Publicado em: 13 de janeiro de 2026
Com participação expressiva de visitantes – que pela primeira vez em 125 anos usaram livremente a tribuna, para se manifestar ou declamar – a Academia Paraense de Letras estreou com protagonismo no projeto Uma Noite no Museu, concebido pela Secult, que proporciona um circuito unindo todos os espaços museológicos e culturais de Belém do Pará. Foi um momento ímpar e memorável, que durou quatro horas, das 18h às 22h.
Na mesa conduzida pelo presidente da APL, Ivanildo Alves, ladeado pelo reitor da Universidade Federal do Pará, Gilmar Pereira, os acadêmicos Marcos Valério Reis, Benilton Cruz, Sarah Castelo Branco Rodrigues, Zenaldo Coutinho e Nazaré Mello, os literatos Daniel da Rocha Leite e Antonio Juraci Siqueira e o presidente da Imprensa Oficial do Estado, Jorge Panzera, transitaram entre poetas e escritores de Belém, do Marajó, do Oeste, do Sudeste, do Nordeste do Pará, trovas, jogos florais, mitos e lendas amazônicos. Os 410 anos da capital parauara fervilharam, lembrando José Ildone, Alonso Rocha, Bruno de Menezes, Benedito Nunes, Paes Loureiro, Max Martins, Antonio Tavernard, José Wilson Malheiros da Fonseca, Avertano Rocha… Era visível a emoção das pessoas por terem a oportunidade de usar a tribuna da APL, em depoimentos literários. Professores, poetas, estudantes, escritores, leitores, todos puderam falar.
Houve também exposição de livros: obras de Leonam Gondim da Cruz Jr., de Garibaldi Parente, da Malta de Poetas, de José Wilson Malheiros da Fonseca, Antologia dos Poetas Brasileiros, Benilton Cruz, e a coleção dalcidiana presenteada à biblioteca da Academia pela Ioepa.
O professor doutor Gilmar Pereira discorreu sobre o porquê de a leitura ser fundamental, não só para a área de Humanidades mas em todo e qualquer setor de atuação, e a profissão de professor ser absolutamente necessária, eis que explica o mundo. Há uma vibração rara que acontece quando o reitor da UFPA toma a palavra e a transforma em caminho, figura exemplarmente humana que é. O conhecimento, o profissionalismo e a cordialidade pautam sua imensa contribuição ao desenvolvimento educacional, social e científico, expressando que é possível fazer ciência e uma brilhante carreira acadêmica sem abrir mão de atuar como liderança compromissada com a inclusão e a afirmação das vozes amazônicas em espaços nacionais e internacionais.
Daniel da Rocha Leite, além de declamar com grande força dramática, tratou de sua tese sobre Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, que é original, impactante e de alta relevância para o estudo da literatura machadiana. Reavaliando a personagem para além da perspectiva de Bentinho, o narrador-personagem, que funciona como acusador, Daniel evidenciou conexões e o diálogo entre Direito e Literatura na obra. Descrita com “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e cuja inocência ou culpa em relação ao suposto adultério é objeto de debate constante na literatura brasileira, Capitu é inocente, até que se prove contrário. A ela deve ser dado o contraditório e a ampla defesa.
Existe uma questão relevante no livro, sempre apagada, que Daniel ressalta: a naturalização da morte feminina. Nele, um homem garantido por um histórico poder social, detentor do monopólio da palavra, narra, acusa e sentencia Capitu ao escrever as suas memórias de marido traído. Mas Daniel reverte a narrativa e aponta para a história de uma mulher objetivada por ciúmes e inseguranças de um homem, consubstanciando, assim, uma nova leitura sobre a trama machadiana.
Em sua fala, Daniel da Rocha Leite expôs que Dom Casmurro, sendo advogado, narra a história como se estivesse instruindo um processo judicial para, ao fim, acusar Capitu de adúltera e considerar, como sanção necessária, a morte dela e do filho. Capítulos são nomeados como os autos de um processo ou trazem referências jurídicas que equiparam a narração a um trâmite criminal (III – A Denúncia; XIV – A Inscrição; XXIII – Prazo Dado; XLI – A audiência secreta; LXV – A Dissimulação; XCVI – Um substituto; CXIII – Embargos de Terceiro; CXX – Os Autos; CXXIV – O Discurso; CXLI – A solução) para, na conclusão, sentenciar Capitu como culpada, “a terra lhe seja leve”. O narrador, nos moldes de um juízo de exceção, tenta esconder sua vingança e punição como ato de justiça e benevolência de um bom marido que sublimou a traição da esposa.
Daniel salienta uma assertiva crucial do narrador diante de Capitu, “uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem”, constatação que leva Bentinho ao apagamento da voz e da memória de uma mulher que, na verdade, representa, para a autoridade desse homem que necessita escrever a história de sua vida, a insuportável matriz de uma mediação feminina.
Marcos Valério Reis, ao se pronunciar, enfatizou o quanto a literatura produzida na Amazônia é rica, destacando seus vários movimentos, desde o surgimento de associações e agremiações que buscavam dentro de seus contextos centralizar uma literatura produzida por escritores e intelectuais da região, e que precisa ser evidenciada nas escolas e universidades.
Os manifestos literários, características dos movimentos de vanguarda, serviram ao longo da história para divulgar nova maneira de pensar e foram incorporados à vivência literária. No Norte brasileiro, buscavam evidenciar a produção literária local com base em suas particularidades, de modo a disseminar obras e autores ocultos diante da hegemonia do Sul e Sudeste do Brasil, pontuou Marcos Valério, acentuando expressões como “O Sul se esquece de nós”, do escritor Abguar Bastos no manifesto Flamin” Assu de 1927 e no mesmo tom no livro “crônicas de um poeta” de Georgenor de Souza Franco, que em 1986 verbalizava: “o nosso Estado (Pará) nunca esteve atrelado a carro de bois”.
Outra expressão, reverberada por Francisco Galvão no seu Manifesto à Beleza: “São Paulo está com nossas ideias”. Severino Silva potencializou essas discussões no primeiro número da revista Belém Nova, marco do modernismo paraense, incentivando os escritores a reagir diante do que acontecia com a arte na região. Essas frases circulavam nos grupos de escritores paraenses que bradavam o espaço das letras amazônicas em um cenário colonialista sudestino, sublinhou Marcos Valério, frisando que na poesia Arte Nova de 1920 Bruno de Menezes já buscava uma “arte original”, mesmo antes da semana paulista de 1922 e Peregrino Júnior relatava que os movimentos literários aconteciam no Pará em um cenário cultural desde 1919 e, notadamente, na revista Efémeris, para ele o primeiro sinal do Modernismo no Brasil.
Na quarta edição da revista Belém Nova, Bruno de Menezes escreveu um manifesto editorial com o título de “Para Frente!”, destacando os esforços coletivos dos intelectuais nortistas dentro do movimento modernista e em seguida outro, “Uma reacção necessária”. Em consonância com esse pensamento, Abguar Bastos lançou o manifesto “À geração que surge” em 1923, brado e dissonância em “um apelo de necessidade e independência” das letras nortistas, nele rejeitava os ditames provenientes do Sul e assumia sua “amazonicidade” contrapondo-se ao pensamento sulista, explicou Marcos Valério, para quem o desagravo desse manifesto está na enunciação de uma literatura esquecida, um discurso altamente político-literário.
O sentimento de pertencimento e por vezes bairrista de Bastos e a sua arte literária são os estopins da batalha travada contra a literatura sulista, por isso, brada em seu manifesto: “Criemos a Academia Brasileira do Norte”. É um convite aos artistas e escritores do Norte brasileiro à aderirem a renovação literária. Para Bastos o “Pará deveria ser “o baluarte da liberdade Nortista”. Transgredir o que estava instituído na perspectiva de que o “sul esquece de nós”. Por isso, era o momento, “a hora extraordinária de seu levantamento”. Convoca a “mocidade” a experimentar um novo tempo, a ação libertadora da literatura, com dinamismo, patriotismo e renovação. Sua convocação, nesse manifesto, queria por fim ao estado de estagnação que a arte literária vivenciava, sobretudo porque “é chegada a hora extraordinária”, pontuou Marcos Valério, em sua intervenção.
Sarah Rodrigues abordou a importância vital da trova na literatura e cultura popular amazônica, forma de poesia popular que capta a voz, o humor e as coisas simples da vida da região e que funciona como meio acessível e eficaz de expressão, educação e preservação cultural, falando diretamente ao coração do povo, refletindo o cotidiano, as crenças, as lendas e o imaginário local, como as histórias das Icamiabas e do Muiraquitã.
Em razão de sua simplicidade, sonoridade e facilidade de memorização, as trovas (junto com o cordel) são frequentemente utilizadas em projetos educacionais para despertar o gosto pela leitura e declamação em crianças e jovens da Amazônia. Sarah dissecou a estrutura da trova — geralmente uma composição de quatro versos de sete sílabas poéticas (redondilha maior), com rimas, sentido completo e independente -, obra de arte que exige criatividade e sensibilidade, democratiza a poesia, tornando-a parte integrante da vida diária e não apenas um gênero literário acadêmico. Em uma região onde a tradição oral e as narrativas folclóricas são cruciais para a transmissão de conhecimentos e história, a trova ajuda a manter vivas essas histórias e a identidade cultural, é um veículo cultural dinâmico que conecta as pessoas às suas raízes, paisagens e realidades, funcionando como um espelho da alma amazônica, enfatizou a literata.
Antonio Juraci Siqueira – Totó do Cajary, Juraboto, Filho do Boto ou Jura, para os amigos – é personalidade ímpar. Sarah Rodrigues e Benilton Cruz lembraram que, nos anos 1980, eram onipresentes em Belém os seus varais com cordéis e trovas. Naquela época ele mesmo editava seus livros, de forma artesanal, e os vendia a preços simbólicos, incentivado pelo genial Vicente Salles, que via no menino que queria ser canoeiro o enorme talento e o estimulava a escrever com temas da Amazônia. Juraci virou timoneiro da poesia e leva através das décadas suas trovas em coraçõezinhos coloridos que oferece a cada pessoa que encontra e derrama sua prosa e versos aos leitores nas praças, escolas, universidades e até durante as muitas viagens pelos rios amazônicos.
Benilton Cruz recitou um trecho da peça “O Filho das Águas Grandes”, de José Wilson Malheiros, do livro “A Boiúna Consagrada”, que trata do caso de uma mulher mundiada e engravidada pelo Boto, e que recebe muitos benzendeiros, um mais engraçado que o outro, e inúmeras rezas, uma mais poética do que a outra. Também leu trechos de livros de Leonam Cruz Jr., Betânia Fidalgo Arroyo, Agildo Monteiro, Salomão Habib, Zenaldo Coutinho e Sarah Monteiro, comentando cada um acerca de sua importância literária. E o escritor sintetizou com maestria: “Uma Noite no Museu na APL foi com livros, encontros, recitais, cantos, contos & causos, trovas & trovadores, poesia & performances – foi para celebrar a face poética da linguagem, a humana arte da palavra”.
O literato Ivanildo Alves, acatando a afirmação de Sarah Rodrigues, lamentou que Juraci ainda não seja membro da APL, que certamente engrandeceria, com o que todos manifestaram apoio através de aplausos. O presidente da Academia Paraense de Letras foi muito elogiado por todos os presentes pela iniciativa inédita de abrir as portas da centenária APL não apenas para os acadêmicos serem ouvidos, mas principalmente para dar espaço e voz aos que amam a literatura, as artes, a cultura em todas as suas manifestações. Ivanildo Alves aproveitou a oportunidade para informar que ainda em janeiro a Academia terá mais dois eventos inovadores: uma roda de conversa sobre a ocupação cultural do Parque da Cidade, com o seu idealizador, conselheiro do TCE-PA aposentado Nelson Chaves, que também foi deputado e vereador presidente da Câmara Municipal de Belém; e uma feirinha de livros com várias atividades durante um dia inteiro, e que será mensal.
































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