Publicado em: 1 de fevereiro de 2026
A Presidente da Academia Paraense de Letras, Maria da
Assunção Anes de Morais, concede-me a honra de lançar, em Vila
Real, Portugal, na sede da Biblioteca Municipal dessa linda cidade,
minha recente obra poética: “O Rito do Sobrevivente”.
Regozijado, agradeço a acolhida da Biblioteca Municipal de
Vila Real, para o lançamento em “avant premier” desse livro
(brevemente a ser lançado no Brasil), prefaciado por Anes que
também é sócia Correspondente da Academia Paraense de Letras.
A prefaciadora é uma das maiores investigadoras do escritor
português Miguel Torga (1907/1995), que foi contista, romancista,
teatrólogo e poeta, ligado à terra, ao mundo rural e as pessoas
humildes, relacionadas à dignidade, solidão, liberdade, conflitos
entre o ser humano e à sociedade na dimensão trágica da
existência. Tais identidades com o que escrevo, penso que sejam
os laços que nos permitiram a deferência do prefácio e a da
apresentação ao povo português.
Aceitei o convite, por razões dos laços culturais que
possuímos com a região de Trás-os-Montes, por nossas origens
portuguesas (referenciadas em poesias do nosso livro) e pela honra
do chamado por quem representa a intelectualidade transmontana.
Anes visitou Belém do Pará com renomados acadêmicos de
Trás-os-Montes, entre os quais os escritores, Caseiro Marques e
Cabrita, cidade pela qual se encantaram e, igualmente, encantaram
seu povo, sobretudo os membros da Academia Paraense de Letras.
Realizaram palestras e lançaram livros, ratificando a
profundidade da cultura lusitana que se ramifica entre os brasileiros
desde a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500.
Parabenizo a Anes e ao escritor Antònio Bárbolo Alves, pela
tradução de suas obras que serão lançadas: “A abelhinha Mariana
e outras histórias”, “A viagem de Comboio de Afonso e outras
histórias”, admitindo a parceria do “Rito do Sobrevivente”,
coletânea de poemas que aqui ofereço um breve comentário:
Escolhi esse título para falarmos da sobrevivência da palavra,
observada em sua própria inconstância de se relacionar com o
mundo exterior.
Imagino poesia como uma atitude da metáfora, transformando
a realidade usual pelo signo da escrita, em ficção inusual, na ação
da perplexidade.
Os seres humanos se comunicam por diversos recursos de
linguagem, sonoro, escrito, visual, musical, iconográfico, gestual, e
outros que possam proporcionar relação intelectual, mas poesia é
comunicação forjada na acepção do incomum. Revela-se na
disfuncionalidade material do vocábulo e na subsistência do verbo
elaborado.
Quando se utiliza combinações com palavras, figuras de
linguagem – metáfora, símile, analogia, metonímia, perífrase,
sinestesia, hipérbole, polissíndeto, antítese, paradoxo, aliteração,
prosopopeia, valorização dos sentidos, sentimentalismo, lirismo – a
expressão da palavra assume uma atitude poética.
Dentro desse conjunto de fatores, coloco o Rito e o
Sobrevivente ensejando disposição e escolha que sobraram em
uma peneira gramatical, sobrepostos na expressão filtrada.
Acredito que a poesia subsiste além do próprio vocábulo
consignado na usualidade, disposta na disposição da fala amparada
no papel, feito crivo, como sugeriu o filósofo paraense Benedito
Nunes, ou imperando no espaço em que restou, como dicção que
não estagnou.
Poesia é linguagem imperfeita mais-que-perfeita na feição da
palavra insurgida, a flor de outro jardim que Mallarmé regou,
expressão que transcendeu. Se constitui, assim percebo, como
recriação daquilo que se pensou criado ou acabado, metáfora da
metonímia, fala submersa que emergiu.
É dessa maneira que penso a linguagem do “O Rito do
Sobrevivente” que inicia como um impulso pessoal para tentar
exprimir a ressonância da palavra, organizando e revelando o que
sobreviveu durante uma reflexão que buscou a transformação do
plano comum.
Aventuro nessa emoção erguida em vários contextos – cabeça,
tronco e membros – percorrendo um perigoso mundo de grafemas,
no universo do poema em todos os seus predicados, por acreditar
na transcendentalidade da expressão mágica da poesia.
Foi nessa prioridade, aqui citando e homenageando, que
Fernando Pessoa pediu à Ophélia para aguardar, porque precisava
escrever, e assim aterrissou nos contrafortes de Órion, alinhados às
esfinges do Egito; penetrou na Via Láctea, pontuando o Cruzeiro do
Sul, atravessando noites infindas como um cometa reluzente
iluminando campos, pastores e ovelhas; vagou pelos espaços
interestelares da imaginação e do mistério; conheceu a quinta
dimensão da existência enfrentando a ausência, a dor, a volúpia e o
medo.
Foi português, inglês, africano, filósofo, homem, mulher, idoso,
criança, a multidão dos grandes bulevares das capitais do Ocidente
e das extensas feiras do Oriente. Foi ele mesmo e muitos outros,
todos os outros e muito mais do que poderia ser porque a vida não
lhe bastava.
Nessa linguagem incomum, composta por níveis linguísticos:
fonologia, morfologia, sintaxe e semântica, itens lexicais
denominados sinais por articulação cinético-visual, é que
acreditamos transmitir ao público o misterioso mundo da poesia.
O poético é um alvéolo onde a larva se desenvolve, mas para
que se torne uma borboleta, a lagarta tem que construir seu próprio
casulo, não podendo tomar emprestado outro ou pedir que outra
borboleta o construa. Depois do estágio vivido nessa habitação,
existe a hora para abandoná-la porque não é uma prisão, mas sim
uma casa transitória enraizada. Nessa dinâmica, quatro elementos
são importantes: o ovo, a larva, a pupa e a maioridade.
O poema não voa sem atravessar o casulo-estação que
possibilita asas para as constelações de onde partem as orionidas
(chuva de meteoros ou estrelas cadentes, que ocorre anualmente
entre os dias 15 a 29 de outubro), ao encontro do infinito.
O Rito do Sobrevivente é um casulo onde as palavras
escolhidas seguiram uma ordem de sobrevivência, restando
sobradas num critério de escolha pessoal e emocional. Não
seguiram com as usuais do dia-a-dia que nos cercam. Não
passaram, ficaram, restaram, engataram, querendo sobreviver. O
sobrevivido é o pequeno conjunto inicial, pessoal, dessa filtragem,
buscando uma expressão nas palavras escolhidas, unidas,
desunidas, autônomas, divorciadas, livres, independentes,
radiantes, felizes, tristes, humanas.
É dessa maneira que entrego o sobrevivido em seu rito, ao
conhecimento dos leitores como elemento personalizado de
reflexão pessoal que se vale do tempo, do sentimento, da imagem,
da história, da alegria, da tristeza, do lirismo, da indignação, da
inconformação, do amor, da saudade e de todas as coisas que em
mim sobraram e se movimentaram.
Apresento a sobrevivência como casualidade do espontâneo e
causalidade da contração, buscando o poético, ou como se diz na
Amazônia: procurando o encantamento, o sentido, e a vida,
querendo alguma coisa dizer.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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