Publicado em: 13 de janeiro de 2026
O Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) publicou um conjunto de fotografias produzidas no fim do século XIX no Portal Brasiliana Fotográfica. A divulgação inclui registros da capital e de ilhas próximas, como Mosqueiro, e acompanha um artigo analítico que contextualiza os cenários, os autores das imagens e o período em que foram produzidos.
A iniciativa envolve a digitalização de parte da Coleção Fotográfica do Arquivo Guilherme de La Penha, setor responsável pela preservação de documentos históricos produzidos por pesquisadores e servidores do Museu Goeldi ao longo de décadas. O acervo reúne cerca de 20 mil itens entre negativos em vidro, impressões, fototipias e cópias digitais de coleções privadas. A estreia no Brasiliana ocorreu com a publicação de 34 imagens e, até o momento, já são 68 registros disponíveis para consulta online, com a previsão de ampliação contínua.
Os registros ajudam a compreender a vida urbana no auge do ciclo da borracha, quando Belém experimentou um processo acelerado de modernização. Estruturas metálicas, locomotivas, sistemas de iluminação pública e mão de obra operária aparecem nos enquadramentos. O artigo que acompanha o álbum destaca o papel do fotógrafo alemão Ernst Lohse (1873–1930), cujas imagens exibem “a cidade que se modernizava”, enquanto o botânico suíço Jacques Huber (1867–1914) registrava um outro tipo de transformação: a floresta original cedendo espaço à urbanização. Para os pesquisadores, essa diferença de perspectiva representa “uma inversão epistêmica”, ao recolocar a vegetação como protagonista das composições.

O bairro de São Brás é um dos cenários mais recorrentes. O contraste entre o passado registrado e a paisagem atual torna evidente a mudança no território, onde estruturas como a tradicional caixa d’água sobreviveram ao tempo, enquanto a cobertura vegetal foi paulatinamente substituída por ruas, edificações e infraestrutura urbana. O material, além de contribuir para a história de Belém, fornece referências para pesquisas sobre o legado colonial, a cultura material, a formação do espaço urbano e as relações entre humanos e não humanos na Amazônia.

O Portal Brasiliana Fotográfica é mantido pela Fundação Biblioteca Nacional e pelo Instituto Moreira Salles. Reúne mais de dez mil fotografias históricas produzidas nos séculos XIX e XX, provenientes de 15 instituições brasileiras. A inclusão do Museu Goeldi, em 2025, foi a primeira parceria formal da plataforma com uma instituição do Norte do país e ampliou a circulação nacional de acervos amazônicos.
Lilian Bayma de Amorim, chefe do Serviço do Arquivo e Memória Guilherme de La Penha, explica que o acordo vinha sendo construído desde 2022 e responde a uma demanda acumulada de pesquisadores. Segundo ela, a digitalização e disponibilização na plataforma atende a uma preocupação antiga do Museu Goeldi: “não é só preservar, conservar, guardar… É disponibilizar”. Ao comentar as dificuldades de acesso presencial ao acervo, ressaltou que pesquisadores de diferentes regiões do Brasil e do exterior recorriam ao arquivo em busca desse material, antes restrito ao Campus de Pesquisa do MPEG.
Os pesquisadores Nelson Sanjad, Lilian Bayma e Pablo Borges assinam o artigo que contextualiza o acervo recém-publicado. Eles destacam que as imagens “podem nos contar muito sobre os habitantes da região, humanos e não humanos; sobre as paisagens do passado, a cultura material, a arquitetura de cidades; sobre nosso legado colonial e também sobre nossa perspectiva de futuro”. O texto explica e evidencia o caráter documental das fotografias como fontes primárias de pesquisa, não apenas como registros estéticos.
A digitalização não se limita ao Brasiliana Fotográfica. O Museu Goeldi também estuda a adoção do software multilíngue AtoM (Access to Memory), que permitirá consultas online a descrições arquivísticas por meio de navegador. O sistema encontra-se em fase de implementação e treinamento interno e deve ampliar, nos próximos anos, o acesso ao acervo fotográfico e documental preservado pelo Arquivo Guilherme de La Penha.
Para março, está prevista uma nova leva de publicações no Brasiliana, desta vez em homenagem à pesquisadora Emilia Snethlage, primeira mulher a presidir uma instituição científica no Brasil ao assumir o comando do Museu Goeldi em 1914. A divulgação integra as ações comemorativas pelos 160 anos do MPEG, a serem celebrados em 2026.
Imagem em destaque: Feira do Ver-o-Peso (Antes de 1910) – Jacques Huber.









Comentários