Publicado em: 25 de janeiro de 2026
Vocês têm observado nas redes sociais e na imprensa, ataques dirigidos a mulheres públicas? Essas perseguições ultrapassam os limites da crítica política ou cultural. O que muitas vezes aparece como opinião, comentário ou “debate” é outra coisa: deslegitimação pessoal e vigilância constante dos corpos femininos. Bruna Marquezine, Michelle Obama e Brigitte Macron, em contextos muito diferentes, tornaram-se alvos de um mesmo mecanismo discursivo persecutório: a vigilância permanente de seus corpos e de suas identidades de gênero.
Esse tipo de violência raramente se apresenta de forma explícita ou institucional. Ele circula de maneira difusa, em comentários, rumores, memes e teorias conspiratórias que se disfarçam de curiosidade ou investigação. Mas o efeito é real. Mulheres que não se encaixam perfeitamente nos padrões normativos de feminilidade passam a ser tratadas como suspeitas, como se sua aparência exigisse uma comprovação constante de sua legitimidade feminina.
Quando você observa esse fenômeno com mais atenção, percebe que ele não é aleatório. Na literatura de estudos de gênero, essa vigilância pode ser compreendida a partir da ideia de que o gênero é regulado por normas sociais reiteradas todos os dias. Judith Butler argumenta que o gênero não é uma essência natural, mas o efeito de práticas sociais continuamente avaliadas, policiadas e julgadas (BUTLER, 1990). É isso que está em jogo quando mulheres são medidas não por suas ideias ou ações, mas pelo quanto correspondem a expectativas rígidas de feminilidade.
Nos últimos anos, esse tipo de vigilância ganhou um nome específico: transvestigação. Trata-se de uma prática conspiratória que tenta “investigar” figuras públicas para provar que seriam secretamente trans, com base em análises pseudocientíficas de fotos, vídeos ou gestos. Perceba que não há aí um interesse real em compreender identidades de gênero. O que existe é o uso da identidade trans como suspeita, acusação e instrumento de deslegitimação pública por meio do corpo.
No caso de Bruna Marquezine, após a circulação de imagens ao lado do namorado, surgiram nas redes sociais acusações de que ela seria trans, usando seus traços físicos como suposta evidência. O que estava em jogo não era um debate sobre identidade de gênero, mas o uso da transgeneridade como insulto e forma de desqualificação. Por trás disso atua também um racismo que organiza padrões de beleza e feminilidade a partir de um ideal eurocêntrico, no qual qualquer desvio é tratado como anomalia.
O mesmo padrão aparece de forma persistente no caso de Michelle Obama. Desde a campanha presidencial de 2008, circulam teorias conspiratórias que questionam sua feminilidade com base em estereótipos raciais e em imagens manipuladas. Ao sugerir que ela não seria uma mulher de verdade, essas narrativas reativam repertórios históricos que associam mulheres negras à masculinização e à desumanização, negando-lhes o reconhecimento pleno de sua feminilidade (HOOKS, 1981).
Na Europa, Brigitte Macron enfrenta há anos acusações falsas de que teria nascido homem. As teorias, amplamente difundidas por setores da extrema direita, combinam misoginia e etarismo, explorando a diferença de idade em relação ao presidente francês e reforçando normas sociais que associam o valor feminino à juventude e à adequação estética.
Em janeiro de 2026, um tribunal em Paris condenou dez pessoas por cyberbullying e assédio online contra a primeira-dama da França, Brigitte Macron, por espalharem alegações falsas e difamatórias sobre sua identidade de gênero e sexualidade, incluindo a afirmação de que ela teria nascido homem e insinuações ligando a diferença de idade entre ela e o presidente Emmanuel Macron a pedofilia. Os condenados, entre 41 e 65 anos, receberam penas que variam de treinamentos de conscientização sobre cyberbullying a sentenças de prisão suspensas de até oito meses. Brigitte Macron afirmou que moveu o processo para servir de exemplo na luta contra o assédio online.
O que caracteriza a transvestigação não é apenas a curiosidade sobre gênero, mas sua função deslegitimadora. Ela utiliza a identidade de gênero como justificativa para atacar, humilhar e diminuir mulheres que desafiam expectativas normativas. Apresenta-se como busca pela verdade, mas opera como ferramenta de desqualificação social.
Há diferenças importantes entre os casos. Em Marquezine, pesa o racismo dirigido a corpos latinos. Em Michelle Obama, atua uma misoginia racializada. Em Brigitte Macron, o fator etário é central. Ainda assim, o mecanismo é o mesmo. A transfobia, mesmo quando dirigida a mulheres cis, funciona como linguagem comum para policiar o feminino e restaurar normas ameaçadas, reduzindo a identidade de gênero a uma leitura visual simplificada que sustenta insultos.
A insistência nesse tipo de discurso persecutório revela algo maior do que ataques individuais. Ela aponta para uma dificuldade persistente da esfera pública em lidar com mulheres que não performam a feminilidade padrão esperada. Quando não são dóceis, jovens, brancas ou silenciosas, tornam-se alvos de suspeita. A violência discursiva não busca apenas ferir; busca advertir, vigiar e punir a diferença.
Combater esse fenômeno exige mais do que checagem de fatos. Exige reconhecer que o uso da transgeneridade como insulto não apenas reforça a exclusão de pessoas trans, mas também intensifica a vigilância sobre todas as mulheres. Enquanto esse mecanismo seguir naturalizado, a exposição pública feminina continuará a ter um preço silencioso: o da desconfiança permanente sobre quem elas são e sobre como supostamente deveriam ser.
Referências
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
HOOKS, bell. E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo. Tradução de Bhuvi Libanio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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