0
 

O Brasil se encontra em uma encruzilhada estratégica que definirá seu papel no século XXI: aprofundar o alinhamento histórico, porém assimétrico, com os Estados Unidos ou consolidar-se como um dos protagonistas em uma nova ordem mundial multipolar através do BRICS, pagando o preço deste reposicionamento. Esta análise sistêmica demonstra, com base em dados e eventos recentes (2024-2025), as diferenças fundamentais entre esses dois caminhos, nas dimensões Econômica, Política e Cultural, bem como na conexão externo-interno das relações da nação.

O alinhamento subordinado aos EUA, embora ofereça acesso ao seu mercado e capital, implica uma crescente dependência econômica e política (o investimento direto americano no Brasil saltou de 19% para 29% do total entre 2010 e 2022, exigindo obediência de setores econômicos e políticos nacionais). Dependência, já consolidada como teoria econômica desde os anos 70 que gera uma soberania política limitada, marcada pela vulnerabilidade a pressões comerciais e alinhamento a interesses externos, sob liderança dos EUA, como a manutenção do nosso papel de exportador de matérias primas brutas e baratas sem valor agregado, as comodities, como desde o Pacto Colonial do século XVI.

Este é o caminho mais confortável já que não exige mudança. A psicologia explica que os seres humanos diante do incômodo e insegurança do novo, muitas vezes preferem conservar uma situação mesmo não sendo boa. Conheci uma senhora que apanhava do marido e dizia para os filhos, “ruim com ele, pior sem ele”, ele deixou a família mesmo assim, quando eu tinha 11 anos. Ela era a minha mãe.

Em contrapartida, o protagonismo no BRICS abre portas para um mercado de 3,3 bilhões de pessoas, promove a diversificação comercial (o Brasil já representa 38,4% do comércio do BRICS+) e financeira (desdolarização), e amplia a autonomia diplomática, como evidenciado pela presidência brasileira do bloco em 2025 e suas posições independentes em conflitos globais. A escolha não é isenta de riscos, mas define a trajetória do Brasil entre ser um ator coadjuvante em uma ordem estabelecida ou um dos arquitetos de uma nova estrutura de poder global, multipolar.

Este é o caminho de não esperar mais por soluções de cima, de fora. É o caminho da autodeterminação. Da responsabilidade em construir com seus próprios recursos, as soluções que necessitamos. Mas a dificuldade é que para isso, antes de mais nada, é preciso sentir-se e assumir-se como Brasil. Resolvida nossa profunda crise de identidade, aí é preciso estabelecer objetivos comuns e compromissos de partilha das dores e sabores do processo. Haverá disposição?

Hoje, a política externa brasileira navega em uma conjuntura global de intensa transformação. E se assume alinhada abertamente à possibilidade da ascensão de uma ordem multipolar, catalisada pela expansão e fortalecimento do BRICS. Posição política estratégica que desafia a arquitetura global de poder do pós-Guerra Fria. E, desafiar os “Senhores” causa calafrios nos escravos, a memória dos pelourinhos é cutânea, está na pele.

Mas o cenário recente é surpreendente, o Brasil sai do Mapa da Fome, bate na porta do Pleno Emprego, aquece a economia interna com o aumento efetivo da renda das famílias corrigindo o salário-mínimo acima da inflação e restringindo os privilégios fiscais indecentes dos mais ricos. Fez do Tarifaço do Trump uma estratégia ridícula, abriu novos mercados, aumentou a reserva do Tesouro aviltada no governo Bolsonaro, mas agora com a compra de ouro e não de dólares, enfraquecendo ainda mais a moeda americana. E agora ganha a posição da quarta economia que mais vai crescer em 2026, na análise da OCDE. Um prestígio que se consolidou com a liderança de vários fóruns internacionais como o G20, Mercosul e a realização da COP30.

Mesmo assim, a força dos setores nacionais alinhados aos EUA é muito forte econômica, política e culturalmente a ponto de uma multidão desfilar em São Paulo com uma bandeira americana gigante, justamente no dia 7 de setembro, supostamente atribuído a celebrar a “Independência”. Economia, Política e Cultura são partes integradas do mesmo processo histórico da dependência.

Não por acaso, mais uma vez estamos assistindo que quando as condições econômicas melhoram no Brasil, quem mais ganha externamente é os EUA. Que diga o Mickey, principal anfitrião de nossa classe média. O que é uma das pistas porque somos o 10º PIB(Produção) do planeta ao mesmo tempo em que somos o 84º IDH(Desenvolvimento) entre as nações, quando medidas em sua qualidade de vida.

A relação econômica com os Estados Unidos é fundada por uma dependência e desigualdade significativas. O investimento direto dos EUA no Brasil mais do que dobrou em uma década, passando de US$ 109,7 bilhões (19% do total) em 2010 para US$ 228,8 bilhões (29% do total) em 2022. Mas não esqueça que quem investe, o faz para tirar mais do que deixar, quando quem recebe não defende seus interesses enquanto nação.

Assim aumenta a vulnerabilidade da economia brasileira às decisões políticas e econômicas de Washington. Uma estratégia que se consolida com negociações com cada ramo econômico per si, fragmentando e fragilizando um posicionamento unificado de nação. O que gera alinhamentos e adesões por sobrevivência da empresa ou ramo, independente da nação como um todo.

Historicamente, esse alinhamento que combina coerção e consenso, já fez com que nos alinhasse a posições americanas em fóruns multilaterais e em questões de segurança regional. A presença militar dos EUA na América do Sul é frequentemente percebida como um instrumento de pressão, limitando o espaço para uma política externa verdadeiramente independente. A Venezuela é a bola da vez, e a questão é petróleo, e não drogas e autoritarismo.

Já o cenário, em construção, liderado pelo BRICS, representa uma escolha estratégica por uma nova ordem global multipolar. Escolha, onde o Brasil atua como um dos polos de poder, com maior autonomia e capacidade de influência.

O BRICS oferece uma alternativa à dependência econômica dos EUA. Em 2025, o Brasil já respondia por 38,4% do comércio total dentro do BRICS+. A ascensão de sistemas financeiros paralelos, como o BRICS Pay, e o aumento do uso de moedas locais (o yuan já representa cerca de 50% das transações intra-bloco) reduzem a dependência do dólar e do sistema SWIFT. A estratégia de diversificação de reservas, como a compra de 16 toneladas de ouro pelo Brasil em setembro de 2025, reforça essa busca por autonomia financeira e resiliência a sanções.

Ou seja, já estamos em um ponto em que o enfrentamento aos “Senhores” é efetivo, está em andamento e temos tido ganhos importantes, inclusive voltando a bater recorde de queda em nosso Risco País que é uma atribuição dos investidores externos. O que deixa claro que a questão não tem nada a ver com capitalismo x comunismo. Na verdade, a atuação no BRICS projeta o Brasil como um líder do Sul Global e um ator central na redefinição da governança mundial. A presidência brasileira do bloco em 2025, sob o lema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global”, foi marcada por iniciativas para consolidar o bloco e ampliar sua influência.

Análise Comparativa Sistêmica

Os gráficos a seguir ilustram as diferenças fundamentais entre os dois cenários, tanto em indicadores quantitativos quanto em projeções qualitativas de poder e desenvolvimento.

Análise Comparativa de Cenários para o Brasil Gráfico

1: Comparação de indicadores econômicos e políticos projetados para os dois cenários. Fonte: Elaboração própria com base em dados de 2022-2025.

O primeiro gráfico (superior esquerdo) mostra o aumento da dependência do investimento direto dos EUA. O segundo (superior direito) destaca a posição de liderança do Brasil no comércio intra-BRICS. Os gráficos de barras (inferiores) comparam o potencial de influência política e os benefícios econômicos em cada cenário, com clara vantagem para o protagonismo multilateral.

Riscos e Oportunidades por Cenário

Gráfico 2: Análise qualitativa dos riscos e oportunidades de cada caminho estratégico. Fonte: Elaboração própria.

A escolha por um maior protagonismo no BRICS não é isenta de riscos. A principal contrapartida é o aumento das tensões com os Estados Unidos, que pode se manifestar em barreiras comerciais, pressões diplomáticas e conflitos internos inclusive eleitoral. Além disso, o alinhamento com potências como China e Rússia e mercados gigantes como o da Índia, exige uma capacidade de elaboração estratégica, uma habilidade diplomática e uma capacidade de fortalecimento da democracia interna, sem precedentes. Mas é chegada a hora.

Por outro lado, o caminho do alinhamento subordinado, embora pareça mais seguro no curto prazo, carrega a certeza histórica da estagnação, como no período FHC mesmo com o sucesso do Plano Real, e da perda de relevância estratégica. E este deve ser o debate a ser travado no momento democrático brasileiro. Inclusive no enfrentamento da pauta moralista colocada pelos setores que apoiam a conservação do alinhamento aos EUA. Integração da pauta Econômica, Política e Cultural, este é o desafio.

A análise sistêmica demonstra que o Brasil enfrenta uma decisão estratégica com profundas implicações para sua soberania e desenvolvimento. A efetivação do nosso potencial dependerá da capacidade da nação navegar as complexidades geopolíticas, equilibrando seus interesses nacionais com seus valores democráticos, para se consolidar não como um seguidor, mas como um dos principais arquitetos da ordem internacional do século XXI.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Tupinambá Arroyo
João Claudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e mestre em Economia pela Universidade da Amazônia, onde está pró-reitor de Pesquisa e Extensão. Pesquisador e militante da Economia Solidária desde 1999, 11 livros publicados, todos acessíveis como ebook. Pedidos para arroyojc@hotmail.com. Siga @joao_arroyo

    Brasil se despediu da TV analógica

    Anterior

    Universidades pesquisam impactos das mudanças climáticas em favelas

    Próximo

    Você pode gostar

    Comentários