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Liderança produtiva, vulnerabilidades estruturais e reconfiguração bioeconômica





O agronegócio brasileiro ocupa um lugar singular na economia nacional e no imaginário político do país. Ao mesmo tempo em que se consolidou como um dos principais motores da balança comercial, da geração de divisas e da projeção internacional do Brasil, ele também expõe, com nitidez, contradições estruturais que relativizam a imagem triunfalista frequentemente associada ao setor. A metáfora do “gigante de pés de barro” resume com precisão essa ambivalência. De um lado, trata-se de uma potência produtiva com escala global, elevada capacidade exportadora e forte presença em cadeias estratégicas como soja, milho, carne bovina e carne de frango. De outro, essa mesma potência repousa sobre bases frágeis: infraestrutura insuficiente, dependência externa de insumos, concentração fundiária, assimetrias sociais persistentes e crescente pressão ambiental.
Os números ajudam a dimensionar a magnitude do setor. O agronegócio responde, de modo recorrente, por algo entre 25% e 30% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA, 2025). A projeção de uma safra de grãos de 352,2 milhões de toneladas para 2024/2025 (CONAB, 2026) e o patamar de US$ 169,2 bilhões em exportações do agronegócio em 2025 (MAPA, 2025) confirmam não apenas a escala do complexo agroexportador, mas também sua relevância para a estabilidade macroeconômica do país. Sob esse prisma, o agronegócio não é um setor periférico; ele é uma das engrenagens centrais da inserção do Brasil no mercado mundial.
Contudo, seria um equívoco atribuir esse desempenho apenas à abundância de terra e à vantagem climática. O êxito do agronegócio brasileiro é resultado de um processo histórico de modernização apoiado por políticas públicas, crédito subsidiado, investimento técnico-científico e formação de capacidades institucionais (WORLD BANK, 2018). O setor não cresceu apenas porque o país é territorialmente vasto; cresceu porque houve, ao longo das últimas décadas, uma construção deliberada de condições para transformar recursos naturais em produtividade econômica. Essa perspectiva desfaz a narrativa naturalizante segundo a qual o Brasil teria se tornado uma potência agrícola quase espontaneamente, revelando, na verdade, uma forte dimensão política e institucional por trás desse sucesso.
Nesse contexto, o papel da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) é decisivo para a explicação do sucesso histórico do setor. A EMBRAPA se tornou um dos principais vetores da adaptação tecnológica da agricultura aos trópicos, permitindo a incorporação de territórios antes considerados marginais à produção intensiva e difundindo novas técnicas de manejo, melhoramento genético e organização produtiva (AKERMAN et al., 2026). Em termos sociológicos, a EMBRAPA representou muito mais do que um centro de pesquisa: ela funcionou como mediadora entre ciência, Estado e mercado, convertendo conhecimento em vantagem competitiva. Em termos econômicos, ajudou a elevar produtividade, reduzir incertezas agronômicas e aumentar a competitividade internacional da produção brasileira.
A ambiguidade do modelo, contudo, reside no fato de que a modernização agrícola brasileira não significou, automaticamente, modernização social. O país ampliou produtividade, sofisticação técnica e capacidade exportadora sem resolver, na mesma medida, seus déficits históricos de democratização do acesso à terra, distribuição de renda, integração equilibrada de produtores e preservação ambiental. Por essa razão, a noção de modernização conservadora permanece pertinente para interpretar o setor. Houve modernização dos meios técnicos e das formas de gestão, mas sem alteração substantiva de certas bases concentradoras que estruturam o espaço agrário brasileiro (IBGE, 2017; JOURNALS OPENEDITION, 2023). O resultado é um sistema altamente eficiente em termos de produção e circulação de mercadorias, mas muito menos eficiente quando se observam os critérios de inclusão social, equilíbrio territorial e sustentabilidade de longo prazo.
Essa contradição se expressa, em primeiro lugar, na própria configuração econômica da cadeia. Embora o país seja um gigante produtor, parte significativa do valor gerado ao longo do circuito é apropriada por segmentos altamente concentrados, muitas vezes controlados por grandes tradings, fornecedores globais de insumos ou operadores logísticos. Isso significa que o protagonismo brasileiro na produção nem sempre se converte, com a mesma intensidade, em soberania tecnológica, autonomia estratégica ou diversificação industrial. O país exporta em grande volume, mas ainda enfrenta limites relevantes na agregação de valor e na internalização dos elos mais sofisticados das cadeias.
Do ponto de vista sociológico, essa assimetria é decisiva. O agronegócio brasileiro não é apenas um setor produtivo; ele é também uma forma de organização do espaço, da propriedade, do trabalho e do poder. Discutir seu futuro exige, portanto, ir além da produtividade e perguntar quem ganha, quem perde, quem decide e quem absorve os custos do modelo vigente. A concentração fundiária, os conflitos em torno da terra e a marginalização relativa de pequenos produtores não são efeitos colaterais secundários. Eles constituem parte do problema estrutural. Sem essa dimensão, o debate corre o risco de se reduzir a uma narrativa técnico-gerencial.
Essa ambivalência estrutural se aprofunda ao se observar as fragilidades econômicas que sustentam o setor. A precariedade logística é um dos “pés de barro” do agronegócio. O fato de cerca de 80% da produção agrícola ser transportada por rodovias mostra como a inserção global do setor ainda depende de uma infraestrutura cara, ineficiente e vulnerável (USDA, 2024). O custo do transporte reduz competitividade, amplia perdas e aprofunda desigualdades regionais, favorecendo áreas mais integradas e penalizando regiões onde a produção cresce sem que o Estado acompanhe com planejamento logístico proporcional. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) multimodal, com a meta de reduzir 20% dos custos logísticos, aponta para um reconhecimento institucional do problema. Ainda assim, o desafio não é apenas construir obras, mas reorganizar a lógica territorial da circulação, conectando produção, armazenamento, ferrovia, hidrovia e portos de maneira mais racional.
Outro ponto crítico é a dependência de insumos importados. O dado de que cerca de 75% dos fertilizantes utilizados pelo setor vêm do exterior não é um detalhe conjuntural; ele revela uma vulnerabilidade estrutural (ANDA, 2024). Quando oscilações geopolíticas, crises energéticas ou rupturas de cadeias globais pressionam preços e abastecimento, a competitividade do agronegócio brasileiro se torna parcialmente refém de dinâmicas externas. Em termos econômicos, trata-se de um problema de segurança produtiva. Em termos estratégicos, é a evidência de que o gigantismo exportador convive com uma dependência que compromete a autonomia nacional.
As fragilidades econômicas se articulam, ainda, com fragilidades sociais. A expansão da fronteira agrícola e a incorporação tecnológica do campo beneficiaram de forma desigual os diferentes segmentos rurais. Os grandes empreendimentos, com maior acesso a crédito, tecnologia, seguros e mercado externo, consolidaram vantagens cumulativas. Já pequenos produtores, agricultores familiares e populações inseridas em economias territoriais mais frágeis convivem com maiores obstáculos para financiamento, assistência técnica, comercialização e inserção qualificada nas cadeias. A importância da agricultura familiar é inegável, e programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), com orçamento anual de R$ 18,5 bilhões (MDA, 2025), mostram que existe reconhecimento público do papel desse segmento na segurança alimentar, no dinamismo regional e na reprodução social do campo. O problema é que, no interior do modelo dominante, a agricultura familiar segue muitas vezes tratada como apêndice social de um sistema cujo centro dinâmico está em grandes cadeias de commodities. O crédito rural, que totalizou R$ 354,4 bilhões contratados até fevereiro de 2026 para o Plano Safra 2025/2026 (MAPA, 2026), embora essencial, não é distribuído de forma equitativa, aprofundando as disparidades.
Além das vulnerabilidades econômicas e sociais, a dimensão ambiental impõe um desafio ainda mais premente. A expansão agropecuária esteve, em vários contextos, associada ao desmatamento, à perda de biodiversidade, à contaminação de solos e águas e à intensificação de emissões. Embora o dado de redução de 16,7% nas emissões brutas de gases de efeito estufa em 2024, segundo o Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG, 2025), seja relevante, ele não elimina a necessidade de olhar para a estrutura das emissões do setor. A pecuária, sozinha, responde por 54% das emissões do agronegócio, o que demonstra que parte da competitividade brasileira continua vinculada a uma base ambientalmente tensionada. A pressão internacional por produtos livres de desmatamento e por cadeias rastreáveis não surge, portanto, como mera exigência moral externa; ela decorre da crescente incompatibilidade entre certos padrões de consumo global e sistemas produtivos que ainda externalizam custos ecológicos elevados (FAO, 2024). O Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), em sua 5ª Fase (2023-2027), busca mitigar esses impactos (MMA, 2023), mas o desafio é sistêmico.
É justamente nesse ponto que a bioeconomia se apresenta como resposta estratégica às contradições do presente. Se a EMBRAPA explica parte da formação histórica da potência agropecuária, a bioeconomia emerge como horizonte de reconfiguração produtiva e institucional. Ela representa a possibilidade de deslocar o setor de um padrão excessivamente ancorado em commodities, insumos importados e pressão sobre recursos naturais para um modelo mais intensivo em conhecimento, circularidade, agregação de valor e aproveitamento sustentável de recursos biológicos renováveis (MMA, 2025).
A bioeconomia, nesse sentido, não pode ser reduzida a retórica de inovação verde. Para ter densidade real, ela precisa articular ciência, indústria, crédito, regulação, infraestrutura e coordenação estatal. O registro de 162 novos bioprodutos em 2025, a estimativa de um mercado de R$ 7 bilhões para bioinsumos na safra 2024/2025 e a meta de alcançar 30% de bioinsumos na agricultura até 2030 (EMBRAPA, 2025) mostram que existe uma base concreta de transformação em curso. No entanto, o salto qualitativo dependerá de algo mais profundo do que expansão de nichos tecnológicos: exigirá a construção de um ecossistema produtivo capaz de reduzir dependências externas, ampliar valor agregado, fortalecer cadeias industriais nacionais e incorporar critérios mais rigorosos de sustentabilidade.
Uma diferença fundamental reside entre usar a bioeconomia como discurso legitimador e usá-la como vetor efetivo de reorganização do modelo. Na primeira hipótese, ela funciona como camada cosmética aplicada sobre estruturas produtivas pouco alteradas. Na segunda, ela se converte em estratégia para mudar padrões de insumo, energia, produção e comercialização. A transição bioeconômica não será automaticamente inclusiva, nem automaticamente sustentável. Sem políticas públicas adequadas, ela pode inclusive reproduzir antigas assimetrias sob nova linguagem tecnológica.
As pressões internacionais abrem uma janela ambígua. De um lado, exigências associadas a rastreabilidade, critérios ESG, acordos comerciais e demandas por produtos “deforestation-free” podem funcionar como mecanismos de constrangimento externo. De outro, podem operar como incentivo à modernização qualitativa do setor. O que está em disputa não é apenas a adaptação do agronegócio às regras do comércio internacional, mas a possibilidade de transformar pressão reputacional em oportunidade de reposicionamento estratégico. Se bem conduzida, essa transição pode aproximar competitividade e legitimidade ambiental. Se mal conduzida, pode apenas aprofundar custos internos em nome de uma conformidade superficial.
Diante desse cenário complexo, a agenda de futuro do agronegócio brasileiro precisa ser formulada em bases mais amplas. Não basta celebrar recordes de safra ou crescimento das exportações. É necessário combinar, de forma mais consistente, pelo menos cinco dimensões. A primeira é a logística, com investimento efetivo em integração multimodal e redução do custo territorial da produção. A segunda é a autonomia em insumos, com fortalecimento de cadeias domésticas de fertilizantes, defensivos biológicos e inovação aplicada. A terceira é a agregação de valor, para que o país avance na transformação industrial e reduza sua dependência de exportações primárias. A quarta é a inclusão produtiva, com fortalecimento da agricultura familiar, ampliação da assistência técnica e maior equilíbrio na distribuição de oportunidades. A quinta é a governança ambiental, com rastreabilidade, combate ao desmatamento e compatibilização entre produção e preservação.
Essas dimensões não são acessórios normativos; elas definem a própria viabilidade de longo prazo do setor. Em um mundo cada vez mais sensível à origem ambiental dos produtos, à segurança das cadeias e à resiliência geopolítica da produção, o agronegócio que permanecer preso a gargalos estruturais poderá continuar grande, mas será progressivamente menos soberano. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas manter liderança quantitativa. É transformar essa liderança em capacidade duradoura de coordenação tecnológica, estabilidade ambiental e legitimidade social.
O agronegócio brasileiro está diante de uma escolha histórica. Pode persistir como potência assentada em ganhos de escala, vantagens naturais e incentivos setoriais, mas vulnerável a choques externos, contestação ambiental e reprodução de desigualdades internas. Ou pode converter sua força produtiva em base para uma nova etapa de desenvolvimento, na qual eficiência econômica, inovação tecnológica, inclusão social e responsabilidade ecológica deixem de ser vetores dissociados. Essa segunda alternativa exige abandonar a ilusão de que produtividade basta. A verdadeira modernidade do setor não será medida apenas pela quantidade que produz ou pelo volume que exporta. Ela será medida pela capacidade de resolver a tensão entre riqueza e dependência, tecnologia e desigualdade, competitividade e destruição ambiental. Enquanto essa tensão permanecer sem enfrentamento, o agronegócio seguirá sendo um gigante. Mas continuará, também, apoiado sobre pés de barro.

Referências
AKERMAN, Ariel; MOSCONA, Jacob; PELLEGRINA, Heitor S.; SASTRY, Karthik A. EMBRAPA and Brazil’s agricultural revolution. Cambridge: MIT Economics, 2026.
ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos). The development of the fertilizer industry in the last 50 years. São Paulo: ANDA, 2024.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Crédito rural cresce 7% no Plano Safra 2025/2026 e totaliza R$ 354,4 bilhões contratados até fevereiro. Brasília: MAPA, 2026.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Exportações do agronegócio brasileiro. Brasília: MAPA, 2025.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Pronaf—Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Brasília: MDA, 2025.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. 5ª Fase do PPCDAm (2023-2027). Brasília: MMA, 2023.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia. Brasília: MMA, 2025.
CEPEA/ESALQ/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). PIB do agronegócio brasileiro. Piracicaba: CEPEA, 2025. Séries recentes.
CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento). Série histórica da produção agrícola. Brasília: CONAB, 2026.
EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Bioinsumos: tendência de crescimento no Brasil. Brasília: EMBRAPA, 2025.
FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations). Greenhouse gas emissions from agrifood systems: global, regional and country trends, 2001-2023. Roma: FAO, 2024.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2017.
JOURNALS OPENEDITION. Mato Grosso: expressão aguda da questão agrária brasileira. Confins: Journal for Global Territorial Analysis, 2023.
SEEG (Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa). Análise das emissões de gases de efeito estufa e suas implicações para as políticas públicas. Brasília: SEEG, 2025.
USDA AMS (United States Department of Agriculture – Agricultural Marketing Service). Brazil soybean transportation guide. Washington, D.C.: USDA, 2024.
WORLD BANK. Agriculture productivity growth in Brazil. Washington, D.C.: World Bank, 2018.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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