Publicado em: 31 de dezembro de 2025
Não gerou grandes manchetes no ocidente, mas checamos que já há fortes sinais de uma nova ordem global no horizonte de 2026. Em um movimento de profundidade tectônica no sistema financeiro global, no final de 2024 foi anunciado que o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), maior banco do mundo em ativos, se retiraria completamente dos Estados Unidos até março de 2025.
Esta decisão de Pequim, justificada diplomaticamente como “reposicionamento mercadológico”, bem no estilo chinês, na prática envolveria a liquidação de 127 bilhões de dólares em ativos e a venda de 89 bilhões de dólares em títulos do Tesouro americano. O que acirraria a queda sem precedentes que o dólar já tem tido no mercado financeiro mundial.
Mas este anúncio ainda não se completou, o que indica recuo dos EUA em pautas importantes. O ICBC hoje ainda tem operações nos EUA, o site ICBC USA continua ativo. Houve inclusive expansão em serviços. Mas das 47 agências, hoje só há 14 em funcionamento, a principal em Nova Iorque. Ou seja, a China sinaliza para o mundo que não depende, mas não impõe, negocia com soberania.
Adianto já aqui, em função das interpretações “polarizadas”, que não defendo incondicionalmente qualquer liderança que seja, nem China, nem EUA. Aprendi que o melhor aliado é o que possibilita o Brasil exercer, ele mesmo, sua soberania, o que depende diretamente de cada um de nós brasileiros em nossas escolhas e decisões internas, principalmente na política, quanto as externas, principalmente econômicas a partir de nosso consumo.
Mas, voltando. Observe que o anúncio de reposicionamento da China na relação direta com os EUA, não é um ato isolado, mas sim parte de uma tendência crescente de “de-dolarização” impulsionada principalmente pelas nações do BRICS, desde 2023, e por uma insatisfação generalizada com a hegemonia do dólar, desde a crise de 2008 – a crise do subprime imobiliário americano que fez os EUA emitirem dólar sem lastro, empurrando a crise para outros países, por ser moeda universal, quebrando a Grécia, Portugal, Itália etc – além do uso de sanções financeiras como ferramenta geopolítica desde a II Guerra, associado ao seu poderio militar, o que, por exemplo, exigiu da Ucrânia filiação na OTAN, empurrando-a a uma guerra inglória com a Rússia.
Analisando os profundos impactos econômicos, financeiros e geopolíticos dessa ameaça de retirada do ICBC, podemos dizer que, economicamente, a medida exacerba a pressão sobre o dólar, que já registrou uma queda de quase 10% em 2025. Além disso, com o fracasso da estratégia do tarifaço americano, ocorrem aumentos significativos nos custos para os consumidores americanos, além de instabilidade nos mercados de dívida. As manifestações crescentes dos americanos contra Trump, que reage diminuindo os direitos civis dos próprios americanos, dizem isso. Geopoliticamente, não há como pensar separado os cenários internos e externos.
O ensaio da saída do ICBC dos EUA já acelera a fragmentação do sistema financeiro global sob hegemonia americana, o SWIFT, fortalecendo a emergência por uma Nova Ordem multipolar onde blocos como o BRICS constroem ativamente infraestruturas financeiras paralelas, como o sistema BRICS Pay de pagamentos sem dólar entre os países do Bloco que já movimenta 24% do comércio mundial. Além disso, o BRICS está criando uma moeda de comércio internacional lastreada em ouro, não em dólar, desafiando diretamente a arquitetura financeira estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial. O Brasil coordena esta estratégia.
A participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de 59% em meados de 2023 para aproximadamente 57% no final de 2025, parece pouco, mas é assim que começa. Movimento profundo, reflete uma perda de confiança e uma busca por diversificação. Confiança é valor, é afeto, é Economia no sentido grego(cuidar da casa), é até crédito, acreditar. Confiança é tudo. Não sei por que lembrei de feminicídio…
Quase sempre o “mais forte” usa de violência quando perde a confiança do outro, né? Tal como ocorreu na crise do feudalismo, que recorreu a força, supostamente irresistível, do Estado Absolutista, que na verdade foi seu colapso. Todo império hegemônico quando ameaçado, até o Romano, recorre desesperadamente à sua máxima força, cultural, econômica e militar para manter-se como controlador de tudo. Repetindo a história, além da tentativa do Tarifaço, o governo americano anunciou o retorno à Doutrina Monroe, que defende que seu controle sobre as Américas é seu “direito”, aumentando seus investimentos no Brasil, Argentina e Chile – cooptando parte de suas elites – porém, incluindo a investida bélica contra a Venezuela por ser o maior depósito de petróleo do planeta.
Ah, por favor, reaprendi que investimento externo só vem se for para tirar mais, principalmente soberania, do que deixar. Logo, desconfie de quem defende que são os investimentos externos que podem salvar o Brasil, na verdade estão apenas nos vendendo, com objetivos particulares e mesquinhos. O Brasil é hoje um dos maiores destinos de capitais externos do planeta e não garante solução para o que precisamos de fato. O desafio é internalizar a riqueza que já geramos como qualidade de vida da maioria da Sociedade, ou seja, riqueza: segurança na solução de problemas, incluindo as relações humanas, é obvio.
Os EUA ainda são uma potência, embora já superada pela China se olharmos o PIB corrigido pelo poder de compra e a tendência da superação do petróleo como principal fonte energética. Disputa esta que ganhará, em 2026, processos decisórios chave para o estabelecimento de uma Nova Ordem Multipolar, ou não. Mas não é para assistir e torcer. É para entender, checar e participar. Temos que sair da arquibancada e entrar em campo.
As projeções indicam que uma contínua desvalorização do dólar na ordem de 15% poderia levar a um aumento significativo da inflação nos EUA. Estima-se que os custos de bens de consumo para uma família média americana poderiam subir de US$ 180 para US$ 207 por semana, enquanto as taxas de hipoteca poderiam saltar de 7,2% para 9,8%, pressionando o orçamento das famílias e o mercado imobiliário.
Paralelamente, segundo o Banco Mundial, a China retirou 200 milhões de chineses da extrema pobreza. Com o aumento brutal do consumo interno, tem promovido o uso de sua moeda, o renminbi (yuan), em transações internacionais, especialmente em setores onde possui domínio tecnológico, como energia renovável. Acordos para financiar projetos de energia solar e hidrogênio verde em países como Brasil, Argentina e Uzbequistão estão sendo liquidados em yuan, uma estratégia apelidada de “electroyuan”. A partir do consumo interno, é o nosso maior parceiro comercial, não apenas aumenta a circulação internacional de sua moeda, mas também aprofunda os laços econômicos e tecnológicos com nações em desenvolvimento, criando uma esfera de influência econômica independente do Ocidente.
Neste momento, o Brasil não é mero espectador, opera no Mercosul e no BRICS como protagonista. Exerce sua força como grande saldo comercial, adotando outras moedas para negócios com novos mercados e presidindo diretamente o Banco BRICS, que organiza toda essa estratégia da de-dolarização do planeta, com a ex-presidenta Dilma Roussef.
Apesar deste posicionamento estratégico, reforçado pela realização da COP 30 pela primeira vez no Brasil, pelo exercício da presidência de vários fóruns internacionais, sobretudo na articulação de uma Nova Ordem Multipolar. Apesar de estar à beira do Pleno Emprego, de novo, de ter saído do Mapa da Fome, de novo, de estar promovendo o aumento da renda média das famílias, do recorde na produção agrícola, na retomada da industrialização, o Brasil viverá neste ano eleitoral de 2026, em que todos, individualmente somos responsáveis, um desafio de graves consequências.
Hoje, temos em marcha processos políticos e econômicos que aquecem o mercado interno aumentando o faturamento dos empresários que atuam sobretudo na economia interna, mas este setor não consegue perceber a oportunidade que tem nas mãos. Ainda vivemos a fortíssima ameaça do avanço de setores que hoje controlam o Congresso Nacional, a grande imprensa e o sistema financeiro a partir do interesse das forças econômicas externas que reduzem o papel econômico do Brasil a fornecer a estas forças principalmente matérias primas brutas e baratas, hoje chamadas de comodities, antes conhecidas como Drogas do Sertão. Sendo a disparidade entre o nosso PIB, décimo do mundo, e o nosso IDH(Índice de Desenvolvimento Humano), octagéssimo quarto do planeta, a prova mais eloquente desta absurda condição.
A ameaça da retirada do Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) dos Estados Unidos é muito mais do que uma decisão corporativa; é um evento geopolítico de primeira ordem. Ele reflete e pode acelerar a transição de um mundo unipolar, dominado pelo dólar, para uma ordem multipolar com múltiplos sistemas financeiros competindo entre si. Para os Estados Unidos, isso representa um desafio fundamental ao seu “privilégio exorbitante” e à sua capacidade de projetar poder globalmente. Para o resto do mundo, abre a possibilidade de maior autonomia financeira, mas também introduz um período de instabilidade e incerteza à medida que a nova arquitetura global é negociada e construída. E nós? Qual o nosso projeto enquanto nação?
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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