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E eu, lá. Morador de Belém, caboco de Altamira, da beira do Rio Xingu, tirando uma onda de carioca. Pegando uma praia.


A língua que se falava por lá era uma outra, parecida com a nossa, mas cheia de bossa, na entonação e no maneirismo, assim como que apocopada e chiada, cheia de reticências. As frases não terminavam e ninguém perguntava. Parece que todo mundo entendia. Nunca soube se era erudição, forma superior do vernáculo, telepatia, ou preguiça e escassez de vocabulário. De qualquer maneira, soava muito falso. Carioquês. Eles achavam que era sofisticado, pois sim.


Nessa, eu não embarquei. Já pensou o cabocão de Altamira chegar a Belém com esse papo? Levava samba, quando não, muita dedada.


Algumas moçoilas, novo-ricas, passavam uma temporada no Rio e voltavam exímias no patuá de Copacabana. Imediatamente eram apelidadas de “as falséricas”. Queria conhecer uma falsérica era só pedir para ela dizer: menta. Se dissesse “mienta”, pronto, era!


No Pará era diferente. Sempre foi. O Rio permeou o Sul muito mais do que o Norte. Capital do Império, da República, centro das decisões, sonhou ser Paris, Nova Iorque. Ficou em Miami. O Pará, isolado, sem estradas e apenas um navio misto de carga e passageiros por mês, contentava-se com a língua portuguesa mesclada com o nheengatu. Uma tal Língua Geral sistematizada pelos jesuítas. Até conhecer o Sul Maravilha eu achava que o nosso linguajar era bem bonitinho. Axi, porcaria.


Sempre fui de corriola. Mesmo nas poucas estadas no Rio fiz muitos amigos por lá. Diferentes, já se disse, de Belém. Eles lá achavam que eu inventava os nomes dos amigos de Belém, que tinha uma imaginação fértil: Afolemado, Lulu Burilança, Tojal, Baratinha, Passarinho, Sadala, Sadeck, Cabidela, Pingarilho, Cara de Vaca e Salame.


Os do Rio: Bob, Denis, Baby, Billi, Ronnie, Bubby, Tony, Ray. Diminutivos inglesados.


No Pará, Antonio é Tonico, no Rio é Tony, quando não, Anthony. Raimundo ou Raimunda são, por aqui, Mundico, Mundinho, Mundica, Dico, Dica, Diquinho, Mundoca. Maria é Maroca, Maroquinha. José é Zé, Zeca, Zecão, Zefa, Zefinha. No Rio virou Jô. Se o Billi Blanco (William Blanco de Abrunhosa Trindade, compositor paraense, ícone da bossa-nova) tivesse ficado por aqui teria sido
Abrunhosa. Talvez até Bronha.”


(Aperitivo da crônica “Adorável Sacana“, de André Costa Nunes, velho comunista, cavaleiro andante da Amazônia, marketeiro, escritor, blogueiro e tremendo boa-praça, no seu Tipo Assim… Folhetim. Vão lá para ler o texto na íntegra.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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