Publicado em: 16 de janeiro de 2026
A Polícia Civil de São Paulo cumpriu, na última quinta-feira (15), cinco mandados de busca e apreensão contra um grupo suspeito de estelionato eletrônico voltado à venda de ingressos para shows falsos da banda Iron Maiden. A ação, batizada de “Fear of the Pix” (em referência ao clássico álbum e canção-título Fear of the Dark) teve como foco duas empresas sediadas no Tatuapé, na zona leste da capital, e em Guarulhos, além de endereços ligados aos seus sócios.
A operação apreendeu documentos, seis computadores, 13 relógios, três veículos de luxo e R$ 11 mil em espécie, apontando para movimentação financeira de alto volume. De acordo com a investigação, os suspeitos criaram um site falso que simulava a plataforma oficial da LivePass, responsável pela venda de ingressos para grandes eventos no país. A fraude previa shows fictícios da banda em São Paulo nos dias 25 e 27 de outubro, com ingressos que variavam de R$ 200 a R$ 700.
A apuração começou após um homem relatar à polícia, em dezembro de 2025, que havia pago R$ 690 via PIX pelo suposto ingresso e não recebeu o bilhete. Ao contatar a LivePass, descobriu que estava diante de um domínio fraudulento com estética quase idêntica ao original. Segundo a Polícia Civil, o valor foi destinado à empresa Rede Serviços Financeiros Ltda. por meio da intermediadora Hyper Wallet IP Ltda., que não teria bloqueado ou estornado o montante, apesar da comunicação imediata da fraude.
O delegado-titular do 42º Distrito Policial, Alexandre Bento, chamou atenção para o grau de sofisticação da fraude digital, destacando que “é uma reprodução muito idêntica ao site original” e que divergências mínimas na grafia do endereço são decisivas para identificar falsificações.

Além da engenharia da fraude, os investigadores identificaram que as empresas envolvidas apresentam constituição recente, alterações societárias sucessivas e histórico de reclamações relacionadas a golpes semelhantes. A polícia trabalha com a hipótese de uma associação criminosa especializada em estelionato eletrônico com ramificações comerciais.
Há indícios de que o grupo movimentou aproximadamente R$ 120 milhões em operações virtuais. Apesar do volume das apreensões, ninguém foi preso até o momento. O caso segue sob investigação como associação criminosa para estelionato eletrônico.
Em nota, a Hyper Wallet Instituição de Pagamento Ltda. afirmou operar dentro dos limites regulatórios estabelecidos pelo Banco Central e declarou não ter vínculo direto com usuários finais. Segundo a defesa, a instituição apenas disponibiliza contas de pagamento empresariais e não integra as relações comerciais entre clientes e terceiros.
A empresa relatou que a conta utilizada no golpe foi aberta em 17 de dezembro de 2025 e encerrada em 26 do mesmo mês, após monitoramento identificar operações incompatíveis com suas práticas de risco. Ressaltou também que inexistem relações societárias ou operacionais com os investigados e que está colaborando com as autoridades.
O caso mostra uma crescente profissionalização de grupos ligados a fraudes digitais, especialmente em plataformas de venda de ingressos e eventos culturais. A simulação de interfaces oficiais, apoiada em domínio, layout e comunicação visual, cria ambiente de confiança e reduz as defesas do consumidor, que realiza operações instantâneas via PIX, sem mecanismos de contestação imediata.
O uso de empresas intermediadoras de pagamento, por sua vez, adiciona camada de opacidade ao rastreamento financeiro, criando obstáculos operacionais e regulatórios para autoridades.
A popularidade de shows internacionais, a volatilidade no preço de ingressos e a limitação de compra oficial tornaram o mercado terreno fértil para fraudadores. Nos últimos anos, denúncias de bilhetes falsos atingiram bandas e artistas de grande público.









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