Publicado em: 19 de novembro de 2025
Há uma espécie de brasileiro que, em silêncio e com refinado desalento, cultiva uma paixão discreta pela Europa. Não é o europeu de passaporte, mas o de alma, aquele que suspira ao ouvir um fado, que acha o inverno de Munique mais poético do que qualquer verão carioca, que considera a feijoada um equívoco histórico e o samba uma algazarra desnecessária. É alguém que se sente mais à vontade diante de um silêncio europeu imaginário do que diante da exuberância sonora da própria terra.
Ele não odeia o Brasil com gritaria de torcida contrária. Odeia-o com a elegância de quem troca de canal quando aparece um desfile de escola de samba. Prefere Camus a Machado de Assis, que considera brilhante, mas, no fundo, paraíso demais do próprio quintal. Provinciano, murmura como quem pede desculpa. Acredita que a verdadeira literatura se escreve em francês ou, no mínimo, em português de Lisboa. Guimarães Rosa lhe parece um excesso bárbaro. Clarice Lispector, intensa demais para o gosto clássico que ele acha ter herdado por osmose, embora jamais o tenha confirmado. Em momentos de exaltação, cita “c’est la vraie littérature” como quem exibe um brasão de família.
À mesa, recusa a mandioca com a mesma delicadeza com que recusa o calor de 38 graus. “Eu prefiro algo mais… léger.” O vinho é sempre europeu, de preferência acima dos 14 graus de álcool, porque aqui o paladar ainda está se formando. O acarajé lhe parece exótico demais; já o croissant com manteiga d’Isigny representa, para ele, a civilização em forma de massa folhada. Se alguém comenta sobre a gastronomia brasileira, ele responde com ar professoral: das ist nicht mein Geschmack.
Quando alguém menciona Gobineau, ele não cora. Sente-se, secretamente, compreendido. Não que o cite em voz alta, Deus o livre, mas há naquela hierarquia implícita de climas e raças algo que lhe soa quase científico. Não seria preconceito, acredita ele. É apenas bom gosto. O Brasil seria perfeito, pensa, se fosse um pouco menos Brasil e um pouco mais Áustria. Wien wäre ideal, imagina, com um meio sorriso.
Ele viaja para a Europa e, ao voltar, fala das cidades limpas, dos transportes que funcionam, das pessoas educadas. Nunca percebe que fala como quem acaba de descobrir a roda. No fundo, carrega uma saudade que não é sua, uma saudade emprestada, a nostalgia de um avô que nunca existiu, de uma genealogia que imagina imaculada, de uma brancura que julga ter perdido em algum ponto entre o porto de chegada e o primeiro dezembro tropical. É uma Sehnsucht que não se dissolve, mesmo quando a racionaliza.
Vive um exílio sem passaporte. Um luto por uma pátria que nunca existiu. E, enquanto toma seu café passado na hora certa, com a xícara certa, na temperatura certa, lamenta em silêncio, com a mais fina das melancolias, que o destino o tenha feito nascer em um país tão exuberante, tão vivo, tão irremediavelmente brasileiro.
Paris, para ele, não é uma cidade. É um sacramento.
Ele nunca diz eu amo Paris com a vulgaridade de quem ama um time de futebol. Apenas deixa escapar, entre duas taças de Sancerre, que só se sente realmente em casa quando desce no Charles de Gaulle. Je suis enfin chez moi, sussurra, acreditando que ninguém ouviu. O resto do ano é um exílio disfarçado de vida normal.
Conhece os arrondissements como quem conhece as linhas da própria mão. Fala do 6ème com intimidade de quem lá nasceu, embora tenha vindo ao mundo entre o asfalto rachado da Avenida Paulista ou o concreto sem graça de Brasília. Saint-Germain-des-Prés é seu bairro natal imaginário. O Café de Flore, a sala de estar que o destino lhe negou. Em seu íntimo, acredita que deveria ter conhecido Marguerite Duras em algum entardecer. On se retrouve là-bas, diz, mesmo sem nunca ter estado ali com ninguém.
Em Paris, não tira selfie na Torre Eiffel. Que horror. Prefere caminhar pela rue de Seine ao entardecer, como se tivesse acabado de deixar um compromisso literário. Compra livros na Shakespeare and Company apenas para sentir o cheiro do papel envelhecido e depois suspirar: Là, on respecte encore la littérature.
Quando chove, não abre o guarda-chuva. Deixa-se molhar, porque a pluie parisienne é diferente. E ninguém tem coragem de lhe contar que H₂O é H₂O em qualquer latitude. Os parisienses, que mal o percebem, são frios, mas civilizados. Já os brasileiros que riem alto no metrô são barulhentos, coitados, ainda não aprenderam. Ele repete ils ne comprennent pas com condescendência.
Possui um cachecol de lã que só usa no inverno europeu de 8 graus, porque aqui não faz frio de verdade. Guarda-o na gaveta, junto com o sonho de um dia alugar um apartamento minúsculo no Marais e nunca mais voltar. Enquanto isso, decora a casa em São Paulo com móveis de design escandinavo e pôsteres em sépia da Pont Neuf, como quem ergue um altar para uma religião que nunca o aceitou como fiel. Vielleicht eines Tages, pensa, como promessa vaga.
No ápice, Paris é o seu grande amor não correspondido. Ama a cidade como quem ama uma mulher que nunca soube seu nome. E, a cada viagem, volta mais triste, porque percebe que nem Paris consegue apagar o sotaque, o calor na sola do pé, a lembrança distante de uma avó fazendo café no fogão a lenha. Ainda assim insiste. Se um dia conseguir ser suficientemente parisiense, andar devagar o bastante, falar baixo o bastante, desprezar o suficiente o próprio país, talvez mereça pertencer àquela cidade que o ignora com tanta elegância.
Até lá, permanece aqui, tomando seu café au lait numa xícara de porcelana fina, olhando pela janela o sol inclemente de fevereiro e pensando, com uma dor quase doce: “Que pena que isto aqui não seja Paris.” Ou, em sua forma preferida: quel dommage.
Não concordo com Friedrich Merz, o chanceler alemão que, em novembro de 2025, ao voltar de Belém após a COP30, descreveu a cidade como um lugar de onde ninguém queria ficar, um lugar que, entre risos em Berlim, ele contrapôs à suposta perfeição germânica. É o mesmo tipo de suspiro europeu que ressoa nas salas de jantar de Copacabana, onde o ar-condicionado zumbe como lembrete de que o frescor vem sempre de importados.
Merz não gritou. Murmurou com a polidez de quem lê o Frankfurter Allgemeine pela manhã. Perguntou aos jornalistas que o acompanhavam quem gostaria de ficar ali. Ninguém ergueu a mão. Não porque Belém seja indigna, mas porque o calor amazônico de 35 graus, a umidade que gruda como mel, o trânsito que dança ao som de buzinas e o cheiro de peixe fresco no Ver-o-Peso formam um caos que não cabe em agendas de cúpula climática. É compreensível o alívio de quem, acostumado a bondes pontuais e cervejas geladas em outubro, desembarca num aeroporto onde o ar parece sólido. Mas transformar isso em piada de banquete soa como julgar um banquete pelo suor na testa do cozinheiro. Sehr witzig, diriam seus colegas, sem perceber o eco antigo do comentário.
Belém não é um cartão-postal. É o pulso da floresta. O Amazonas dita o ritmo, e as ruas fervem com o que há de mais vivo no Brasil. O tacacá que queima a língua e acalma a alma. O manguezal que resiste como um segredo indígena. As vozes que misturam tupi com português num sotaque que soa como música de Alceu Valença. Merz viu a infraestrutura que range, hotéis lotados, chuvas que transformam calçadas em rios, mas ignorou o que faz a cidade pulsar: a resiliência de quem constrói cúpulas globais no epicentro do próprio clima que discutem. Lula, com sua ironia habitual, sugeriu que o chanceler deveria ter ido a um boteco local. Teria descoberto que a civilização não se mede pela eficiência, mas por uma hospitalidade que não precisa de tradução. “Prost”, diriam alguns, se entendessem.
No fim, Merz e os brasileiros que aplaudem seu desdém, aqueles que sonham com Paris enquanto tomam café em xícaras de Limoges, compartilham o mesmo equívoco. Acham que superioridade é sinônimo de frieza. Belém, com toda a sua exuberância bagunçada, ensina o contrário. O mundo não se salva em salas climatizadas, mas nas margens úmidas onde a vida insiste em crescer.
E se isso incomoda um chanceler ou um expatriado de alma europeia, problema deles. Nós ficamos com o açaí e a chuva fina que lava as ruas para o próximo amanhecer. Nós ficamos com aquilo que é vivo. Eles que fiquem com seus suspiros importados e seus comentários ditos em passant.



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