Publicado em: 13 de fevereiro de 2026
Estava outro dia vagueando pelo território do Facebook – por vezes árido, outras surpreendente – e eis que deparo com um post do escritor e jornalista Alfredo Guimarães Garcia intitulado “Literatretas (2) – García Márquez vs. Vargas Llosa, no qual lembrava que o colombiano estava de boa num cinema em Barcelona, em 1979, quando, do nada, levou um cruzado do peruano. “A foto do autor de Cem anos de solidão com um olho roxo é famosa e sintetiza as tretas literárias. Agora, qual foi o motivo do soco? Nunca saberemos. García Márquez morreu sem revelar os motivos da agressão. Entre as teorias, estão a talaricagem e as diferenças políticas entre os autores”, escreveu o literato bragantino parauara.
Aí entrou em cena a escritora, professora de Literatura, crítica literária, gestora e instrutora de IA Veruska Lopes Dias. De pronto, ela comentou:
“Posso imaginar o diálogo entre os dois! Seria algo assim se os dois fossem boxeadores e o locutor anunciasse a luta no ringue:
Locutor: Senhoras e senhores, no canto esquerdo, direto de Macondo, o homem que faz chover flores: Gabriel García Márquez!
No canto direito, direto de Lima, o fiscal da realidade: Mario Vargas Llosa!
Gabo:
Mario, você escreve tanto sobre ditadura que parece que está tentando dar golpe até na gramática!
Vargas Llosa:
E você escreve tanto realismo mágico que até seus personagens precisam de exame toxicológico pra entender o que tá acontecendo!
Gabo:
Pelo menos meus mortos falam. Os seus vivos parecem que já nasceram deprimidos!
Vargas Llosa:
Claro, porque nos seus livros até galinha tem árvore genealógica! Em Cem Anos de Solidão ninguém sabe quem é filho de quem, nem o cartório de Macondo!
Gabo:
Melhor confusão poética do que essa obsessão sua por política… você escreve romance como se estivesse redigindo relatório da ONU!
Vargas Llosa:
E você escreve relatório como se estivesse sob efeito de ayahuasca! Chove flor, sobe fantasma, aparece velho com rabo de porco… isso é literatura ou Carnaval?
Gabo:
Pelo menos meus personagens transam. Os seus só discutem ideologia e traumas de infância!
Vargas Llosa:
E os seus transam tanto que dá até curto-circuito no incesto! Freud leu Macondo e pediu demissão!
Gabo:
Você é tão realista que até o amor nos seus livros precisa de CPF e comprovante de residência!
Vargas Llosa:
E você é tão mágico que se escrevesse sobre imposto de renda, o leão virava borboleta!
Locutor:
E assim termina o combate: nenhum nocaute, Gabo com um olho roxo, e ambos sangrando tinta, orgulho e prêmios Nobel.”
Confesso que me deliciei com esse diálogo sensacional.
E agora meto o bedelho na conversa: conforme os fofoqueiros de plantão na época, a razão do soco não foi política — embora eles militassem em polos ideológicos opostos (Gabo era fiel a Castro e Llosa liberal) — e sim pessoal. Ou talaricagem, como bem o disse Alfredo. O pivô teria sido dupla traição. Em meio a uma crise matrimonial, Vargas Llosa sumiu no mundo com uma modelo alemã. A esposa abandonada buscou consolo e conselhos no ombro amigo e Gabo sugeriu a ela o divórcio, dizendo as más línguas, ainda, que Patricia Lhosa teria sucumbido ao charme dele – considerado um sedutor intelectual irresistível. Conquistava as pessoas (homens e mulheres) pela conversa, bom humor e genialidade, mas seu coração tinha uma dona muito bem definida, Mercedes Barcha, que conheceu quando ela tinha apenas 9 anos e ele 13, prometeu que se casaria com ela, e assim o fez em 1958. Viveram juntos por mais de 50 anos, até a morte dele em 2014.
Bem, mas voltando ao tema: Vargas Llosa retomou o casamento e ficou furioso ao saber do acontecido. Ao ver Gabo no cinema, na Cidade do México, se aproximou e desferiu um soco no olho esquerdo do desafeto, com a explicação na frase: “Isso é pelo que você fez com Patricia em Barcelona”. Escusado mencionar que eles nunca mais se falaram. Dois dias depois, Gabo posou para o fotógrafo Rodrigo Moya com o olho roxo e um sorriso irônico, querendo registrar a “prova do crime”. Vargas Llosa só voltou a falar bem da obra de García Marquez (não mais da pessoa) após a morte do rival.
Nota mental: Se o seu (sua) melhor amigo (a) começar a te comparar com um personagem de Dostoiévski ou de Machado de Assis, abra o olho.









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