Publicado em: 21 de janeiro de 2026
Naquele crepúsculo com o auxílio da luz da fogueira, mais de 60 índios pintados, adornados no corpo com pequenos galhos e flores, exaltados, gritavam na língua tupi, palavras desconhecidas que se perdiam no infinito no meio da mata e rios. Eram os povos tupinambás, filhos daquele chão, filhos daquela selva. Condão de prodígios de gloria e de terror! Reunidos no meio da taba, conclamavam, para a luta.
O morubixaba “Guiaimiaba” – “Cabelo de Velha” – guerreiro valente, revoltado acostumado às intempéries, ao choro da terra, ao terror augural de encantos e feitiços, resolveu lutar por sua gente. Com sangue nos olhos, andando por cima do tempo, com palavras duras. Escutando a mensagem do vento, que dizia para seguir adiante. Virou-se para a tribo, com olhos enviesados e sentimento de vingança conclamou partirem para o ataque.
Os índios de mãos dadas, bradavam, gritavam palavras de ordem, apontavam para o centro da roda com gesto de ódio, “pilhas de objetos: chapéus, garrafas e espelhos”, jogados com desdém, objetos que foram doados pelos colonizadores, fruto da conquista de dois anos, desde que desembarcaram em Mairy, até então recebido de bom grado pelos nativos num relacionamento pacífico de silvícolas e conquistadores, naquele instante jogado no relento.
A causa do aborrecimento! Num dia incerto ocorreu um fato que aborreceu, profundamente, os indígenas. A captura de duas índias de 14 anos, por um quarteto de soldados portugueses à beira do rio Piry (alagado), quando se banhavam. As crianças belas, ternuras perfeitas. Cabelos negros longos esticados na água. Nuas em pelos. Pureza no coração, sem maldade, flores de flores, brincavam sorriam vendo seus rostos deformados na água.
No ar longas aves no céu em curto rasante, silenciosa contemplação das flores embelezavam o lugar, saudando as jovens curumins. Os soldados portugueses olhos de cobiça vieram por entre as ramagens, bisbilhotar as índias tomando banho. Não se contiveram chegaram de surpresa. Arrastaram as pequenas – íncolas – que se debatiam pedindo socorro, as lágrimas rolavam pelas bochechas lisas da mocidade.
Os pássaros nas proximidades se assustaram, ouviu-se pio de algumas aves que saíram em voos e pervoos cobrindo o horizonte. Ouviu-se também o resumo de uma mosca varejeira que passava. Não apareceu nenhuma viva alma para acudi-las. Acompanhavam os sofrimentos das meninas, velhas samambaias, imensa como capão do mato, se via, também, espaçadas no chão, algumas gramíneas, urtigas e orquídeas penduradas nas arvores. Dos tufos das arvores, se ouvia o trinço de passarinho, um beija flor que ruflava, encrespando as asas, deixava penugem de asas esparsadas no ar, deixando sobressair às asas coloridas. O crepúsculo caia manso como uma benção, o rio chorava a prisão de seu leito, abriram-se as chagas do descontentamento as feridas estavam abertas na vida dos índios.
No local onde as índias banhavam-se ficaram pegadas no mangue e duas cuias pitingas abandonadas; os gritos das meninas ecoavam no rumo do fortim, confirmando o que vinha ocorrendo periodicamente, o sequestro frequente das nativas. Do sequestro ficou o calado da maré preamar. Foram testemunhas do ocorrido, algumas plantas bravas que cresciam tão demorosas do céu e chão, próximo do fortim.
Os tupinambás “irados”, “putos da vida”, mobilizam-se para o embate não queriam perder tempo, cada minuto perdido era precioso no duro tempo que se escoava. “Partiram para a guerra”. “A batalha estava no sangue e gênese”. Os selvagens chegavam de vários locais, vinham das enseadas, dos meandros de rios, dos meios das matas, chegavam igual cobra grande, vinham também de canoas, uma atrás da outra, passando a mais que meias dúzias no empuxo de remos alcançando o brejo da beira. O sol a tombar sobre o rio que brilhava, resplandecia na cabeça dos índios revoltosos.
Aproaram próximo do Forte do Presépio, juntaram-se com outros índios que estavam em terra, partiram para o ataque. Assim ao longo “numa Gamboa” atacaram de arco e flecha os abusadores de crianças. Espalhados foram rumo ao forte armados até os dentes. Os gritos dos índios ecoavam, contrastando com silencio da noite. Os gritos dos íncolas enchiam o forte do Presépio.
Os portugueses pareciam esquecidos da bravura dos tupinambás. Pareciam esquecidos que ao redor do Forte do Presépio, estavam os mesmos povos valentes que lutaram com desenvoltura nas ilhas maranhenses, deixando muitas baixas aos colonizadores. Esses desrespeitos dos soldados lusos, contra os nativos provocando confronto desnecessário, colocou em risco a convivência pacífica das duas sociedades, tanto: “a indígena quanto à europeia”. Os portugueses, não compreendiam que os nativos lutavam pela sua cultura, seus campos, suas aves, suas flores. Lutavam pelos murmúrios solitários das mare de enchente e do vento manhoso que encantava e seduzia.
Lutavam pelos cimos das arvores que douravam, pelas altas sumaumeiras, com copas verdes, que se levantavam antes do orvalho. Lutavam por cada pedaço de chão, pelos pequenos grãos, tão pequeninos, mas tão grande nos seus corações. Assim começa o primeiro conflito, da história dos quatrocentos e dez anos de conquista dos portugueses na Província de Santa Maria de Belém do Grão Pará.









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