Publicado em: 12 de janeiro de 2026
Passaram-se 27 anos desde “Central do Brasil” e na madrugada de 12 de janeiro, quando o fuso horário costuma diluir o ritmo do corpo e da mente, o cinema nacional voltou a despertar o mundo. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi premiado no Globo de Ouro 2026 nas categorias de melhor filme em língua não inglesa e melhor ator de drama para Wagner Moura. Com as premiações, está de volta a sensação de que o Brasil volta a ser pronunciado com reconhecimento e curiosidade no centro da indústria cinematográfica global. O intervalo não foi vazio, mas foi árduo, sempre desafiador.
O Globo de Ouro ocupa um lugar diferenciado na indústria do cinema. Não é apenas um termômetro para o Oscar, embora costume ser lido assim; tampouco se resume a um espetáculo de vaidades. Trata-se de um prêmio que, nos últimos anos, vem se reorganizando diante das pressões de representatividade, transparência e diversidade cultural. Seu processo de internacionalização, espelhado, ainda que com mais lentidão, pelo Oscar, revela uma indústria que, em certos momentos estratégicos, suspende seus automatismos. É quando o mercado de apostas dá uma pausa nos prêmios previsíveis e abre espaço para narrativas que escapam do eixo dominante, movimentando não somente valor simbólico, como também novos fluxos financeiros, acordos de distribuição e novas geografias do desejo cinematográfico.
Nesse contexto, a vitória de “O Agente Secreto” não ocorre por acaso. A concorrência enfrentada por Kleber Filho e Wagner Moura foi plural, marcada por cinematografias diversas, estéticas diferenciadas e atores consagrados em diferentes tradições nacionais. O prêmio de melhor filme em língua não inglesa e o reconhecimento de melhor ator de drama vão além da celebração de um trabalho específico e sinalizam um deslocamento: o cinema brasileiro deixa de ser exceção exótica e passa a ser interlocutor legítimo. As perspectivas para o Oscar 2026, inevitavelmente, se ampliam como consequência de uma estratégia de visibilidade sistemática e internacional.
A trajetória de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho ajuda a compreender esse momento. Moura construiu uma carreira que atravessa o teatro, o cinema autoral brasileiro e produções internacionais sem jamais afetar sua identidade. Seu corpo em cena carrega tensão política, fragilidade humana e um senso agudo de tempo histórico. Kleber, por sua vez, vem edificando uma filmografia que transforma espaços urbanos em arquivos vivos do Brasil: ruas, edifícios, sons e silêncios funcionam como personagens. Em “O Agente Secreto”, essa parceria alcança maturidade rara.
Ambientado na capital pernambucana no ano de 1977, o filme é atravessado pelo luto íntimo e coletivo. O luto de um país que ainda aprende a nomear suas feridas, o luto de indivíduos esmagados por estruturas de poder, o luto que não paralisa, mas exige elaboração, reação.
Aqui, Recife não é mais cenário ilustrativo, e sim organismo pulsante, onde a história do Brasil é traduzida em detalhes bem costurados numa narrativa que dialoga com o passado e o momento presente.
Fazer filmes, no Brasil, ainda é um ato de resistência e, agora, também de possibilidade concreta. No discurso de agradecimento, Kleber Filho sintetizou a profissão de diretor de cinema ao dizer: “Jovens, façam filmes.” A frase, simples e direta, ecoa como incentivo vocacional e afirmação de continuidade.
O peso da conquista de novos prêmios recai sobre algo maior que troféus. Reafirma que o cinema brasileiro segue sendo movido por qualidade e novidade, mesmo com problemas de recursos e contexto adverso. Há, nessas premiações, um sentimento positivo de pertencimento: ser brasileiro, por meio da cultura cinematográfica, volta a ser motivo de orgulho compartilhado.
Não surpreende que a repercussão tenha assumido ares de torcida organizada. As redes vibraram como final de campeonato, em um ano já atravessado pelo imaginário da Copa do Mundo.
O cinema, mais uma vez, ocupa o lugar de linguagem comum, capaz de suspender diferenças e produzir afeto coletivo. Um lembrete de que, quando o Brasil olha para si com rigor estético e histórico, o mundo, ainda que tardiamente, presta atenção.
Credito da foto: Laura Castor









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