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O editorial publicado na última quarta-feira (4) na revista científica Nature chama atenção para um problema central e pouco debatido nas políticas de proteção ambiental: a conservação da biodiversidade avança, em muitos casos, sem base sólida em evidências científicas testadas. O diagnóstico parte de um dado alarmante, que mostra que mais de um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção no planeta, com taxas de desaparecimento entre 100 e 1.000 vezes superiores ao chamado ritmo natural pré-humano.

Apesar de uma multiplicidade de programas locais, regionais e internacionais voltados à preservação de ecossistemas e espécies, pesquisadores da área alertam que muitas intervenções, como criação de áreas protegidas ou ações específicas para determinadas espécies, não estão ancoradas em pesquisas robustas que comprovem sua eficácia.

A ecóloga Sandra Díaz, da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, sintetiza a contradição: “sempre me espanta como, mesmo nos afogando em um oceano de informações, ainda não temos respostas cientificamente fundamentadas para perguntas muito simples”.

O tema ganhou centralidade nesta semana durante a conferência anual da Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES), realizada em Manchester, no Reino Unido. A instituição é comparada, no campo da biodiversidade, ao papel desempenhado pelo IPCC nas discussões climáticas: oferecer avaliações científicas confiáveis para orientar decisões governamentais.

O editorial destaca que a fragilidade das evidências utilizadas na formulação de políticas de conservação já é reconhecida por grupos científicos. Em encontro recente na Universidade de Cambridge, promovido por uma das maiores organizações conservacionistas da Europa, a Wildlife Trusts, especialistas classificaram a situação como uma “emergência de evidências”.

Um exemplo citado vem do norte da Índia, no estado de Himachal Pradesh. Décadas de programas de plantio de árvores não resultaram no aumento da cobertura florestal. O motivo: as políticas não consideraram as causas estruturais que levaram à perda da cobertura original.

A crítica não se restringe à qualidade das pesquisas, mas também à dificuldade de acesso às informações existentes. Shahid Naeem, ecólogo da Universidade Columbia, observa que “há uma quantidade enorme de informações na literatura científica, mas grande parte delas é de difícil acesso”.

Para enfrentar essa lacuna, cientistas têm desenvolvido iniciativas inspiradas nos métodos de revisão sistemática da medicina. Um dos principais projetos é o Conservation Evidence, sediado na Universidade de Cambridge, que revisou mais de 1,2 milhão de artigos científicos em 18 idiomas ao longo de duas décadas.

O objetivo foi identificar estudos que realmente testaram intervenções de conservação. Esses trabalhos foram resumidos, classificados e disponibilizados em uma base de dados aberta, pesquisável por palavras-chave. Em um dos exemplos mencionados, 47 estudos foram analisados para avaliar programas que remuneram agricultores por práticas favoráveis à biodiversidade.

Outra iniciativa citada é a Collaboration for Environmental Evidence, rede internacional que reúne instituições de países como Canadá, Chile, França, África do Sul, Suécia e Reino Unido, dedicada à produção e disseminação de revisões baseadas em evidências.

O pesquisador William Sutherland, que coordena o Conservation Evidence, informou que o projeto passou a incorporar inteligência artificial para acelerar e ampliar a triagem da literatura científica. A proposta inclui a criação de um “chatbot de conservação”, capaz de responder a perguntas práticas com base no banco de dados, oferecendo sínteses narrativas e links diretos para as fontes originais.

O sistema seria constantemente atualizado para incluir novos estudos e retratações, sempre com supervisão humana. A proposta foi apresentada em um preprint (versão preliminar de um artigo científico que é divulgada publicamente antes de passar pela revisão por pares (peer review) de uma revista científica) no ano passado.

O editorial também reconhece limitações importantes, como o fato de que a literatura científica disponível é majoritariamente produzida por pesquisadores de países de alta renda. As equipes envolvidas buscam agora formas de incorporar conhecimentos indígenas e tradicionais como forma de reduzir essa assimetria.

Outra preocupação é a resposta do sistema quando não houver evidência suficiente para responder a determinada pergunta. Segundo os desenvolvedores, o sistema deverá reconhecer explicitamente quando não houver base científica adequada.

Sandra Díaz alerta que a busca por melhores evidências não pode ser usada como justificativa para adiar ações já consensuais. Ela afirma que “as evidências já existentes que indicam por onde começar são abundantes; o que falta é vontade de agir com base nelas”.

Segundo a pesquisadora, as causas da perda de biodiversidade são conhecidas: subsídios prejudiciais, incentivos perversos e falhas na aplicação das leis ambientais.

Governos e empresas continuam financiando projetos de conservação e uso sustentável da natureza sem medir de forma rigorosa se as ações produzem os resultados esperados. Ao mesmo tempo, políticas de crescimento econômico frequentemente ignoram o papel da natureza como base desse próprio desenvolvimento.

Para a Nature, a IPBES, enquanto principal fórum científico global sobre biodiversidade, deve assumir a liderança na formulação de mecanismos que garantam o uso sistemático de evidências científicas na elaboração de políticas públicas ambientais.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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