Publicado em: 25 de janeiro de 2026
Indubitavelmente o texto a seguir não contempla a grandiosidade da obra de Guimaraes Rosas, entretanto, estabelece um olhar, mesmo que panorâmico, sobre detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Por isso, trazemos nesta semana um olhar ameno sobre o romance de Guimaraes Rosas
Publicado em 1956, Grande Sertão: Veredas surge em um Brasil atravessado por tensões estruturais: modernização acelerada, permanência de arcaísmos sociais, coronelismo, violência privada e fragilidade institucional no interior do país. É o período do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, mas também de um país cindido entre o urbano que se projeta para o futuro e o sertão que permanece à margem. Guimarães Rosa escolhe esse sertão como núcleo simbólico da condição humana, onde o drama ético, metafísico e existencial se revela em estado bruto.
Narrado em forma de longo monólogo por Riobaldo, o romance constrói uma experiência radical de linguagem e consciência. Desde o início, o narrador adverte: “Viver é muito perigoso”. A frase não é apenas aforismo: ela condensa a instabilidade moral que atravessa toda a obra. Riobaldo fala para compreender e não para contar. Sua fala é errante, circular, hesitante, refletindo um sujeito dilacerado entre a dualidade da fé e dúvida, do bem e do mal, de Deus e do Diabo.
O sertão rosiano se estende para além do espeço geográfico, como afirma o próprio narrador: “O sertão é dentro da gente.” Essa inversão simbólica desloca o romance regionalista tradicional. O espaço externo se torna espelho do conflito interior. Diferentemente do sertão seco e socialmente determinado de Graciliano Ramos, em Rosa o sertão é metafísico, instável, movediço, feito de veredas que se bifurcam como as escolhas humanas.
O momento histórico do Brasil ajuda a compreender essa escolha estética. O país ainda buscava uma identidade nacional moderna, mas carregava heranças coloniais profundas. Guimarães Rosa recusa soluções fáceis e narrativas maniqueístas. A jagunçagem, presente na obra, não é romantizada nem condenada de forma simplista; ela é apresentada como expressão de um sistema social aonde o Estado não chega e onde a ética se constrói na precariedade.
Acredito que o grande eixo filosófico do romance é a dúvida sobre a existência do mal absoluto. Riobaldo pergunta: teria ele feito um pacto com o Diabo. “O diabo existe e não existe?” A pergunta atravessa toda a narrativa. Rosa não responde. Talvez essa seja a sua força. O mal, no romance, não é uma entidade externa, mas algo que se infiltra nas decisões humanas, nos silêncios, nas justificativas morais.
A linguagem é talvez o aspecto mais revolucionário da obra. Guimarães Rosa rompe com a norma culta tradicional e cria uma língua híbrida, poética, oralizada, repleta de neologismos, arcaísmos, regionalismos e invenções sintáticas. Não se trata de alegoria estilística, mas de um projeto estético-político: dar forma literária a um pensamento que não cabe na linguagem racional e urbana. Como observa Antônio Candido, Rosa cria uma língua “capaz de dizer o indizível”.
Essa linguagem exige um leitor ativo. Ler Grande Sertão: Veredas é atravessar um território instável, onde o sentido nunca é definitivo. A frase rosiana não se fecha; ela pulsa. Como diz Riobaldo: “Contar é dificultoso.” O romance, assim, questiona o próprio ato de narrar, desmontando a ideia de verdade única e expondo a memória como construção falha, atravessada pelo desejo e pela culpa.
No centro afetivo da obra está Diadorim, figura ambígua que concentra amor, guerra, segredo e transgressão. A relação entre Riobaldo e Diadorim rompe padrões heteronormativos e morais sem jamais se reduzir a rótulos. O amor vivido é impossível, silenciado, deslocado e, justamente por isso, profundamente humano. Rosa antecipa debates contemporâneos sobre identidade, gênero e desejo, sem nunca transformar o romance em panfleto.
A crítica literária reconhece em Grande Sertão: Veredas uma síntese rara entre tradição e ruptura. Walnice Nogueira Galvão destaca que o romance “reformula o épico”, enquanto Benedito Nunes lê a obra como um grande tratado filosófico sobre o ser.
Pode-se afirmar: Grande Sertão: Veredas é um romance que recusa respostas, confortos e certezas. Em um Brasil que buscava progresso rápido e discursos simplificadores, Guimarães Rosa ofereceu complexidade, ambiguidade e profundidade. Sua obra nos lembra que não há atalhos éticos, que o bem e o mal se misturam e que, no fundo, como Riobaldo aprende dolorosamente, o mais perigoso não é o sertão — é o homem diante de si mesmo.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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