Publicado em: 7 de março de 2026
Dia desses, olhando ao redor, o horizonte me pareceu demasiado cinzento, carregado daquelas nuvens que arbitrariamente bloqueiam a luz solar e escurecem precocemente o dia, ao meio da tarde, fazendo crer que o tempo entrou em luto, logo antes do céu chorar bátegas e ressoar trovões.
Pensei em como terminam as gerações, como passam adiante as épocas, serenas e resilientes, percebendo a vida chegar do futuro, radiante e promissora, tornar-se presente, efêmera e imprevisível, para em seguida converter-se em passado, finita e indiferente, a caminho do esquecimento.
Ocorreu-me então que as gerações se encerram com a partida de seus luminares, com a morte de seus gênios, o perecimento de seus artistas. Quando eles se vão, e o porvir vira ‘porvisto’, seus legados são armazenados nas prateleiras do ontem, onde vão buscá-los vez ou outra os contemporâneos remanescentes, ora saudosos da convivência, ora hesitantes com o que virá pela frente para ocupar os espaços que os mortos deixam vazios.
Quem comporá, doravante, o que vamos ouvir? Quem escreverá o que vamos ler? Estaremos dispostos a suportar as novidades, ou seremos visitas recorrentes às estantes do pretérito, onde repousa grande parte daquilo que nos pertenceu, toda a arte que nos enlevou, toda a beleza que nos coloriu a existência.
É da ausência dos artistas que nascem os museus, e quando todos os artistas forem ausentes, os museus já não guardarão acervos. Serão, isto sim, depositários de eras, épocas, gerações. De início o público será frequente e curioso – somos nós a insistir com filhos e netos, assegurando-lhes a qualidade superior do que vai sendo armazenado e exposto; mas aos poucos a audiência escasseia, a poeira acumula e o interesse decresce, até que um dia uma nova coleção toma o espaço, encaminhando a anterior para os depósitos do subsolo, quiçá no prédio dos fundos.
Na música já perdi tantos amigos, na literatura também. De vários sequer fui exatamente contemporâneo, a maior parte jamais conheci pessoalmente, mas a intimidade que compartilhávamos me permite chamá-los assim, próximos e leais, disponíveis nos momentos mais amargos e nas horas mais felizes. Quando partiram deixaram muito, mas muito de mim também levaram, inclusive a ilusão da imortalidade. Afinal, se nossos heróis morrem, não seremos nós, plebe rude, a viver eternamente.
Na música, dentre os companheiros mais chegados já se foram Chet Baker (1988), Tom Jobim (1994), Ella Fitzgerald (1996), Tim Maia (1998), Nina Simone (2003), Ray Charles (2004), Etta James (2012), João Gilberto (2019), Gal Costa (2022), Nana Caymi e Ângela Ro Ro (2025). Na literatura, dentre os mais assíduos, já perdi parceiros preciosos como Vergílio Ferreira (1996), Jorge Amado (2001), Rachel de Queiroz (2003), José Saramago (2010), Gabriel Garcia Marquez, Rubem Alves e Manoel de Barros (2014), Carlos Ruiz Zafón e Rubem Fonseca (2020), Lygia Fagundes Telles (2022), Paul Auster (2024) e Luís Fernando Veríssimo (2025).
Sei que me restam muitos convivas na praça, vivos, ativos e produtivos, graças à bondade de Deus, mas é inevitável lamentar a saudade dos que já me deixaram. Acaso não é um traço da nossa personalidade, um trejeito da nossa cultura, chorar mais os mortos que festejar os vivos…? Isso talvez se deva ao fato de que a cada amigo morto vamos nos conscientizando de que estamos na fila, envelhecendo diariamente, rumo ao encontro da Parca.
Recordo de pronto o diálogo escrito por Miguel Sousa Tavares no seu belíssimo “Último Olhar”: “Sabes filha? Uma das coisas mais tristes de envelhecer é quando morrem os amigos e temos de apagar os nomes deles no telemóvel. Aí, mais do que no próprio enterro, é que percebemos mesmo que morreram: que nunca mais nos vão telefonar.”
É bem verdade que os velhos camaradas a que me referi jamais me telefonariam – mesmo em vida, tal como é verdade, também, que posso encontrá-los rotineiramente nos sinais digitais e impulsos elétricos que substituíram meus discos (coisas da modernidade), ou nos livros que insisto peremptoriamente que sejam de papel (Deus me leve antes que me obriguem a ler em telas). Ainda assim, é melancólico saber que já partiram, a um porque o mundo era melhor quando estavam entre nós, a dois porque suas mentes criativas e geniais não produzirão novos frutos.
São faróis que vão se apagando, e com isso vai ficando mais perigoso e hostil singrar o mar da vida, mesmo que marinheiros mais novos nos apresentem seus incríveis e mágicos aparelhos, com os quais aprendem desde cedo a navegar por instrumentos.
Talvez o melhor a fazer nos nossos casos, nós que já vamos além dos cinquenta, seja aproveitar a luz que emana dos faroleiros com os quais seguimos contando, prestigiando-os, ouvindo suas canções, lendo seus livros e comparecendo aos eventos que promovem ou de que participam – shows, saraus, lançamentos literários, palestras, clubes de leitura e afins.
Aqueles que elegemos como oráculos terão sempre muito a nos dizer, como muito bem lembrou um outro gigantesco farol das letras lusitanas, cuja luz se exauriu recentemente, no último dia 05 de março – António Lobo Antunes, autor de mais de quarenta livros, vencedor do Prêmio Camões em 2007, para quem sempre valia a pena estar com colegas que admirava: “Sabes, os escritores bons que eu conheci… – não foram muitos, porque não há muitos -, deram-me sempre vontade de estar mais tempo com eles. Eu tinha a sensação de sair mais rico do pé deles, não fazia frio, a gente podia estender as mãos para eles que aquilo aquecia, não fazia frio. A gente tem que amar os artistas e pensar que no fundo eles têm sempre razão.”
No final das contas, talvez alcancemos aquilo que me parece ser o segredo da boa jornada: empreender a travessia entre a orientação dos faróis que ainda alumiam as noites escuras e o brilho daqueles que já se apagaram, embora continuem reluzindo em nossas memórias e corações, como a luz das estrelas extintas a vagar milênios pelo universo infinito.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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