0
 


Assisti o filme Agente Secreto e confesso que a cena que mais me impactou foi a do jantar. Nela, a personagem do industrial paulista diz à do Wagner Moura que “o Brasil não é aqui”, enquanto aponta um guardanapo da metade para cima. A frase vem acompanhada de uma ideia ainda mais dura: que pesquisa de ponta não poderia ser realizada no Norte (ou no Nordeste).


Essa cena me lembrou imediatamente a campanha de detratação que Belém enfrentou durante a COP30. Na época, atores mediáticos ligados ao centro financeiro do país trabalharam para deslocar o evento para um “centro com mais estrutura”, reforçando, mais uma vez, a narrativa de que vivemos na periferia do Brasil.


Essa lógica de conflito entre centro e periferia, tão presente nas grandes cidades brasileiras, foi então ampliada a escala nacional, como no filme. E isso revela a engrenagem de um modelo amplamente debatido durante a COP e que, agora, precisa ser encarado com ainda mais urgência, às vésperas da discussão sobre a hidrovia do Tapajós.


Para entender o que está em jogo, é preciso olhar para o nosso modelo de desenvolvimento urbano. As cidades brasileiras não resultam de uma única visão; são o produto de sobreposições de ideais que vão do desenvolvimentismo ao neoliberalismo financeirizado. O resultado é um tecido urbano moldado por políticas de infraestrutura, de regulação do uso do solo e por programas habitacionais em larga escala, orientado por ideais de eficiência funcional, viária e produtiva, e sustentado por mecanismos de valorização fundiária e imobiliária.


O que raramente se considera é que esse ideal urbano produz efeitos muito diferentes conforme as condições geográficas e sociais de cada região. Assim, cidades situadas à margem do centro econômico tendem a concentrar índices mais elevados de precariedade, de múltiplas naturezas, o que expõe a insustentabilidade do modelo nos planos econômico, social e ambiental.
Para ilustrar, a expansão informal da malha urbana, marcada pelo espraiamento e por baixos níveis de saneamento, contribui para a degradação ambiental e para a emissão de poluentes, deteriorando a qualidade de vida, sobretudo entre as populações mais pobres.


É por isso que, no debate em torno da hidrovia do Tapajós, o que se vê é a repetição da mesma receita: uma grande obra de infraestrutura, ancorada na herança desenvolvimentista, que tende a reproduzir a lógica neoliberal já observada em Belém e em tantas outras cidades amazónicas, como Marabá, Santarém e Manaus. E por que isso se repete?


A resposta é simples: dinheiro. A insustentabilidade do modelo exige fluxos constantes de recursos para infraestrutura, subsídios à indústria e energia, que, em grande medida, acabam por beneficiar os mesmos grupos que enriquecem com essa lógica há décadas. Lembra da cena do industrial? Esses grupos financiam campanhas, promovem candidaturas e ocupam espaços de poder, perpetuando o modelo apesar dos danos ambientais e sociais que ele causa.


Voltando ao guardanapo do Agente Secreto, seguimos presos à parte que diz “não é Brasil”. Não se enganem, portanto, os que acreditam que tais investimentos geram, necessariamente, benefícios locais. Afinal, como explicar que um estado possua duas hidrelétricas e, ainda assim, tenha a fatura de energia mais alta do país?


Essa hidrovia não transporta apenas soja para a China, nem abala apenas culturas tradicionais. Ela também carrega as lições que ficaram expostas durante a COP e que insistimos em não aprender.

Acilon Cavalcante
Arquiteto e urbanista apaixonado por cidades, histórias e pessoas. Tem mestrado em Artes, mestrado em Arquitetura e é doutorando em Mídias Digitais pela Universidade do Porto. Premiado em projetos de planejamento urbano, já atuou com governos e ONGs no Brasil, Canadá e Portugal, sempre conectando urbanismo, design participativo e sustentabilidade. Gosta de transformar dados em ideias e ideias em cidades mais humanas.

A literatura como travessia do local e do universal

Anterior

Carta Aberta dos Povos do Rios para o Mundo

Próximo

Você pode gostar

Mais de Cidades

Comentários