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As prefeituras, os governos estadual e federal afirmam que fazem campanha pela vacinação contra o vírus H1N1 e que as famílias não aderem, por ignorância. Pois bem, isso é a mais deslavada mentira. Eu, por exemplo, até agora não consegui ser vacinada, nem a minha filha. E olhem que tenho doença crônica, portanto, pertenço a um grupo de risco, que estaria sendo “privilegiado“.

Conforme a propaganda oficial de postos de vacinação, fui ao shopping, onde não tinha mais vacina. Fui à Praça da República, tinha acabado de acabar. Fui ao posto de saúde da Alcindo Cacela, necas. Fui ao posto da Presidente Vargas, nada, fui ao posto da Senador Lemos, no Telégrafo, não tinha.

Fui ao posto da Sesma no final da Senador Lemos, perto do Aeroporto Brigadeiro Protásio de Oliveira, antigo Aeroporto Júlio César. Lá, também já acabou faz tempo as doses de vacina. Ao ouvir o meu relato de peregrinação para me proteger da gripe A, um simpático servidor me disse que seria melhor eu desistir de me vacinar, porque quando tudo dá errado é porque Deus não quer que aconteça.

Digo-lhes que Ele quer, sim. Quer que eu e todas as outras pessoas, bebês, crianças, adolescentes, adultos e idosos tenhamos acesso a todas as vacinas, contra todas as doenças. Deus quer que vivamos, que tenhamos saúde, que recebamos e façamos o bem. Deus não quer que desviem os recursos da Saúde Pública e deixem desassistida a população.

E, como acredito em Deus, fui ao local que apurei ser o único em toda Belém a oferecer a vacina, hoje, um posto na Augusto Montenegro, ao lado da Delegacia de Meio-Ambiente (onde pedi permissão para usar o estacionamento, já que na rodovia não dá e o estacionamento do posto estava vazio e trancado com corrente e cadeado. De fato, lá havia vacina, só não sei se suficiente para as cerca de três mil pessoas na fila, que serpenteava no interior do prédio. Ouvi senhoras com crianças no colo contando terem vindo de Marituba, porque lá não há vacina disponível. Saí de lá com o peso do mundo nas costas.

A própria coordenadora de Vigilância à Saúde da Sespa, Ana Helfer, em entrevista coletiva, ontem, reconheceu a alta incidência no Pará de casos de gripe A em 2010, se comparado a 2009, enfatizou o perfil epidemiológico, uma vez que no inverno amazônico aumentam as aglomerações de pessoas, que favorecem a transmissão de doenças, com registro de 60% a 70% a mais no número de casos de doenças por transmissão respiratória.

Pior: admitiu que o Estado não recebeu doses suficientes de vacina para atender a 100% da população idosa e que, por isso, ela solicita o maior cuidado por parte das unidades de saúde para que as vacinas sejam direcionadas, exclusivamente, aos maiores de 60 anos portadores de doença crônica. Declarou que a meta da campanha é vacinar 80% dos idosos e concluiu: “_Como desde o início da vacinação contra a gripe A estamos confiando no bom senso da população, para que não falte vacina para quem realmente precisa“.

Como assim? Quem não precisa?

Ora, ao invés de mandar fazer a escolha de Sofia, por que é que ninguém põe a boca no mundo, denuncia, pede, exige, que enviem a vacina para toda a população, principalmente porque aqui no Pará é onde se registrou metade dos óbitos, em todo o País, pela Gripe A?

Dados oficiais da Sespa: só foram vacinados até agora 82% dos indígenas, 60% das gestantes, 45% dos portadores de doenças crônicas, 74% das crianças menores de dois anos de idade e 41% dos jovens de 20 a 29 anos de idade. Nós, os outros, estamos condenados. Com a palavra, os que têm poder de vida ou morte sobre os cidadãos.
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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