Publicado em: 23 de janeiro de 2026
“Ah, já está tudo lido,
Mesmo o que falta ler!”
Fernando Pessoa, 7-9-1922, Poesias Inéditas (1919-1930)
“O Rito do Sobrevivente”, título emblemático e, ao mesmo tempo, metafórico, é um livro preenchido de poesia que se destaca pela experimentação formal e pela profunda reflexão sobre o poder da linguagem, tecendo uma narrativa sobre a sobrevivência da palavra e a construção de significados através do ato poético. Os poemas atuam como um rito de passagem, celebrando a ideia de que a poesia é um instrumento de resistência e de preservação da memória.
O gosto pela observação da memória é algo que o autor confessa ser uma das suas paixões. A preservação museológica da capacidade que o homem tem de representar ideias através de símbolos – a escrita, a pintura, a escultura, a música, a dança – com expressões várias – clássico, abstrato, naturalista, expressionista – é fonte de inspiração para a poesia que o autor apresenta neste livro. A leitura destas páginas permite descobrir alguns dos sentidos mais atentos do poeta e através dos quais deseja alavancar a sua marca no mundo dos imortais.
“Em outro mundo, onde a vontade é lei,
Livremente escolhi aquela vida
Com que primeiro neste mundo entrei.”
Fernando Pessoa, 1932, Poesias Inéditas (1930-1935)
Belém do Pará foi o cenário para o primeiro encontro com o amigo Ernane Malato. O pretexto para este conhecimento deveu-se à realização do V Encontro Luso/Amazônico “Heranças Portuguesas na Amazônia”, em agosto de 2023. Sem nos conhecer, três portugueses na sua primeira visita a essa cidade do amazónico Brasil, o autor deste livro cedo se prontificou a acompanhar-nos como cicerone pelas memórias de uma Belém e de um Brasil que não pretende esquecidos. Desde o primeiro momento, a paixão pela contemplação da preservação da história transpareceu. Apesar dos breves dias decorridos
na belíssima cidade de Belém, a presença praticamente constante, nos eventos literários, culturais e lúdicos, foi o início do estreitamento não só de conhecimentos da nossa História e Heranças comuns, mas também do surgimento de uma forte e admirável amizade.
A formação em Direito, com estudos posteriores sobre Direitos Humanos, revela um homem atento à presença do ser humano, neste planeta, que encara de uma forma humanista, e aos vários acontecimentos naturais ou provocados por essa existência. Desde cedo que preferiu os livros e o estudo às brincadeiras de criança. Sempre que podia, isolava-se para devorar as páginas de todos os livros que conseguia encontrar. Esse fascínio pela palavra escrita, pelas variadas formas como ela se apresenta, acordou, em Ernane Malato, a vontade de ele próprio utilizar as palavras em obras como a que temos em mãos.
“A poesia é uma taça
Na caverna da montanha
Uma relva onde olhos cintilam
Uma linha insinuada
que a letra revela…
um desenho emocional
que a vida não trava…”
Ernane Malato, “O Traçado”, O Rito do Sobrevivente
“O Rito do Sobrevivente” encontra-se dividido em secções – como “O Rito”, “O Sobrevivente”, “O Inventário” e “A Perplexidade” – que, juntas constroem uma narrativa de experiências pessoais, a partir das quais o autor nos revela o que sobrevive – o “sobrevivido”, como refere.Ao longo dos vários poemas, o brincar com as palavras é uma constante, procurando criar uma atmosfera de realidade e de misticismo e levando o leitor para outras dimensões do imaginário.
A capa do livro mostra-nos uma das tábuas da Epopeia de Gilgamesh, a mais antiga obra em forma de poema épico que o Homem terá registado em escrita. Esta escolha, por parte do autor, para o frontispício, despertou em nós a sensação de que estaríamos na presença de um texto com influências da mitologia clássica ou da antiguidade. A apresentação e o sumário vieram confirmar essa assunção – pelo menos para a primeira parte do livro – e, pela sua leitura, quase que podemos afirmar que estamos na presença de um poema épico. O herói dessa epopeia virá a descobrir-se ser a palavra, que enfrenta os muitos desafios que lhe são colocados, confrontando-os, armando-se de símbolos, camuflando-se em vários estilos de escrita poética e utilizando da astúcia da experiência humana, tal como um Héracles feito de signos, cores e sons. Com esta forma de contar histórias, o autor convida o leitor a fazer não uma leitura, mas várias, refletindo sobre a relação entre linguagem e existência.
E, por falar, em poema épico, conhecendo a admiração e predileção pela literatura clássica, Ernane Malato pretende, também, convidar os leitores a relerem as grandes epopeias como “Odisseia”, “Ilíada”, “Eneida” e, mais próxima a todos nós a grande obra do nosso Luís de Camões “Os Lusíadas”, que canta “o peito ilustre lusitano”.
“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!”
Álvaro de Campos, “Ode marítima”
A existência relatada vem a revelar-se ser a sua…
O livro descobre-se como uma autobiografia em poema que recorre às referências da infância, do crescimento e do amadurecimento do autor. Caso raro na literatura, Ernane Malato experimenta tratar episódios de uma vida – que supomos a sua, por recorrência aos artigos possessivos na primeira pessoa – em forma poética, alguns retratando memórias claras, outros memórias confusas, requerendo reescrita e repetição até à consolidação – como é o caso da sucessão dos poemas “A Coquita”, “A cadela” e “A batente”. Todo um percurso de vida, enfatizando as relações: familiares, amorosas, permanentes, frugais. Todo um manancial de emoções que, não poucas vezes, tiram a respiração a quem lê a sua poesia. A cadência de alguns poemas é lenta, como são os dias da nossa infância, infindáveis; outros são-nos apresentados com uma sofreguidão de quem quer tomar como seu todo o tempo e todo o espaço. Mas não é assim a vida? Primeiro caminhamos devagar; depois, tudo nos pertence, somos únicos e imortais; mais tarde, refletimos, contemplamos, tomamos consciência do outro e partilhamos. E finalmente partimos um dia…Assim o afirma no poema “Quando o que se foi não ocorrer”: “No desfiladeiro/ Em que eu me encontrar/ Haverá o caminho/ Que prosseguirá/ Sem nada levar/ Desta vida.” Por isso, a urgência de lembrar o epicurismo e o estoicismo presentes na poesia de Ricardo Reis. A máxima “carpe diem” é abordada nas várias reflexões destas páginas.
A ideia da partida e da necessidade de deixar uma marca sobre a sua existência é vincada em: “Quando minha ânsia de viver/ Se desconstituir/ E restarem as esperanças, / Somente/ Meus fantasmas inocentes/ Ficarão/ E não mais insistirão/ Em me orientar.”
A obra utiliza uma escrita livre e fragmentada, onde a repetição, a justaposição de imagens – “A construção” ou a sequência “A POESIA” – e a subversão de convenções gramaticais e de pontuação criam um mosaico poético, despertando sinestesias de cores e de musicalidade. Embora fragmentada, a linguagem utilizada torna-se o meio pelo qual o autor resgata o que “sobreviveu” da experiência humana. Um dos aspetos notórios é o da repetição, com variações na colocação, de diversos versos, conferindo a vários poemas contornos de composições musicais, de diferentes ritmos e estilos – “Pentagrama”. Alguns poemas apresentam-se de uma forma gráfica que incorpora os silêncios e as pausas na sua leitura – “O vernáculo”. Pausas essas que podem ser o tempo de mudar de linha, ou, como em alguns casos, a mudança de página – “O SOBREVIVIDO” ou “A metáfora”.
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Álvaro de Campos, “Tabacaria”
A exploração de uma dimensão autobiográfica é clara. Aqueles que conhecem Ernane Malato pessoalmente, vão, claramente, vê-lo nos poemas. A dedicação aos seus íntimos e a evocação de cenas familiares entrecruzam-se com alusões mitológicas e literárias, demonstrando literacias alimentadas com cuidado. Logo no poema “A Génese”, a referência a Afrodite, deusa da beleza e do amor; no poema “O Grito”, a apresentação de Hades, deus dos Infernos, que roubou Perséfone à mãe Deméter; no poema “O Substantivo”, a apresentação de Ártemis e de Diógenes; no poema “O Sobrevivido”, Hércules e os seus trabalhos. Ou ainda Zeus, o pai dos deuses. Curiosas são as “Doze Tarefas”, que o nosso poeta apresenta: a escultura, o crivo; o corpo; o veneno; o urso; a construção; a poesia; o vernáculo; entrelinhas; a metáfora; a epopeia; o juízo final. O ciclo da vida e da morte representativo de uma autobiografia, cheia de mística, de mistério, de sonhos e de ações.
Com essa mistura de experiências pessoais, íntimas, com o simbólico universal, o poeta pretende conferir aos seus textos uma qualidade de testemunho, afirmando a sua presença em acontecimentos universais que relaciona com a sua vida. Esta ressignificação do quotidiano é produzida de uma forma muito pessoal, como se retratasse a tela do seu pensamento nas folhas deste livro.
Estas abordagens do quotidiano, revisitadas em forma poética,transformam o ordinário no extraordinário, atribuindo à existência diária um nível do sagrado, não restrito ao religioso ou místico, mas elevando a experiência pessoal a um patamar atemporal e simbólico. Cada fragmento da vida diária torna-se um símbolo carregado de significado, capaz de evocar tanto a vulnerabilidade humana quanto a força de uma memória que persiste. A poesia é, assim, o rito que eterniza fragmentos da existência. O sobrevivente – o que persiste – é a palavra, é o verbo, é o verso.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Carlos Drummond de Andrade, “Poema de sete faces”, Alguma Poesia
A crença e a não crença, o rito e o não rito, o acreditar e não acreditar. Tal como Drummond, um dos seus poetas inspiradores, faz o poeta refletir sobre o sentido da vida. Drummond de Andrade cita uma passagem da Bíblia, comparando o seu sofrimento com a paixão de Cristo, perguntando ao Pai o porquê desse abandono. Essa solidão é sentida pelo desamparo de Deus e a constante fragilidade, enquanto ser humano.
A crença na finitude, o acreditar no eterno e no registo terreno, é expressa nestes versos: “Quando nada mais acontecer/ E o silêncio profundo reinar…/ Quando uma paz irredutível se estabelecer/ E nada mais restar…/ Verei a verdadeira face de quem se fez duvidar/ E o meu verdadeiro eu florescer.” (“Quando o que se foi não ocorrer”).
Os ritos religiosos como a procissão, as parábolas, o relicário e episódio ligados ao mar da Galileia, levam-no a sentir o afastamento das raízes familiares, sublinhando a origem do avô – Esmoriz – e tantas outras lembranças familiares. Refere Portugal, Trás-os-Montes como ponto de partida, e a Amazónia como ponto de chegada e de conforto. O lugar por excelência.
“Existe o poema – mais que a intenção –
Menos que a perfeição.”
Ernane Malato, “A Gênese”, O Rito do Sobrevivente
Com este texto desafio o caro leitor a mergulhar no universo multifacetado que é a escrita de Ernane Malato. Não espere encontrar respostas, nem receitas para a sobrevivência. Esta obra é um convite à reconstrução dos significados por meio da poesia. Não é uma leitura para fazer de um só fôlego. Deve revisitar-se, repetir-se, abrir a esmo e ler para a frente e para trás, saltando páginas ou sorvendo-as, uma atrás da outra. Porque cada leitura se transforma num novo rito de passagem.
O autor propõe uma fusão entre o antigo e o presente, entre o que é trivial e o que é sagrado, uma alusão à cultura brasileira, em que o mundano se torna místico e o quotidiano se torna num rito individual e coletivo.
O poeta recorre às suas maiores influências na construção deste poema, convocadas da sua “Estante”: fundindo múltiplas e fragmentadas vozes, evocando a complexidade da sociedade e da cultura brasileiras, a sensibilidade literária de foco regional e a introspeção poética. Todas estas facetas, sem esquecer o compromisso social que se manifesta nos poemas das últimas páginas do livro. Juntas, essas vozes formam o elo entre a memória literária e a perceção da realidade dos nossos dias.
Ernane Malato é um homem dedicado às palavras, misterioso nas ideias e pragmático nas ações. No poema “A Ilha”, o remate de tudo,como na Bíblia, “No princípio era o Verbo”. Em Malato, o verbo é tudo, é princípio e fim. Como regista: “A palavra/ nem sempre emoção, / traduz o ofício/ sem função.”









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