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O clima de Copa do Mundo do Cinema que tomou conta da vida dos brasileiros em diversas cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Olinda, Recife, entre outras capitais, deixa a sensação inequívoca de que cinema é arte e indústria que movimenta milhões de dólares em dimensão planetária, já que a cerimônia da Academia de Artes e Ciências de Hollywood é transmitida para mais de 200 países no mundo.


O efeito “Ainda Estou Aqui” não se repetiu na edição desse ano (filme internacional), mesmo com a maratona incansável de mais 300 dias em eventos internacionais e os prêmios importantes recebidos no Festival de Cannes para o filme “O Agente Secreto” nas categorias de direção e ator para Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura.


A categoria de melhor filme internacional, a mais importante no mérito da visibilidade de produções fora do eixo hollywoodiano, apresentou filmes pontuais para o conhecimento do cinema contemporâneo no mundo e outras formas de narrativa cinematográfica, a exemplo do thriller tenso, político e sofisticado de “O Agente Secreto”; o cinema arriscado, corajoso e realizado sob censura total em “Foi Apenas um Acidente”, do iraniano Jafar Panahi; o cinema cru e ousado na escolha de locações, uso da trilha sonora e mise-em-scéne em “Sirât”, do espanhol Oliver Laxe; e o suspense agonizante de “A Voz de Hind Rajab”, representando a Tunísia e dirigido por Kaouther Ben Hani.


O premiado da noite foi “Valor Sentimental”, do norueguês Joachim Trier, que se pretende a ser quase um tributo à obra de Ingmar Bergman, num drama familiar que não apresenta nada de novo na proposta de um cinema introspectivo influenciado pelo mestre sueco de “Gritos e Sussurros”. Em que pese suas qualidades técnicas e performances corretas, o filme de Joaquim Trier (nada a ver com os grandes filmes do dinamarquês Lars von Trier), não tem o capacidade de narrar cinematograficamente a influência que os filmes de Bergman exerceu, de forma bem-sucedida, nos filmes de Woody Allen (“A Outra”, “Interiores”), Walter Hugo Khouri (“Noite Vazia”, “Paixões e Sombras”), entre outros cineastas e títulos relevantes.


O que se observa é que filmes que estão em evidência em determinado momento do mercado cinematográfico, comercializados como filmes autorais ou filmes de arte, conseguem ofuscar títulos mais interessantes por meio de campanhas bem calculadas e outros motivos que a razão desconhece.


É também o caso da escolha de Jessie Buckley como melhor atriz no mediano “Hamnet”, de Chloé Zaho, em detrimento da interpretação extraordinária e de alta voltagem de Rose Byrne em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, que explora a maternidade claustrofóbica sob a direção de Mary Bronstein. A interpretação de Buckley é o que se espera de um drama de época, enquanto o desempenho de Byrne é arrebatador e acompanha o cinéfilo por horas após a saída do cinema.


E como assistir com naturalidade a escolha de “Golden” (Guerreiras do K-PoP) como canção original deixando para trás “I Lied to You” (Pecadores), interpretada por Miles Caton; o universo lírico de “Viva Verdi” em “Sweet Dreams of Joy”, com Ana Maria Martinez; e a bela “Train Dreams” com Nick Cave para “Sonhos de Trem”? Decididamente, a vitória de canção original 2026 entra para história como uma das escolhas mais decadentes e constrangedoras da premiação, mesmo como todo o entendimento que temos sobre ao cinema como indústria de produtos comerciais e simbólicos e a previsibilidade dos prêmios técnicos.


Mas nem tudo é injustiça e decepção no Oscar 2026, que teve ritmo acelerado e consagrou a revolução contra o fascismo nos EUA em “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, nas categorias filme, direção, roteiro adaptado, montagem, ator coadjuvante (Sean Penn) e seleção de elenco. O terror gótico e musical de “Pecadores”, de Ryan Coogler, conquistou os prêmios de ator (Michael B. Jordan), fotografia, roteiro original e trilha sonora. E o destaque ficou com Amy Madigan como melhor atriz coadjuvante por “A Hora do Mal”, de Zach Cregger. 


O lado positivo da participação brasileira na edição 2026 é o recorde histórico de indicações: filme, filme internacional, ator, escalação de elenco (O Agente Secreto) e fotografia (Sonhos de Trem). 


Wagner Moura nos entrega uma interpretação introspectiva (muito próxima da técnica contida, porém fortíssima, utilizada por Fernanda Torres em “Ainda Estou Aqui”) na pele de um professor universitário, de personalidade ambígua, acossado pela ditadura militar nos anos de 1970, impregnado de melancolia e desconfiança.


“O Agente Secreto” é, ao mesmo tempo, um filme pernambucano e absolutamente universal, de contexto multirracial e multicultural, que fala dos conflitos atemporais que podem mascarar o que compreendemos como verdade dos fatos, como a realidade concreta do Brasil em qualquer tempo e que infelizmente pode se repetir com a mudança dos ventos da vida política.


As indicações de “O Agente Secreto” e o talento fotográfico de Adolfo Veloso em “Sonhos de Trem” é o reconhecimento do Brasil como lugar de potência criativa, que gera milhares de empregos e estimula novas gerações para acreditar que os sonhos não envelhecem e a vida nesse país vale a pena, que pode dar certo.

Reprodução/AMPAS Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas)



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

José Augusto Pachêco
José Augusto Pachêco é jornalista, crítico de cinema com especialização em Imagem & Sociedade – Estudos sobre Cinema e mestre em Estudos Literários – Cinema e Literatura. Júri do Toró - 1º Festival Audiovisual Universitário de Belém, curadoria do Amazônia Doc e ministrante de palestras e cursos no Sesc Boulevard e Casa das Artes.

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