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A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), organismo laical vinculado à Conferência Episcopal Portuguesa, divulgou nota pública em que manifesta preocupação com a utilização de referências cristãs como estratégia de mobilização eleitoral no atual cenário político em Portugal. O posicionamento foi tornado público em 27 de janeiro, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 8 de fevereiro.

No documento, a entidade afirma que há uma crescente aproximação de partidos e movimentos políticos a pautas associadas às comunidades cristãs, como a defesa da vida intrauterina e a presença de presépios em espaços públicos. Segundo a CNJP, esse movimento tem sido acompanhado por práticas que promovem discriminação e fomentam discursos de ódio.

“Esta instrumentalização não é inédita. Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intrauterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio”, registra a nota.

A comissão avalia que tal estratégia busca atrair eleitores sensíveis a esses temas, levando-os a relativizar outras posições políticas que, por vezes, entram em contradição com os princípios centrais do Evangelho. Para o organismo, é necessário que as igrejas e seus fiéis reconheçam o papel que lhes cabe na denúncia dessas distorções.

“As Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo”, sustenta o texto.

Presidida por Pedro Vaz Patto, a CNJP ressalta que a identidade cristã não pode ser dissociada dos fundamentos do Evangelho nem dos princípios de solidariedade, justiça, verdade e paz. A comissão adverte que, quando essa conexão é rompida, a própria defesa da fé pode ser corrompida.

“A política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão”, enfatiza a comissão, reiterando a preocupação com práticas que enfraquecem a coesão social.

O documento reforça que mesmo pautas tradicionalmente associadas à fé cristã, como a defesa da vida, não podem ser usadas de maneira a justificar posturas que neguem a dignidade humana ou alimentem divisões na sociedade.

A CNJP convoca os cristãos a manterem postura crítica diante do cenário político e a rejeitarem propostas que fragilizem os laços sociais ou ampliem injustiças. O texto exorta a um engajamento público ancorado em valores democráticos, na defesa intransigente dos direitos humanos, na proteção dos mais vulneráveis, na promoção da coesão social e na cooperação entre povos.

Segundo a comissão, é nesse horizonte que deve se situar a atuação cristã na vida pública, como expressão concreta do compromisso com o bem comum.

O posicionamento da CNJP ocorre poucos dias após a Conferência Episcopal Portuguesa, em 13 de janeiro, ter divulgado mensagem incentivando a participação de todos os cidadãos nas eleições. Na ocasião, o Conselho Permanente do episcopado destacou que votar representa uma forma concreta de corresponsabilidade na construção da sociedade e um sinal de respeito à democracia, mesmo diante de divergências em relação às candidaturas apresentadas.

Leia a nota, na íntegra:

Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz

Considerando o atual momento em Portugal, a Comissão Nacional Justiça e Paz alerta para os riscos da instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos. 

Esta instrumentalização não é inédita. Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intrauterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio. Esta estratégia visa captar eleitores que priorizam esses temas e que, por essa razão, tendem a relativizar outras posições políticas, mesmo quando estas contradigam as verdades do Evangelho. 

As Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo. 

A política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão.  Nem mesmo a luta a favor da vida ou a defesa da identidade cristã podem implicar, para um cristão, prescindir das verdades do Evangelho e da doutrina social que dele brota. Uma vez que a fé cristã se funda na dignidade inviolável da pessoa e na fraternidade universal, a defesa dessas causas não pode estar dissociada dos ideais de solidariedade, verdade, justiça e paz, sem ficar corrompida. 

É neste horizonte que deve situar-se o compromisso cristão na vida pública. É imperioso manter espírito crítico e rejeitar políticas que destruam os laços sociais e gerem injustiças. A Comissão exorta a um compromisso sério e empenhado com os valores democráticos, a defesa intransigente dos direitos humanos, a proteção dos mais pobres, a coesão social, a cooperação entre povos e políticas orientadas para o desenvolvimento integral de todos. É nisso que deve assentar a verdadeira radicalidade daqueles que estão comprometidos com o Evangelho. 

Lisboa, 27 de janeiro de 2026 

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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