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Em todo o Brasil, a política ainda funciona nos moldes das capitanias hereditárias, criadas em terras tupiniquins no século XVI. Algumas famílias operam na política desde antes da independência do país, do que são exemplo os Andrada, em Minas Gerais. Na Amazônia parauara não é diferente. A novidade é que o desejo de ser oligarca vem se reproduzindo freneticamente entre os políticos emergentes, que criam sua própria árvore genealógica política assim que se elegem e logo alardeiam tradição familiar a partir de si próprios. Como Gilberto Freyre já evidenciava em sua obra: a família patriarcal é a dominação primeira do Brasil e se pode perceber a sobrevivência dela até hoje na política brasileira, desde a sua gênese pela escravidão e pelo massacre dos cativos e nativos, a concentrar poder político, educação e riquezas.

O PT era um partido que lutava contra esse modelo. Construiu sua história afirmando a centralidade da participação popular, da democracia interna e do protagonismo feminino na luta política, pregando que não há projeto de transformação social sem a participação ativa, organizada e em condições dignas das mulheres. Isso mudou.

Há dez dias, a ex-governadora Ana Júlia Carepa – a primeira do Pará – anunciou que desistira de sua candidatura a deputada federal, sem explicar exatamente o porquê. No dia seguinte o presidente do Sindifisco, ex-secretário de Estado e petista de carteirinha Charles Alcântara postou em suas redes sociais uma “carta aberta” escancarando que a ex-governadora, que também foi senadora, deputada federal e vice-prefeita de Belém, desistira da candidatura porque percebera que apenas serviria de “escada” para eleger Yuri Faro, vice-prefeito do Acará, filho do presidente estadual do PT, senador Beto Faro, e da deputada federal Dilvanda Faro, cuja candidatura a deputado federal já está engendrada.

Charles fustigou: “Ao retirares a tua candidatura, Ana Júlia, preservas a tua dignidade e, de quebra, impões esforço adicional ao capo partidário para ampliar a bancada familiar. O convite que recebeste, Ana Júlia, é comparável a um “conto do vigário”. As promessas de apoio que recebeste, Ana Júlia, foram enganosas e próprias de quem faz política com esperteza e malandragem, e de quem há muito deixou de fazer negociação na política e passou a fazer da política um negócio. No Pará, uma “santíssima” trindade apoderou-se de um partido cuja gênese não combina com mandonismo e familismo. Sempre tive orgulho do PT, e estou ainda mais orgulhoso da conduta do partido na cena nacional. No Pará, ao contrário, só tenho tido razões para sentir vergonha”.

As famílias políticas têm origem na família patriarcal colonial, matriz da formação do Estado brasileiro. Controlam os partidos, recursos públicos bilionários – via fundos partidário e eleitoral e emendas parlamentares –, o que lhes assegura enorme vantagem nos pleitos, possibilitando reeleição com facilidade e sem precisar gastar o próprio dinheiro. Com isso, reduzem as chances de renovação. Os filhos participam de reuniões e eventos desde criancinhas e já são criados para a política e seus privilégios, como o foro especial que lhes garante a perspectiva de prescrição de crimes praticados no exercício do poder, o direito de serem julgados não por magistrados concursados, mas por ministros escolhidos e nomeados por … políticos.

E além de descumprirem as leis que reservam parte dos recursos para utilização em campanhas de mulheres e negros, ainda legislam a autoconcessão de anistia pela má utilização dos recursos eleitorais.

Aos cidadãos comuns sobram os deveres.

P.S.: É emblemático o “santinho” postado nas páginas de Beto, Dilvanda e Yuri Faro no Facebook em, 02.02.26, de clara conotação político-eleitoral, embora a campanha ainda não esteja permitida.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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