Publicado em: 18 de janeiro de 2026
Escrevo porque a palavra se oferece como corpo. Ela acontece. Ela fica. Escrever é um modo de estar junto.
A perda vive como estado. Move-se por dentro como um clima íntimo. Minha mãe atravessa a ausência da filha. Eu atravesso a ausência da irmã. A família aprende outro ritmo de ar. Respiramos de maneira íntima e coletiva.
O luto se instala com delicadeza grave. Ele habita gestos mínimos, pausas longas, o começo das manhãs. É uma paisagem interior em movimento contínuo.
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Há dias em que a ordem da vida se inverte. Nestes dias escuros, que hoje perfazem um mês, vivi o revés que fez minha mãe entregar minha irmã à terra fria. Não o entendo, mas ele existe em mim feito um abismo que pensa e olha para mim. A dor vibra no meu peito, silenciosa e voraz. Vejo minha mãe curvada sob o céu cinzento que cobre a última morada, vejo suas mãos trêmulas tocando o solo frio, na tentativa de aquecer o corpo que um dia pulsou em seu ventre. Minha irmã vive agora de outro modo, dentro do ritmo secreto das nossas memórias.
Durante os ritos fúnebres, sob o céu pesado, seguro as mãos pequenas da minha mãe; as mesmas mãos que me ensinaram a abrir as primeiras letras e a rezar as primeiras preces. No final da tarde, o terço passa entre os nossos dedos do mesmo modo que o tempo atravessa a vida. Cada conta é uma âncora lançada em direção à esperança. A fé materna insiste à maneira de Jó, por fidelidade ao que se crê, mesmo na perda brutal. Ela reza e eu permaneço ali, pois permanecer também é uma forma de oração.
Entre cânticos, velas e flores que respiram no ar, as missas de sete longos dias criam um espaço suspenso no calendário. Mãos amigas seguram as nossas mãos feridas pela chaga da dor, formando um círculo de cuidado e de afeto. Nesse gesto de dar as mãos, cantar os cânticos de despedida e orar como ensinou a tradição de nossos pais, a dor aprende a repousar um pouco, enquanto o coração está ao abrigo da fé.
Há algo de antigo e sagrado nos rituais fúnebres. Enquanto vejo a imagem de minha mãe, pequena e sofrida, chorando sobre o esquife, lembro-me do rei Príamo, que se humilhou diante de Aquiles para reclamar o corpo de Heitor. Naquele gesto extremo, um pai entregava o filho ao destino último, para que pudesse ser chorado e honrado pelos seus. Minha mãe teve o privilégio tenebroso de fazer os ritos, que são essa passagem paradoxal, na qual a dor atinge sua forma mais aguda e, ao mesmo tempo, começa a ser sublimada. Ao devolver o ente amado ao Criador, o coração se esforça por encontrar um caminho para transformar o sofrimento em memória, em reverência, em continuidade.
Há um momento em que a fé entra em seu território mais difícil. É quando todas as orações feitas pela vida daquele que amamos permanecem suspensas no silêncio do céu, ou na resposta em contrário. A literatura reconheceu esse instante em que o crente não recebe a resposta que pediu, mas outra resposta mais profunda, como escreveu Dostoiévski, em “Os Irmãos Karamazov”, quando Ivan questiona o silêncio divino diante do sofrimento inocente, rejeitando um mundo onde a dor é o preço da harmonia eterna, mas o romance sugere, através de Zossima e Alyosha, uma aceitação humilde que transforma o padecimento em graça experiencial, em um “salto de fé” que transcende explicações lógicas. Diante desse mistério, a alma aprende a se curvar humildemente, por reverência aos desígnios do céu, que não se explicam, se atravessam. A resignação nasce ali, da escolha de confiar mesmo quando o coração ainda sangra.
A saudade vem em ondas fortes, quebrando nossos arrimos internos de proteção. Traz o perfume do riso da minha irmã, a “caçulinha” dos quatro filhos de minha mãe, o toque leve das suas mãos, os sonhos agora espalhados pelos cantos vazios da casa. A ausência ocupa os quartos, os corredores e o tempo. No centro dessa correnteza, vejo minha mãe tecer uma força feita de fios de lágrimas e de amor, erguendo um lar invisível para que nós, seus filhos, possamos continuar vivendo.
Em algum instante, as lágrimas dela mudam de natureza. Tornam-se um combustível misterioso. Delas nasce a energia para que minha mãe se erga e abra os braços para nós, os filhos, que ainda respiram dentro do luto. Aprendo, ao vê-la, que o pranto vira cuidado e que o amor vira abrigo para os que sofrem ao relento da partida indesejada.
O meu próprio coração torna-se um compartimento secreto, onde eu choro sem que ela perceba, para não contaminar seu coração ainda mais com a minha dor pungente. Nele, a tristeza é trabalhada até virar algo que ainda me sustenta. Deixar minha irmã mover-se livre no tecido das estrelas, enquanto o seu corpo repousa na terra, ensina-me outra forma de presença. A pedagogia do luto nos conduz a viver o invisível entre o que tocamos e o que sentimos. Viver com o que sentimos, mas não podemos ver, é um aprendizado difícil.
Das cinzas deste tempo, minha mãe começa a erguer-se. Vejo-a tornar-se fênix, feita de memória e de fé. Cada dor vira uma pena. Cada lembrança, uma centelha. Ela renasce sem abandonar o que amou, pois carrega minha irmã para sempre em cada batida do coração.
Perder uma irmã é ter retirado de si uma parte do próprio corpo coletivo familiar. Há uma região da alma que se formou ao lado da dela, um território siamês onde nossas memórias, risos e medos se misturam sem fronteira desde a infância. Quando ela partiu, essa parte ficou exposta, aberta ao vazio. Caminho agora nesse terreno sensível: um espaço que ainda reconhece a presença dela do mesmo modo que a pele reconhece um toque que já não existe.
A dor se amplia ao olhar minha mãe e minha sobrinha, mãe e filha da minha irmã. O sofrimento delas tem uma grandeza que ultrapassa a medida humana. Mães e filhas não amam por partes. Amam com o corpo inteiro, com o tempo, com a própria identidade. Ao perder um filho e uma mãe, algo também atravessa o limite da vida comum. Vejo nelas uma paixão no sentido antigo da palavra, um padecimento sagrado, um amor que sangra sem perder sua luz.
Nos olhos da minha mãe existe uma paisagem que poucos conseguem atravessar. É o lugar onde o amor e o luto se tornam inseparáveis. Ali, a memória da minha irmã vive com intensidade absoluta. Não é recordação. É presença transformada. Cada gesto dela carrega ainda o peso e a doçura daquele que foi gerado, acolhido, embalado e ninado para dormir.
A minha dor aprende a reconhecer a dela. Entre nós existe um laço silencioso. Quando ela suspira, algo em mim responde. Quando eu me recolho, ela pressente. Somos duas margens do mesmo rio, ligadas pela ausência que corre no meio.
Talvez seja essa a forma mais ubíqua do amor: continuar sentindo juntos mesmo quando aquilo que nos unia deixou de estar visível. A morte separa corpos, mas intensifica vínculos. Minha irmã não está aqui, mas ocupa um espaço maior dentro de nós. Nesse território invisível, seguimos vivendo com ela, não apesar da dor, mas através dela.
Nossa mãe, aos poucos, reaprende a nos saudar pelas manhãs, certa de que nós, os filhos que ficamos, a aguardamos. Precisamos do seu sorriso feito de sol. Precisamos da doçura da sua alegria para reaprender o mundo. Quando ela nos envolve em seus braços, o fogo que a recriou torna-se calor, um calor que consola, que alimenta e que devolve chão aos nossos pés.
E eu, caminhando ao lado dela, sinto um pouco de paz neste trigésimo primeiro dia.
Uma paz delicada.
Uma paz viva.
Uma paz que respira.



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