Publicado em: 6 de janeiro de 2026
Durante a COP30, a Casa Sul Global lançou o manifesto “Sul Global no Centro: por uma nova arquitetura de financiamento para Clima, Natureza e Pessoas”, um documento que questiona o modelo dominante de financiamento internacional para enfrentar a crise climática e defende a centralidade das soluções construídas nos próprios territórios mais afetados. Elaborado por uma coalizão de organizações e fundos de justiça socioambiental da América Latina, África e Sudeste Asiático, o manifesto aponta que a atual arquitetura financeira global permanece concentrada no Norte Global, reproduzindo desigualdades históricas e limitando o alcance de respostas efetivas à emergência climática.
A proposta parte da constatação direta de que as respostas para a crise já existem e estão sendo construídas por comunidades, povos indígenas, quilombolas, coletivos urbanos, movimentos feministas e organizações de base do Sul Global. O documento sustenta que essas iniciativas seguem subfinanciadas e pouco reconhecidas, apesar de sua capacidade comprovada de promover adaptação climática, regeneração ambiental e justiça social.
Ao defender uma mudança estrutural na forma como os recursos circulam, o manifesto apresenta princípios para uma nova arquitetura de financiamento baseada em legitimidade, responsabilidade, justiça, diversidade e solidariedade. Segundo o documento, essa transformação exige deslocar poder decisório, priorizando a escuta ativa e a confiança nas organizações que atuam diretamente nos territórios. “Nos unimos n’A Casa Sul Global para dar visibilidade à nossa filantropia de justiça socioambiental do e para o Sul Global. Somos um ecossistema diverso de financiamento do Sul Global geopolítico, presentes na Ásia, África e América Latina. Abrangemos múltiplos biomas, idiomas e culturas — e representamos nossos povos, comunidades e movimentos do campo, das cidades, das florestas e das águas”, afirma o manifesto.
A legitimidade defendida no texto está associada à participação efetiva das comunidades mais impactadas pelas mudanças climáticas nas instâncias de decisão. O documento ressalta que não se trata apenas de consultar esses atores, mas de garantir que tenham poder real sobre prioridades, estratégias e distribuição dos recursos. Já a responsabilidade compartilhada propõe superar modelos excessivamente burocráticos, substituindo-os por mecanismos mais ágeis, contínuos e capazes de responder às urgências dos territórios.
A dimensão da justiça e da reparação ocupa lugar central no manifesto ao reconhecer que o financiamento climático internacional ainda carrega marcas profundas do colonialismo, do racismo estrutural e das desigualdades de gênero. Para a coalizão, enfrentar a crise climática exige também corrigir essas assimetrias históricas, garantindo que os recursos cheguem a quem está na linha de frente da proteção da natureza e da vida. A diversidade e a interseccionalidade aparecem como princípios estruturantes, assegurando o reconhecimento de fundos comunitários, indígenas, quilombolas, feministas, de juventude e de base como atores legítimos do ecossistema global de financiamento.
O texto dedica atenção especial ao papel dos fundos de justiça socioambiental do Sul Global, apresentados como instrumentos estratégicos para democratizar o acesso aos recursos. Por serem enraizados nos próprios territórios, esses fundos operam com proximidade, transparência e inovação, reduzindo custos, riscos e intermediários. Segundo o manifesto, sua governança baseada na confiança e na responsabilidade compartilhada permite que o financiamento seja direcionado de forma mais eficaz para iniciativas concretas de adaptação climática, regeneração ambiental e fortalecimento comunitário.
Além de um diagnóstico crítico, o manifesto se apresenta como um chamado à ação coletiva. A Casa Sul Global propõe a construção de alianças entre filantropia, governos, setor privado e sociedade civil para reconfigurar o ecossistema de financiamento internacional. O objetivo é mover recursos de maneira descentralizada, transparente e justa, reconhecendo o protagonismo dos territórios e a potência das soluções locais. “Os fundos de justiça socioambiental do Sul Global apontam caminhos possíveis para uma nova arquitetura de financiamento baseada na escuta, na confiança e na solidariedade entre povos e comunidades”, afirma o documento ao concluir que a transformação do sistema depende de ação conjunta e compromisso político.
A Casa Sul Global se define como um espaço de articulação política, mobilização e produção de conhecimento voltado ao fortalecimento do protagonismo do ecossistema filantrópico do Sul Global. Liderada pela Alianza Socioambiental Fondos del Sur e pela Rede Comuá, a iniciativa reúne dezenas de organizações independentes da América Latina, África e Sudeste Asiático. Em 2025, conta com a parceria do movimento #ShiftThePower e da Rede de Fundos Comunitários da Amazônia, além do apoio de instituições como Baobá – Fundo pela Equidade Racial, Fundo Brasil, Fundo Casa Socioambiental, Instituto Clima e Sociedade, Fundação Avina, Instituto Ibirapitanga e diversas outras organizações nacionais e internacionais. O IIED atua como parceiro de conhecimento, enquanto ClimaInfo e Proximate respondem pela comunicação.









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