Publicado em: 6 de janeiro de 2026
A campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre saúde mental e emocional, ganha especial relevância quando o foco recai sobre adolescentes e jovens adultos. Informações da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, analisadas em estudo publicado na Revista Mineira de Enfermagem, indicam que mais da metade dos adolescentes brasileiros se sentem frequentemente preocupados. O levantamento, que reuniu dados de cerca de 125 mil estudantes entre 13 e 17 anos, aponta ainda que 31,4% relataram tristeza persistente, 21,4% afirmaram sentir que a vida não vale a pena ser vivida e 17,7% avaliaram negativamente a própria saúde mental. Os números evidenciam um nível significativo de sofrimento emocional nessa faixa etária.
O contato precoce com informações sobre saúde mental é um fenômeno ambíguo. Há avanços importantes, como a redução do silêncio e do estigma em torno do tema, mas também riscos evidentes pois, apesar do aspecto positivo na redução do silêncio e do estigma, cria-se o risco de confundir informação com diagnóstico.
A adolescência, explica Alaor Carlos de Oliveira Neto, psiquiatra e coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é um período marcado por transformações emocionais, sociais e identitárias profundas. Nem todo sofrimento vivido nessa fase indica, necessariamente, um transtorno psiquiátrico. Ainda assim, todo sofrimento merece atenção e acolhimento.
O crescimento de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais tem permitido que muitos jovens encontrem linguagem para nomear sentimentos e reconhecer sinais de alerta. No entanto, a exposição constante a listas de sintomas, vídeos explicativos e relatos pessoais também pode estimular interpretações precipitadas. É cada vez mais comum que pacientes cheguem ao consultório já se identificando com diagnósticos obtidos a partir da internet.
Para o especialista, demonizar o ambiente digital não é o caminho. As redes sociais fazem parte da realidade cotidiana de adolescentes e jovens e devem ser compreendidas com maior nuance. Elas ampliam o acesso à informação e ao debate, mas exigem leitura crítica e mediação qualificada. “O desafio é entender como dialogar com esse público e extrair o melhor desse ambiente, sem demonizar a rede social como se ela fosse, sozinha, a causa de tudo”, pontua.
Na prática clínica, o elemento central para diferenciar um transtorno mental de reações emocionais próprias do desenvolvimento está no impacto funcional. Só é possível falar em diagnóstico quando há prejuízos claros na vida cotidiana, como dificuldades significativas na escola, no trabalho, nas relações interpessoais ou na autonomia. “Para falarmos em diagnóstico, é fundamental haver impacto funcional: na escola, no trabalho, nas relações ou na autonomia. Sem isso, o rótulo pode mais confundir do que ajudar”, alerta o psiquiatra.
O risco do autodiagnóstico fechado antes de uma avaliação especializada, é atrasar intervenções mais adequadas. O diagnóstico deve ser entendido como uma ferramenta clínica, e não como uma identidade fixa. Não deve servir como identidade ou explicação total da vida da pessoa e sim como uma ferramenta clínica para orientar o cuidado.
O psiquiatra ressalta ainda que dificuldades comuns não devem ser automaticamente associadas a transtornos específicos. Nem toda dificuldade de concentração indica transtorno de déficit de atenção, nem todo desconforto social configura um transtorno do espectro autista, assim como nem toda tristeza caracteriza depressão. A avaliação especializada é o que permite distinguir essas situações e orientar o cuidado adequado.
Reconhecer o momento de buscar apoio profissional é um passo fundamental. Ansiedade persistente, alterações significativas de sono, apetite ou humor ao longo de semanas, crises de pânico ou sintomas físicos recorrentes sem causa clínica aparente são sinais que merecem atenção. O isolamento social progressivo, a perda de interesse por atividades antes prazerosas e o uso de álcool ou outras substâncias como tentativa de aliviar o sofrimento emocional também configuram alertas importantes.
Em casos de desesperança intensa ou pensamentos de autolesão, a orientação é procurar ajuda imediata em serviços de saúde ou canais de apoio. No ambiente digital, o consumo de conteúdos sobre saúde mental deve ser feito com cautela. Como reforça o especialista, a informação pode ajudar a perceber que algo não vai bem, mas jamais substitui uma avaliação clínica. “A informação pode ajudar a reconhecer que algo não vai bem, mas não substitui uma avaliação clínica. A recomendação é evitar diagnósticos simplificados e levar dúvidas e identificações para profissionais qualificados”.









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