Publicado em: 22 de janeiro de 2026
Fortalecer a cidadania digital a partir dos próprios territórios amazônicos é a proposta central do programa Terra Preta, iniciativa que reúne comunicadores populares, educomunicadores, pesquisadores, lideranças comunitárias e desenvolvedores de tecnologias livres em um esforço coletivo para construir autonomia informacional nas infovias 02, 03 e 04 da Amazônia.
Inspirado na fertilidade dos solos de terra preta, formados ao longo de milênios por práticas colaborativas e cuidado com o território, o programa propõe a construção de uma “terra preta digital”, ou seja, um ecossistema de redes, plataformas e conhecimentos que permita aos povos amazônicos exercer protagonismo no ambiente digital.
O foco do programa recai sobre os saberes já existentes em territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e periferias urbanas, onde práticas próprias de comunicação, resistência e circulação de informações vêm sendo desenvolvidas há décadas. A proposta do Terra Preta não parte da criação de algo novo, mas do reconhecimento, fortalecimento e conexão dessas experiências.
Para isso, o programa articula encontros presenciais e remotos, oficinas, formação de redes de comunicação popular, implantação de rádios digitais, uso de plataformas livres e processos de documentação e sistematização de conhecimentos. As ações estão integradas ao ambiente colaborativo Plantaformas.org, que funciona como espaço de visibilidade e conexão dessas iniciativas.
Entre os dias 22 e 25 de janeiro de 2026, acontece o 8º Encontro de Cidadania Digital, com o tema “Ajuri de Fortalecimento da Rádio A’uma e da Educação Digital”, na aldeia indígena Tikuna de Belém do Solimões, no Alto Solimões (AM). O encontro celebra o início das transmissões oficiais da Rádio A’uma, reconhecidamente a primeira rádio comunitária indígena do Brasil. Durante quatro dias, comunicadores populares, educomunicadores, jovens indígenas e lideranças comunitárias participam de oficinas práticas, formações colaborativas e vivências culturais voltadas à comunicação comunitária, à produção de conteúdo e à cidadania digital.
A própria chegada da equipe ao território traduz o espírito do programa. O grupo percorreu aproximadamente mil quilômetros pelo Rio Solimões, atravessando sete municípios (Alvarães, Fonte Boa, Jutaí, Tonantins, Santo Antônio do Içá, Amatura e São Paulo de Olivença) desde Tefé até Belém do Solimões. A travessia fluvial, realizada por cientistas da tecnologia, educomunicadores, pesquisadores do audiovisual e profissionais de rádio vindos de Belém e Manaus, reitera a proposta de conectar territórios respeitando os tempos do rio e das comunidades amazônicas.

Belém do Solimões, localizada no município de Tabatinga e habitada majoritariamente pelo povo Tikuna, é reconhecida regionalmente por sua organização social, suas lutas por direitos básicos e pelo protagonismo cultural de suas lideranças.
A programação inclui atividades como mapeamento cultural da comunidade, implantação da web rádio, debates sobre os conceitos de Terra Preta, Ajuri e cidadania digital, além de oficinas de construção de mini transmissores, produção radiofônica, elaboração de roteiros de podcast e intercâmbio entre rádios comunitárias. Também integram o encontro discussões sobre desinformação, fortalecimento da identidade cultural, uso responsável da internet e história das rádios livres e comunitárias.
No campo cultural, o evento é marcado por apresentações artísticas, danças tradicionais, grafismos Ticuna e Kokama, contação de histórias (Oregü) e pelo Ritual da Moça Nova, que encerra oficialmente a programação. Uma feira de comercialização de produtos da comunidade também integra as atividades, fortalecendo a economia local e valorizando saberes tradicionais.
Segundo a organização, o encontro materializa os princípios do Terra Preta Digital ao reunir comunicação popular, tecnologia social e educação digital transformadora em um mesmo espaço de construção coletiva. A iniciativa integra oficialmente a Fase 2 do programa, que busca ampliar a soberania digital nas infovias amazônicas por meio de encontros presenciais, intercâmbio de saberes e consolidação de ecossistemas digitais livres.
As atividades contam ainda com cobertura colaborativa e transmissões ao vivo pela TV Terra Preta, Rádio Xibé e Rádio A’uma.
O objetivo do Terra Preta é promover soberania informacional nas regiões atendidas pelas infovias, estimulando uma internet ética, comunitária e construída a partir dos territórios. Entre os objetivos específicos estão eeconhecer e fortalecer práticas de comunicação popular e educomunicação já existentes; estimular o intercâmbio de saberes entre coletivos e comunidades; ampliar o acesso às tecnologias livres; fomentar meios autônomos de comunicação, como rádios digitais e plataformas comunitárias; e documentar e preservar narrativas e memórias produzidas nos territórios.
A metodologia do programa se baseia no conceito tradicional do Ajuri, prática coletiva do Solimões em que famílias se unem para fortalecer o trabalho umas das outras, em regime de reciprocidade.
Segundo Guilherme Gitahy, doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ) e professor do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o Terra Preta é resultado de décadas de experiências acumuladas por comunicadores amazônicos.
“O programa Terra Preta nasce do trabalho de décadas de rádios livres, comunicadores indígenas, quilombolas, extrativistas, populares e educomunicadores de diferentes regiões da Amazônia. É um grande Ajuri para construir uma Amazônia digital geradora de vida, contrapondo-se ao mundo digital vicioso que está sendo construído por grandes empresas estrangeiras.”
Gitahy explica que a origem do programa está vinculada ao Programa Norte Conectado, responsável pela instalação de infovias nos principais rios da região. Durante o processo de licenciamento, lideranças indígenas já apresentavam diagnósticos sobre os impactos positivos e negativos da internet e desenvolviam estratégias educativas próprias.
“O financiamento vem do Programa Norte Conectado, do Governo Federal, que está construindo infovias nos principais rios da região, levando internet barata e rápida para dezenas de municípios. A empresa Entidade Administradora de Faixa (EAF), responsável pela execução da obra, escutou lideranças indígenas do Rio Solimões para o licenciamento, e descobriu que elas não só já tinham diagnósticos sobre os benefícios e malefícios da internet, como já possuem educomunicadores desenvolvendo estratégias para o seu uso responsável. Surgiu assim o Programa de Educomunicação Indígena e Letramento Digital que contratou educomunicadores indígenas e ribeirinhos para fortalecer esses processos educativos. O programa também é fruto da parceria da EAF com a Universidade do Estado do Amazonas e o Laboratório de Educomunicação Edilberto Sena. Como o programa foi um sucesso, a partir dele foi criado o Programa Terra Preta Digital, com a finalidade de atender mais rios e outras populações além das indígenas.”
Ele complementa detalhando a metodologia:
“A metodologia de organização e trabalho do Programa Terra Preta é o ‘Ajuri de Projetos’. No Solimões, o Ajuri é quando as famílias de uma região se unem para fortalecer o trabalho de uma dessas famílias, por exemplo preparar uma roça ou construir uma casa. Depois essa família retribui em outros Ajuris. É uma instituição milenar, que vem assumindo novas configurações contemporâneas. Na Universidade do Estado do Amazonas, o ‘Ajuri de Projetos’ é a formação de redes de colaboração entre projetos acadêmicos, dos movimentos sociais e outros em forma de Ajuri, o que tem contribuído para enraizar a pesquisa, o ensino e a extensão nos saberes e práticas amazônidas. No Programa Terra Preta Digital, essa metodologia tem permitido amadurecer a colaboração entre diferentes projetos de comunicação popular e de construção do mundo digital, promovendo a união na diversidade.”
Segundo o professor, a estratégia do Programa tem três eixos: enraizamento, compartilhamento e apropriação digital. “O primeiro é cultivado pelo convite e acolhimento de diferentes grupos, respeitando seus modos próprios de pensar e organizar a informação e a comunicação. O segundo equivale ao ‘encontro’ de Paulo Freire, o diálogo criativo que multiplica as forças dos saberes e fazeres. O último diz respeito à construção de um mundo digital com raízes, coletividade, colaboração, respeito à diversidade e soberania.”
O GT Terra Preta reúne uma ampla rede de organizações, universidades e coletivos, como a Ajuri Consultoria Socioambiental; Nômade Tecnologias; Laboratório de Educomunicação Edilberto Sena (UEA); Escola do Futuro (UEA); Rede de Notícias da Amazônia; Coletivo Ampliando Vozes; APAFE; Rhizomatica/Projeto Hermes; Hutukara Associação Yanomami; Urihi Associação Yanomami; Conselho Indígena de Roraima; Laboratório de Cultura Digital (UFPR/MinC); Grupo de Pesquisa História do Digital na Panamazônia (UFPA); Grupo de Pesquisa Cultura Digital e Meio Ambiente (FUNBOSQUE); Laboratório Agência Experimental de Comunicação (UFAP); MediaLab (UNIFESSPA), além de comunicadores, jornalistas e lideranças independentes da Amazônia.
Consulte a programação completa do evento:









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