Publicado em: 24 de janeiro de 2026
No final do último dia de 2025, literalmente na calada da noite, quatro casarões históricos localizados no cruzamento da Av. Senador Lemos com a Trav. Dom Romualdo de Seixas, no bairro do Umarizal, em Belém do Pará, foram demolidos, gerando forte comoção social. Agora, mais uma parte significativa da memória da cidade está ameaçada de virar escombros, em uma ação perversa agendada para o feriadão do carnaval. Desta vez, são os casarões de nº 709 e 723 da Av. Brás de Aguiar, ao lado do Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré, entre Av. Generalíssimo Deodoro e Trav. Quintino Bocaiúva. Ali, a construtora Leal Moreira quer demolir um e mutilar o outro, deixando apenas a parte frontal. E já está vendendo seu novo empreendimento, que não tem as necessárias licenças do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC) da Secretaria de Estado de Cultura e nem da Secretaria Municipal de Cultura (extinta Fumbel).
Os casarões, datados do início do século XX, são marcos da Belle Époque paraense, representando a riqueza do Ciclo da Borracha, com seus azulejos, pisos em marchetaria e elementos Art Déco, cuja preservação é fundamental para a memória urbana da cidade. Os imóveis são belíssimos, de imensurável valor histórico e cultural, e todo o bairro de Nazaré é entorno de bens tombados, protegidos por lei. A revitalização dessas edificações na região fortaleceria o turismo cultural e a economia criativa, transformando a memória em espaços de convivência, exposições gratuitas e inovação. Mas tubarões da construção civil não se importam com o interesse público e muito menos com a memória. A pressão imobiliária é acachapante.

É inadmissível que mais um crime contra o patrimônio de Belém seja perpetrado apenas para garantir os lucros de uma construtora que não respeita a história da cidade. O Governo do Pará, através da Secult; a Prefeitura, via Semcult; o Ministério Público, a Defensoria Pública e o Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural têm obrigação de agir e tomar medidas urgentes de salvaguarda da memória de Belém.
É imperioso frisar que ali mesmo na Brás de Aguiar a Federação das Indústrias do Pará e o Sesi Pará deram um belo exemplo ao restaurar o casarão histórico, de nº 607, remanescente do Ciclo da Borracha, e destiná-lo à Casa Sesi Indústria Criativa, que estreou durante a COP30. O restauro, coordenado pela arquiteta Thaís Toscano, revelou camadas históricas, com a recuperação de vitrais, pisos de madeira e pinturas parietais, preservou detalhes arquitetônicos como pisos originais, azulejos, pinturas murais e gradis, e ali funciona um centro cultural, abrigando e impulsionando a arte e a criatividade amazônica, reafirmando o pertencimento urbano e o desenvolvimento sustentável. Fiepa e Sesi presentearam Belém e todo o Pará com uma joia arquitetônica e com um investimento de alto interesse público. Merecem o justo reconhecimento por esse gesto que enfatiza o posicionamento do empresariado moderno.
A construtora Leal Moreira pode e deve fazer suas torres em qualquer lugar da cidade fora da orla, do centro histórico e entorno, onde não prejudique Belém. Ou restaurar os imóveis históricos e inclui-los em seus projetos, com o que se redimiria.










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