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O dia 2 de fevereiro provoca, anualmente, uma movimentação simultânea de fé, cultura e memória histórica nas praias brasileiras. A data é dedicada a Iemanjá, conhecida como “Rainha do Mar”, uma das divindades mais cultuadas nas religiões de matrizes afro-brasileiras, especialmente no Candomblé e na Umbanda.

Iemanjá e a encantada Iara (ou Uiara) compartilham o elemento água nas tradições brasileiras. Iara é uma figura das tradições indígenas, a mãe-d’água que habita rios e lagos. A memória tradicional conta que ele era uma guerreira extremamente habilidosa, aprisionada nas águas por seus irmãos invejosos. Acredita-se que a aproximação com a figura da sereia seja influência da colonização europeia. Ela seduz com seu canto e atrai pescadores ou navegantes para as profundezas, compondo um mito ligado aos perigos e mistérios das águas interiores do país, provavelmente também construído a partir da influência colonial, transformando tanto o território quanto as figuras femininas em exóticas e perigosas, o que serviria de justificativa para as invasões. Assim como Iemanjá, Iara é protetora das águas e de todos os seus habitantes.

Embora existam outras datas de celebração conforme a região do país, este é o principal dia de homenagem à orixá. Em Salvador (BA), a festa é considerada uma das maiores manifestações religiosas e populares do Brasil, com origem no bairro do Rio Vermelho, onde pescadores passaram a agradecer e pedir proteção e fartura lançando presentes ao mar.

Milhares de pessoas, vestidas de branco, entregam flores, perfumes, espelhos, joias e barcos enfeitados às águas, em um ritual que une devoção, tradição e expressão cultural afro-brasileira.

No Rio de Janeiro, a celebração ganha duas grandes frentes de mobilização pública. Moradores e turistas, praticantes ou não das religiões afro-brasileiras, participam dos 50 anos do Presente para Iemanjá, organizado pelos Filhos de Gandhi.

A concentração ocorre na Rua Camerino, nº 7/9, na região da Pequena África, no bairro da Saúde. No local, é realizado um xirê com saudações aos orixás e distribuição de café da manhã gratuito.

Dali, um cortejo segue em direção à Praça Mauá, na região portuária, de onde parte a embarcação que leva as oferendas ao mar: perfumes, sabonetes, espumante, flores brancas e arroz doce. Após o retorno, a programação se estende até as 21h, com música ao vivo e som mecânico.

Outro ponto de celebração ocorre no Arpoador, na zona sul, com atividades até as 22h. Segundo os organizadores, o evento reúne 21 atrações musicais e dezenas de casas de Umbanda e Candomblé. O cortejo parte à tarde, com concentração na altura da estátua de Tom Jobim a partir das 15h e saída às 16h. O evento é reconhecido como patrimônio cultural imaterial.

A escolha do 2 de fevereiro está diretamente ligada ao sincretismo religioso. No calendário católico, a data é dedicada a Nossa Senhora dos Navegantes, associação que se firmou principalmente no Nordeste.

No Sudeste, a ligação também ocorre com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, celebrada em 8 de dezembro, quando praias paulistas recebem umbandistas e candomblecistas em homenagem à mesma divindade africana.

O sincretismo foi uma estratégia de sobrevivência histórica durante a escravidão, quando praticantes das religiões africanas eram proibidos de exercer seus cultos. A população escravizada era punida e torturada se fosse pega realizando de seus cultos e praticando suas crenças. Com a imposição catolicismo pelos colonizadores, através da aproximação das características de santos católicos, eles cultuavam os orixás, inquices ou voduns, o que não significa, claro, que os orixás e estes santos sejam a mesma coisa.

A associação com santas católicas impactou a forma como Iemanjá passou a ser retratada no Brasil. Em arte, publicidade e até em imagens religiosas, tornou-se comum a representação de uma mulher branca, magra, de cabelos lisos, vestindo azul.

Nos países africanos e em terreiros onde o sincretismo não é regra, a orixá segue sendo representada como uma mulher negra, de formas largas, ligada aos rios e mares.

O hábito amplamente difundido de passar o réveillon de branco na praia tem origem nos rituais em homenagem à Iemanjá. Na primeira metade do século passado, umbandistas realizavam homenagens a Iemanjá no litoral vestidos dessa forma, oferecendo flores e espumante. A tradição se fortaleceu ao ponto das pessoas começarem a ir de branco para a praia mesmo se não tivessem a crença no orixá ou fossem da religião, virando o ritual do ano novo brasileiro que é seguido inclusive por aqueles que perpetuam a intolerência contra as religiões de matriz africana e indígenas.

Na tradição iorubá, o nome original é Yemanjá, com “y”. A expressão “Ye omo ejá” significa “mãe cujos filhos são peixes”. No Brasil, a grafia com “i” se popularizou.

Foto: Janail Peixoto / Nationaal Museum van Wereldculturen

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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