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Na Amazônia, a gente aprende cedo que o tempo não obedece calendário.
Ele obedece ao rio, à chuva, à espera, ao amadurecer das coisas. Há anos que passam como vento. E há anos que ficam como raiz.
2025 foi desses que criam raiz.

Deixo nele o cansaço que me ensinou resistência. As noites longas, os silêncios difíceis, os medos atravessados com fé. Nada foi em vão. O que pesa também constrói. E tudo o que ficou pesado demais, eu entreguei ao tempo, esse mestre antigo que ensina sem pressa.

Foi um ano de colheita.
Colheita que não se explica em números, mas em gestos. Dois filhos formados. Dois frutos maduros depois de uma longa gestação de amor, renúncia e perseverança. Uma filha que se fez médica. Um filho que concluiu seu caminho no Direito.
Quem vive na Amazônia sabe: formar um filho é como criar árvore em terra desafiadora. Exige cuidado diário, fé no invisível e confiança de que, mesmo quando não se vê, a raiz está crescendo.

Nada disso foi caminhada solitária.
Honro a história construída a quatro mãos no passado, um amor que não chegou inteiro até aqui, mas que permanece vivo no que deixou de mais precioso. Há presenças que viram raiz. E raízes não desaparecem: sustentam.

2025 também me confirmou quem eu me tornei.
Uma mulher que não recuou. Que trabalhou com as mãos e com o coração. Que fez da gastronomia um gesto de cuidado, uma linguagem de afeto. Alimentar, para mim, nunca foi apenas nutrir o corpo, foi acolher a alma. Minhas camadinhas de amor, minha cozinha afetiva, meu ofício feito de presença nunca foram sacrifício. Foram propósito.

E quando pensei que o coração já tinha cumprido seu ciclo, a vida, generosa como só ela sabe ser, me surpreendeu. Um amor chegou sem alarde, sem promessa vazia. Chegou como chegam as boas chuvas: trazendo cuidado, verdade e descanso. Há encontros que não fazem barulho, mas reorganizam a casa por dentro.

Espiritualmente, 2025 me sustentou.
Foi Deus segurando minha mão nos dias difíceis. Nossa Senhora cobrindo meus passos com seu manto. São Miguel à frente, guardando escolhas, clareando decisões. O espiritual não me salvou do mundo, me ensinou a caminhar dentro dele com discernimento.

Na Amazônia, fé também se aprende no cotidiano.
Na panela que ferve devagar. Na mesa que reúne. No alimento que se reparte. Na gratidão silenciosa que se faz oração. Tudo se conecta quando o coração está desperto.

Levo para 2026 o que importa:
experiência, fé, amor, família.
Levo paz no espírito, saúde como prece diária e a certeza de que não caminho só. Deus caminha comigo, e quando a gente entende isso, nenhum ano é vazio.

Que venha 2026.
Eu vou com o coração em estado de agradecimento.
Porque quando o tempo amadurece, a colheita não é só fartura:
é consciência, é amor, é casa dentro da gente.

Nalva Avertano-Rocha
Gastróloga, Bacharel em Direito, Especialista em Bolo de Rolo, criadora do Bolo de Rolo Amazônico, empreendedora à frente da Nalva Avertano-Rocha Gastronomia. Ministra cursos livres de gastronomia com foco na valorização da cultura amazônica. Natural de Altamira (PA), apaixonada por crônicas, poesia e pelos sabores da floresta. Corredora amadora em processo de superação e reinvenção.

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