidade em culpa. O
que deveria mobilizar políticas de prevenção e inclusão converte-se em justificativa
para ampliar o alcance do braço punitivo do Estado.
A idealização da Suécia torna esse movimento ainda mais revelador. O mito da
sociedade plenamente reconciliada com seus conflitos vacila quando se percebe que ali
também surgem respostas duras, movidas pelo medo e pela pressão por soluções
imediatas. A diferença é que essas tensões se desenrolam sobre uma base material de
bem-estar muito mais sólida do que a de muitos outros países, o que não elimina o
conflito, mas altera suas condições de manifestação.
Do ponto de vista simbólico, a falácia do sueco funciona como forma de violência sutil.
Ela estabelece uma hierarquia moral entre povos: alguns seriam racionais, maduros,
aptos à democracia e ao bem-estar; outros, desorganizados, passionais, incapazes de
autogoverno. Essa divisão repristina antigas lógicas coloniais, agora recobertas pela
linguagem neutra dos indicadores, dos rankings e das comparações internacionais. O
mundo é ordenado não apenas por riqueza, mas por dignidade presumida.
O debate sobre a redução da maioridade penal na Suécia desfaz, ao menos por um
instante, essa geometria moral simplificada. Ele recorda que não existem sociedades
imunes às contradições do poder punitivo, nem povos naturalmente protegidos contra o
avanço de soluções penais precoces. Mostra que o medo e a insegurança podem
tensionar princípios de proteção à infância mesmo em contextos de alto
desenvolvimento social.
No fundo, tanto a redução da idade penal quanto a falácia do sueco compartilham um
mesmo gesto de despolitização. Em vez de interrogar as estruturas econômicas, as
desigualdades históricas e os limites do sistema penal, desloca-se o debate para o plano
dos valores individuais e das falhas morais. Crianças tornam-se criminosos precoces;
países tornam-se fracassos culturais. O que é problema de organização social aparece
como defeito de caráter.
Enfrentar a violência juvenil, na Suécia ou em qualquer outro lugar, exige mais do que
ampliar o poder de punir. Exige políticas sociais consistentes, prevenção, proteção à
infância e enfrentamento das redes que exploram jovens. E compreender o sucesso
escandinavo requer olhar para a história, para as relações de poder e para a economia
política que o tornaram possível, não para supostas virtudes naturais.
Talvez o verdadeiro aprendizado não esteja em transformar a Suécia em modelo moral,
mas em reconhecê-la como sociedade histórica, atravessada por conquistas e
contradições. Só assim suas experiências podem dialogar com as de outros lugares sem
se converterem em espelhos acusatórios. Quando os países deixam de ser mitos e
voltam a ser histórias, o debate público ganha densidade, e a política, em vez de
moralizar o mundo, volta a enfrentar sua complexidade.
Referências
ANADOLU AGENCY. Sweden plans to lower age of criminal responsibility
to 13 for serious crimes. 28 jan. 2026. Disponível em:
https://www.anews.com.tr/world/2026/01/28/sweden-plans-to-lower-
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2026.
BRUSSELS SIGNAL. Sweden ponders jail for 13-year-olds after explosion in
gang violence. 28 jan. 2026. Disponível em:
https://brusselssignal.eu/2026/01/swedish-ponders-jail-for-13-year-olds-
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POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. 2. ed.
Rio de Janeiro: Campus, 2012.
SWEDEN HERALD. The Swedish Prison Service says no to imprisonment for
13-year-olds. [S.l.], 2026. Disponível em:
https://swedenherald.com/article/the-swedish-prison-service-says-no-to-
imprisonment-for-13yearolds. Acesso em: 28 jan. 2026.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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