Publicado em: 16 de março de 2026
O Oscar, premiação maior do cinema mainstream, aconteceu ontem, domingo, 15, em Los Angeles, e acompanhou a expectativa de que o evento, a cada ano que passa, torna-se palco de manifestações políticas, onde os artistas deixam bem claro que não estão mais dispostos a manter neutralidade em troca de contratos, tempouco advogar por entretenimento alienante. Enquanto a indústria cinematográfica premiava seus destaques do ano, artistas utilizaram o tapete vermelho, o palco e discursos de agradecimento para abordar conflitos internacionais, políticas migratórias e questões de liberdade de expressão.
Não obstante, um filme sobre revoluções, “Uma Batalha Após a Outra” terminou como o maior vencedor da edição ao conquistar seis estatuetas, incluindo Melhor Filme. Na disputa por Melhor Filme Internacional, no entanto, a estatueta foi entregue ao longa norueguês “Valor Sentimental”, que aborda dramas familiares mais intimistas.
Para o Brasil, o resultado foi frustrante. O filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, havia chegado à cerimônia com quatro indicações (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Escalação de Elenco e Melhor Ator para Wagner Moura) mas saiu sem prêmios.
Na categoria de Melhor Ator, Wagner Moura acabou superado por Michael B. Jordan, premiado por sua atuação em “Pecadores”. Apesar da derrota, a indicação foi um feito histórico, já que foi a primeira vez que um ator brasileiro concorreu ao prêmio nessa categoria. Durante a cerimônia, Moura também participou como apresentador do prêmio de Melhor Escalação de Elenco, categoria que estreou neste ano.
A categoria de Melhor Fotografia também trazia esperanças para o Brasil com o talentosíssimo cinematógrafo Adolpho Veloso, que concorria por “Sonhos de Trem”. Veloso, que já está trabalhando na preparação de “Remain”, próximo filme dirigido por M. Night Shyamalan, é o novo queridinho de Hollywood na categoria e há inclusive boatos que que Steven Spielberg estaria interessado em trabalhar com ele.
O brasileiro ficou sem a estatueta, porém a cinematógrafa Autumn Durald Arkapaw venceu pelo trabalho em “Pecadores”, tornando-se a primeira mulher e também a primeira mulher “de cor” (termo usado nos Estados Unidos para pessoas não-brancas. Sua mãe é filipina, enquanto seu pai é de origem creole, com raízes em Nova Orleans e Mississippi) a conquistar o prêmio na área.
Durante o discurso de agradecimento, Arkapaw destacou o papel de outras profissionais que abriram caminho na cinematografia e citou nomes como Ellen Kuras e Rachel Morrison. Em seguida, dirigiu-se às mulheres presentes na plateia.
“Estou muito honrada de estar aqui e realmente quero que todas as mulheres nesta sala se levantem, porque sinto que não chegaria até aqui sem vocês.”
A vitória é a culminância de uma trajetória marcada por pioneirismo. Antes mesmo do prêmio, Arkapaw já havia estabelecido outro precedente histórico ao tornar-se a primeira mulher “de cor” indicada ao Oscar de Melhor Fotografia.
O reconhecimento da Academia também destacou uma produção considerada tecnicamente arriscada. “Pecadores”, dirigido por Ryan Coogler, foi filmado com uma combinação pouco comum de tecnologias: IMAX e Ultra Panavision 70.
A cinematógrafa tornou-se ainda a primeira mulher a filmar um longa-metragem em IMAX de grande formato, operando pessoalmente grande parte das tomadas com uma câmera de aproximadamente 29 quilos.
Sean Penn, que já havia ganhado dois Oscars de Melhor Ator por “Sobre Meninos e Lobos”, de Clint Eastwood, e “Milk”, de Gus van Sant, foi agraciado com sua terceira estatueta, desta vez como Melhor Ator Coadjuvante por seu trabalho brilhante como o vilão supremacista Coronel Steven Lockjaw de “Uma Batalha Após a Outra”. Ele não compareceu à cerimônia para ir a Ucrânia, segundo informações do New York Times.
A relação de Sean Penn com a Ucrânia não é de agora. Em 2022, o ator descreveu a resistência ucraniana à invasão russa como “a ponta de lança para o abraço democrático dos sonhos” e afirmou que “se permitirmos que ela lute sozinha, nossa alma como América estará perdida”. No mesmo ano, ele emprestou ao presidente Volodymyr Zelenskiy uma de suas estatuetas do Oscar, prometendo deixá-la em Kiev até que a Ucrânia vencesse a guerra. Posteriormente, revelou à revista Variety que chegou a considerar derreter seus dois prêmios para transformá-los em munição para o país e também dirigiu um documentário sobre a invasão russa.
O ator possui histórico de ausências na cerimônia do Oscar, tendo faltado às edições de 1996, 2000 e 2002, mesmo quando indicado, comparecendo apenas quando venceu o prêmio de Melhor Ator por Mystic River(2004) e Milk (2009); após a primeira vitória, declarou à Newsweek que só foi à cerimônia porque ficou “envergonhado” quando o diretor Clint Eastwood recebeu seu Globo de Ouro em seu lugar.
Ao longo da carreira, Penn também usou o palco do Oscar para manifestações políticas, como no discurso de Milk, quando criticou eleitores que apoiaram a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmando que era o momento de refletirem e anteciparem “sua grande vergonha” diante das futuras gerações.
Antes mesmo do início da premiação, o tom político já aparecia no tapete vermelho. Tradicional vitrine de moda e luxo, o espaço foi utilizado por artistas para demonstrar posicionamentos sobre conflitos internacionais e políticas governamentais.
A autora e ativista queer Glennon Doyle chamou atenção ao carregar uma bolsa preta com a inscrição em cristais “FK ICE”**, referência crítica à agência de imigração dos Estados Unidos, a Immigration and Customs Enforcement (ICE). Ela chegou ao evento acompanhada da esposa, a ex-jogadora olímpica de futebol Abby Wambach.
Outros convidados também exibiram mensagens políticas em seus acessórios, como “ICE Out” (“Fora ICE”), “Artists4Ceasefire” (“Artistas pelo cessar fogo”) e “Just Peace” (“Apenas Paz”).
O ator espanhol Javier Bardem apareceu com dois símbolos políticos: um broche com a frase “no a la guerra” e outro com a figura de Handala, personagem associado à identidade e à resistência palestina. Ao subir ao palco ao lado de Priyanka Chopra para apresentar o prêmio de Melhor Filme Internacional, Bardem criticou o conflito envolvendo o Irã e voltou a mencionar a situação palestina, afirmando: “não à guerra e Palestina livre.”
Mais cedo, ainda no tapete vermelho, o ator havia declarado: “estamos aqui 23 anos depois com outra guerra ilegal, criada por Trump e Netanyahu, com outra mentira para derrotar o regime. Eles estão radicalizando o regime por suas ações horríveis, esse não é o motivo. E também o simbolismo palestino da resistência.”
O diretor Joshua Seftel, ao receber reconhecimento pelo documentário “All the Empty Rooms”, dedicou parte de sua fala às vítimas de tiroteios em escolas. O filme retrata quartos vazios de crianças mortas em ataques armados, e o cineasta mencionou nominalmente quatro delas: Hallie, Gracie, Dominic e Jackie.
Na categoria de Melhor Documentário, o prêmio foi para “Mr Nobody Against Putin”, dirigido por David Borenstein. Em seu discurso, o cineasta afirmou que “quando agimos com cumplicidade, quando um governo assassina pessoas nas ruas de nossas grandes cidades, quando não dizemos nada, quando oligarcas tomam conta da mídia e controlam como podemos produzi-la e consumi-la. Todos enfrentamos uma escolha moral, mas felizmente até mesmo um ninguém é mais poderoso do que você imagina.”
O protagonista do filme, o russo Pavel Talankin, que também assina a codireção, fez um apelo contra conflitos armados: “por quatro anos, olhamos para o céu em busca de uma estrela cadente para fazer um desejo muito importante. Mas há países onde, em vez de estrelas cadentes, há bombas e drones caindo. Em nome do nosso futuro, em nome de todas as nossas crianças, parem todas essas guerras agora.”
O ex-apresentador do Oscar Jimmy Kimmel fez comentários direcionados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “ouvimos muito sobre coragem em premiações como esta, mas contar uma história que pode fazer você ser morto por contá-la é coragem de verdade. Como vocês sabem, existem alguns países cujos líderes não apoiam a liberdade de expressão. Não posso dizer quais. Vamos apenas dizer Coreia do Norte e CBS.”
Antes de anunciar os indicados ao prêmio de documentário, ele acrescentou: “ah, cara, ele vai ficar bravo porque a esposa dele não foi indicada para isso.”, em alusão ao documentário sobre a primeira-dama estadunidense, Melania Trump, um verdadeiro fiasco de bilheteria.
Logo na abertura da cerimônia, o apresentador oficial da noite, o humorista Conan O’Brien, alertou o público: “aviso que esta noite pode ficar política. Se isso deixar você desconfortável, há um Oscar alternativo sendo apresentado por Kid Rock em um Dave & Buster’s ali na esquina.”, fazendo referência ao show paralelo transmitido no intervalo do Super Bowl, organizado pela extrema-direita dos Estados Unidos em boicote à apresentação histórica do artista portoriquenho Benito Antonio Martinez Ocasio, o Bad Bunny.
Durante o monólogo inicial, O’Brien também fez comentários indiretos sobre o presidente estadunidense Donald Trump e sua relação aos arquivos do caso Epstein:
“Pela primeira vez desde 2012, não há atores britânicos indicados a melhor ator e melhor atriz. Um porta-voz britânico disse: sim, mas pelo menos nós prendemos nossos pedófilos.”
Apesar das piadas, o apresentador adotou um tom mais sério ao refletir sobre o momento internacional. Segundo ele: “Sim, esta noite é um evento internacional. Se eu puder falar sério por um momento, todos que estão assistindo agora, ao redor do mundo, sabem que estes são tempos muito caóticos e assustadores.” Ele destacou ainda a presença global na premiação: “É em momentos como estes que acredito que o Oscar se torna particularmente significativo — 31 países em seis continentes estão representados esta noite, e cada filme que celebramos é produto de milhares de pessoas falando diferentes idiomas, trabalhando duro para criar algo belo. Celebramos esta noite não porque pensamos que está tudo bem, mas porque trabalhamos e esperamos por algo melhor.”
Vai ficar, portanto, na imaginação o que teria dito Wagner Moura caso tivesse ganhado um Oscar histórico. Quem sabe ano que vem. Mesmo sem estatuetas em 2026, viva o cinema nacional!
Foto em destaque: The Academy / Instagram / Reprodução









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