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Botei umas músicas de Caetano Veloso no pen drive e me pus a ouvi-las enquanto dirigia. Sei todas as letras e melodias. Muitas vezes presto atenção mais nos arranjos, abstraindo letra e melodia. Um exemplo está nos bandolins daquela música em que diz “Todo corpo em movimento está cheio de inferno e céu”. Poxa, isso é muito bonito. A letra ou os bandolins? Tudo. E ao final, arremata “Mas a gente nunca sabe mesmo o que é que quer uma mulher”. Afinal, estou escrevendo sobre o instrumental ou a letra? Tudo junto. Quando penso nas rimas das músicas de hoje, sorrio, complacente. Gal gravou primeiro, mas há uma versão acústica em que Veloso canta “E o meu caminho o teu caminho, é um nem vais, nem vou” em “Mãe”, que ainda tem “Eu corro, canto, grito, pulo, mas nunca chego a ti”. Caramba! E aquele violão ritmado que há quando canta “Assim como existe disco voador e o escuro do futuro, pode haver o que está dependendo, de um pequeno momento, puro de amor”. É “Da maior importância”, sobre um flerte com Gal, super anos 70. Acho que os melhores momentos o baiano viveU com a Outra Banda da Terra. Não lembro, mas acho que é de “Cinema Transcedental” aquela sobre Zezé Motta ou Sônia Braga que diz “Teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios, ou pra ser exato, lábios cor de açaí”. Parece uma viola que acompanha, ou será violão. Estão acompanhando? Assim como gosto da guitarra de Lanny Gordin em “Eu sou terrível”, de Roberto e Erasmo, cantada por Gal. A guitarra suja, rock and roll, ótima mesmo sem os recursos que há, hoje. E a orquestração de “Esse Cara”, com Bethânia. Fico parece um maestro, curtindo mais as cordas. Parecida com a orquestra de “Faz parte do meu show”, com Cazuza. Mas me faz parar para pensar, uma das declarações de amor mais lindas, que diz “Gosto de ver, você no seu ritmo, dona do carnaval”, que me sugere não o carnaval festa, mas a imaginação de ver essa mulher simplesmente andando, senhora dona de uma festa tão intensa e apaixonante como o carnaval. E claro, como diz o poeta, não somos nada, não seremos nada, há em “Oração ao Tempo”, o verso “E quando eu tiver saído, para fora do teu círculo, tempo, tempo, não serei, nem terás sido”. O tempo essa coisa impalpável, esse acúmulo de vida que olhando para atrás, nos faz exclamar, parece que foi ontem! O pen drive anuncia “A tua presença, entra pelos sete buracos da minha cabeça, a tua presença, pelos olhos, boca, narinas e orelhas, a tua presença, coagula o jorro da noite sangrenta”. Que beleza que invade o ser, que preenche o espaço todo, nos deixando engasgados! A melhor gravação é de Maria Bethânia em “Maria Bethânia Vianna Telles Veloso”. Há um mistério no som, nos instrumentos, percussão solene, sei lá. Assim como no piano de João Donato para Gal cantar “Até quem sabe”. Sim, Gal também está quando canta “Você sabe explicar, você sabe entender, tudo bem. Você está, você é, você faz, você quer, você tem”. Creio ser um dos versos mais representativos da força das mulheres. Quando ouço tenho vontade de, silenciosamente, respeitosamente, balançar a cabeça, reconhecendo a verdade nessas palavras. Enfim, estava ouvindo e me embebedando através do áudio dessas canções que me fazem lembrar, cada uma, momentos importantes da minha vida. E o que é essa vida que olhamos para trás e dizemos, parece que foi ontem! Desculpem, cheguei ao meu destino.









* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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