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Essa expressão popular, não muito conhecida pelas gerações mais jovens, era
de usada por nossos pais e avós, quando desejavam descrever um trabalho ou
tarefa que não exigia grande perícia ou versatilidade de quem o executaria,
nem acarretava grande responsabilidade técnica do seu operador – ao contrário
do trabalho pormenorizado, delicado e especializado que é esculpir e moldar o
nariz da imagem de um santo, danificada por fatores externos ou pelo desgaste
natural do tempo.


Assim, dizer que para ultimar determinada atividade que ela “NÃO PRECISA
SER NARIZ DE SANTO”, resta claro a intenção de dizer a quem vai executá-la,
que não é exigível perfeição, nada rigorosamente impecável, inquestionável ou
que o executor deva ter alta especialização para realizá-la, bastando aquele
conhecimento básico daquilo que vai ser realizado. 


A expressão reforça a ideia de que a imperfeição humana é aceitável e que os
erros ou defeitos encontrados na elaboração de qualquer obra, não impedem o
reconhecimento da competência ou da boa intenção do executor, porquanto a
boa intenção e a vontade de acertar de alguém, importa mais do que a fama ou
da perfeição, que muitas vezes serve de mote para cobranças abusivas da
contraprestação daquilo que foi feito, só porque o sujeito tem fama de “expert”.
Na prática, é o reconhecimento de que todos nós temos falhas, ainda que
toleráveis.


E qual seria a origem dessa curiosa expressão?


Tudo indica que ela decorre do imaginário religioso vinculado à arte sacra, com
destaque para o período do barroco no Brasil, estilo predominante no período
colonial do século XVII, caracterizado pelo contraste, pela riqueza de detalhes,
pela temática essencialmente religiosa e pela forte influência europeia adotada
pelo Brasil daquela época, tendo seu auge ocorrido na escultura, na pintura na
arquitetura), principalmente em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. 


Na fase barroca, as imagens dos santos da Igreja eram esculpidas de forma
perfeita, delicada, serena e inalterada, com os traços faciais e o próprio nariz
bem definidos, realçando a beleza física idealizada pelo ser humano e a
completa ausência de qualquer defeito física na obra de arte elaborada.


Acrescente-se que historicamente, a quebra do nariz das imagens ou estátuas
era vista como mutilação apta a negar, tirar a honra e a ultrajar a
respeitabilidade da obra representada, isso tanto no Brasil como em outros países, num quadro de lamentável vandalismo religioso, social, amoroso ou político.


É possível que alguns ainda lembram da icônica novela Roque Santeiro, exibida
pela TV Globo entre 24/06/85 a 22/02/86, que galvanizou a audiência do
público brasileiro, tendo como autores Dias Gomes e Aguinaldo Silva, um dos
maiores sucessos de audiência da história da televisão brasileira, durante a qual
houve a quebra do nariz da estátua do protagonista, pelo professor Astromar
Junqueira (que na calada da noite “se gerava” em vampiro…).


A quebra do nasal da estátua de Roque, que dominava a pequena praça em
frente à igreja local, configurou ato de vandalismo motivado por ciúmes, com a
intenção de ridicularizar o ídolo da minúscula Asa Branca, tudo para chamar a
atenção de Mocinha, deixando, entretanto, a população absolutamente
chocada. Foi ato pensado pelos autores como forma de desmistificar a figura do
herói, utilizando um gesto de destruição para gerar conflito, revolta e ciúme.


Assim, se em algum momento for dito por alguém da geração passada, que
para a realização de qualquer obra, peça ou tarefa “NÃO PRECISA SER NARIZ
DE SANTO”, tenha a certeza que tal metáfora indica de modo induvidoso que a
aludida missão não exige alta performance para ser realizada, que o labor a ser
desenvolvido terá seu valor e legitimidade reconhecidos e que eventuais
deslizes durante a execução ou no resultado final serão tolerados…



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Célio Simões
Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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