Publicado em: 22 de janeiro de 2026
Ao observar a transição política que atravessa a ordem internacional contemporânea, o discurso de Mark Carney primeiro-ministro do Canadá, no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2026, chamou minha atenção pela clareza com que enfrentou as transformações em curso. Em um cenário marcado por guerras prolongadas, rivalidades entre grandes potências e desgaste evidente das instituições multilaterais, Carney apresentou um diagnóstico menos retórico e mais estrutural. Para compreender esse momento, retomei uma intuição clássica de Thomas Hobbes: pactos só se sustentam quando amparados por força e autoridade capazes de garanti-los.
Carney reconhece que a ordem internacional baseada em regras atravessa uma ruptura profunda. Segundo ele, esgotou-se a crença de que a interdependência econômica produziria, por si só, estabilidade política. Economista formado em Harvard, doutor por Oxford e ex-presidente dos bancos centrais do Canadá e do Reino Unido, ele fala a partir do núcleo da governança global. Ainda assim, seu discurso evita o idealismo. Ao contrário, propõe um realismo ancorado em valores, no qual potências médias busquem autonomia estratégica e cooperação como condição de sobrevivência em um ambiente internacional marcado por assimetrias de poder. A mensagem é direta: regras só funcionam quando sustentadas por capacidade material e coordenação política.
Essa leitura contrasta com a concepção de política internacional associada a Donald Trump desde seu retorno à presidência dos Estados Unidos, em 2025. A política externa trumpista tem sido marcada pelo transacionalismo, pela centralidade do interesse nacional imediato e pela desconfiança em relação a compromissos multilaterais. A retirada ou o esvaziamento de acordos internacionais, o enfraquecimento de instituições como a Organização Mundial do Comércio e o uso recorrente de tarifas, sanções e pressões econômicas ilustram essa orientação. No campo da segurança, ações unilaterais e demonstrações de força foram apresentadas como reafirmações diretas da soberania estatal, frequentemente acompanhadas de controvérsias jurídicas e humanitárias.
Nesse contexto, torna-se inevitável refletir sobre a soberania de Vestfália. Consolidado a partir dos tratados de 1648, esse princípio estabeleceu o Estado como autoridade suprema dentro de seu território, rejeitando interferências externas. A política externa de Trump retoma essa lógica em sua forma mais rígida, reafirmando o Estado como ator central da decisão política e tratando instituições multilaterais como instrumentos contingentes, úteis apenas quando servem a interesses nacionais específicos. Trata-se de uma soberania exercida por meio do poder econômico, militar e tecnológico.
Carney, por sua vez, não rejeita a soberania vestfaliana, mas propõe sua reinterpretação. Para ele, a soberania contemporânea não se sustenta pela autarquia, mas pela capacidade de cooperar seletivamente em um mundo interdependente. Comércio, tecnologia, energia e segurança aparecem como dimensões inseparáveis de uma mesma realidade política. A defesa da autonomia estratégica, nesse sentido, não implica abandonar o multilateralismo, mas torná-lo mais eficaz, com regras claras, instituições funcionais e coordenação entre Estados capazes de agir coletivamente.
As consequências dessas visões tornam-se evidentes no funcionamento recente do sistema internacional. Nos últimos dois anos, conflitos de alta intensidade e crises humanitárias persistentes, como em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e no leste da República Democrática do Congo, expuseram os limites de uma retórica normativa desacompanhada de poder efetivo. Princípios como direitos humanos e proteção de civis permanecem centrais, mas sua aplicação depende de vontade política, recursos e capacidade institucional. Enquanto Carney aposta nos espaços multilaterais como arenas de coordenação, a estratégia trumpista privilegia a ação direta do Estado soberano, acelerando o enfraquecimento do sistema construído no pós-guerra.
Esse movimento produz efeitos colaterais claros. O desgaste do multilateralismo abre espaço para a atuação estratégica de potências como Rússia e China e pressiona aliados tradicionais dos Estados Unidos a ampliar gastos militares e buscar maior autonomia. Ao mesmo tempo, países do Sul Global, como o Brasil e os integrantes do BRICS, tentam reformular a governança internacional a partir de novas coalizões, equilibrando soberania nacional, cooperação e desenvolvimento em temas como mudanças climáticas e regulação da inteligência artificial.
A disputa entre Carney e Trump vai além de estilos pessoais de liderança. Ela expressa concepções concorrentes da própria ordem internacional. De um lado, a aposta na renovação da cooperação institucional, sem ilusões quanto à centralidade do poder. De outro, a reafirmação da soberania vestfaliana em sua forma mais clássica, baseada na coerção e no unilateralismo. A lição hobbesiana permanece atual: princípios não se sustentam sem meios materiais. O dilema do nosso tempo é decidir se esses meios serão organizados coletivamente ou impostos unilateralmente.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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