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A Polícia Civil de São Paulo cumpriu, na última quinta-feira (15), cinco mandados de busca e apreensão contra um grupo suspeito de estelionato eletrônico voltado à venda de ingressos para shows falsos da banda Iron Maiden. A ação, batizada de “Fear of the Pix” (em referência ao clássico álbum e canção-título Fear of the Dark) teve como foco duas empresas sediadas no Tatuapé, na zona leste da capital, e em Guarulhos, além de endereços ligados aos seus sócios.

A operação apreendeu documentos, seis computadores, 13 relógios, três veículos de luxo e R$ 11 mil em espécie, apontando para movimentação financeira de alto volume. De acordo com a investigação, os suspeitos criaram um site falso que simulava a plataforma oficial da LivePass, responsável pela venda de ingressos para grandes eventos no país. A fraude previa shows fictícios da banda em São Paulo nos dias 25 e 27 de outubro, com ingressos que variavam de R$ 200 a R$ 700.

A apuração começou após um homem relatar à polícia, em dezembro de 2025, que havia pago R$ 690 via PIX pelo suposto ingresso e não recebeu o bilhete. Ao contatar a LivePass, descobriu que estava diante de um domínio fraudulento com estética quase idêntica ao original. Segundo a Polícia Civil, o valor foi destinado à empresa Rede Serviços Financeiros Ltda. por meio da intermediadora Hyper Wallet IP Ltda., que não teria bloqueado ou estornado o montante, apesar da comunicação imediata da fraude.

O delegado-titular do 42º Distrito Policial, Alexandre Bento, chamou atenção para o grau de sofisticação da fraude digital, destacando que “é uma reprodução muito idêntica ao site original” e que divergências mínimas na grafia do endereço são decisivas para identificar falsificações.

Reprodução do site fraudulento

Além da engenharia da fraude, os investigadores identificaram que as empresas envolvidas apresentam constituição recente, alterações societárias sucessivas e histórico de reclamações relacionadas a golpes semelhantes. A polícia trabalha com a hipótese de uma associação criminosa especializada em estelionato eletrônico com ramificações comerciais.

Há indícios de que o grupo movimentou aproximadamente R$ 120 milhões em operações virtuais. Apesar do volume das apreensões, ninguém foi preso até o momento. O caso segue sob investigação como associação criminosa para estelionato eletrônico.

Em nota, a Hyper Wallet Instituição de Pagamento Ltda. afirmou operar dentro dos limites regulatórios estabelecidos pelo Banco Central e declarou não ter vínculo direto com usuários finais. Segundo a defesa, a instituição apenas disponibiliza contas de pagamento empresariais e não integra as relações comerciais entre clientes e terceiros.

A empresa relatou que a conta utilizada no golpe foi aberta em 17 de dezembro de 2025 e encerrada em 26 do mesmo mês, após monitoramento identificar operações incompatíveis com suas práticas de risco. Ressaltou também que inexistem relações societárias ou operacionais com os investigados e que está colaborando com as autoridades.

O caso mostra uma crescente profissionalização de grupos ligados a fraudes digitais, especialmente em plataformas de venda de ingressos e eventos culturais. A simulação de interfaces oficiais, apoiada em domínio, layout e comunicação visual, cria ambiente de confiança e reduz as defesas do consumidor, que realiza operações instantâneas via PIX, sem mecanismos de contestação imediata.

O uso de empresas intermediadoras de pagamento, por sua vez, adiciona camada de opacidade ao rastreamento financeiro, criando obstáculos operacionais e regulatórios para autoridades.

A popularidade de shows internacionais, a volatilidade no preço de ingressos e a limitação de compra oficial tornaram o mercado terreno fértil para fraudadores. Nos últimos anos, denúncias de bilhetes falsos atingiram bandas e artistas de grande público.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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