Publicado em: 19 de janeiro de 2026
“Saber é poder”, dizia Francis Bacon lá nos idos de 1.600, mas por aqui há fortes indícios de que ainda não aprenderam esta obviedade. Em uma decisão que nos castigará por gerações, o Congresso Nacional aprovou, para o orçamento público de 2026, cortes que somam quase meio bilhão de reais, nos recursos destinados às duas principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do Brasil, CAPES(Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e ao CNPq(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Esta notícia, que é o anúncio da escolha pelo subdesenvolvimento, pelo limite do sonhos dos jovens e pela baixa inovação dos empreendedores é recebida com a apatia típica dos colonizados que não percebem o papel dos vendilhões do trabalho da nação. Uma decisão que significa um golpe profundo na espinha dorsal do desenvolvimento nacional, uma ferida autoinfligida que compromete não apenas o futuro, mas a própria soberania do país.
Todos os parlamentares que votaram nesta infâmia, possuem assessores capazes de lhes informar que desde o século XVI, Francis Bacon e outros, demonstrava como o conhecimento, obtido através do método científico, concede aos seres humanos em Sociedade a capacidade de dominar e transformar a natureza, gerando soluções práticas de seus problemas, inclusive militares, econômicos e de organização política, gerando a base para o desenvolvimento da qualidade de vida da nação. O saber, não como um fim em si mesmo, mas como ferramenta para ação e utilidade prática, para o bem comum, rompendo com a filosofia teórica da Idade Média. Para Bacon, o saber, quando empírico e organizado, torna-se uma força ativa (poder) que permite ao homem intervir no mundo para aperfeiçoá-lo, sendo a ciência a chave para a libertação das nações e de cada indivíduo.
Renê Descartes, no século XVII, deixou claro que a produção de conhecimento próprio é o motor que impulsiona as nações. Não por acaso, os países que hoje desfrutam de altos índices de desenvolvimento e qualidade de vida são aqueles que, historicamente, investiram maciçamente em ciência e tecnologia. Portanto, conhecimento não é um luxo, mas um recurso estratégico fundamental.
Peter Drucker, o pai da administração moderna, sentenciou: “O conhecimento e a informação são os recursos estratégicos para o desenvolvimento de qualquer país”. Ignorar essa máxima é, no mínimo, uma insensatez.
Os números da incensatez são alarmantes. Para 2026, o CNPq sofrerá uma redução de R$ 92,4 milhões, enquanto a CAPES perderá R$ 359,3 milhões. Em termos percentuais, os cortes podem chegar a 25% e 18%, respectivamente, em um cenário onde os recursos já eram insuficientes. A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) alertam para um verdadeiro “estrangulamento do financiamento à pesquisa pública”. Imagine quem faz ciência, como nós, na Amazônia, que só vê 3% dos investimentos em ciência do país.
Essa decisão se torna ainda mais grotesca quando contrastada com a realidade socioeconômica brasileira. O Brasil, que em 2025 figurava como a 11ª maior economia do mundo em Produto Interno Bruto (PIB), amarga a 84ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede a qualidade de vida da população. Somos uma nação que trabalha e produz em alta escala global, mas que é impedida, exatamente por falta de soberania e outros conhecimentos, em converter essa riqueza em bem-estar para seus cidadãos. Entre ser a décima nação que mais gera riqueza e uma das que menos usufrui dela, reside o constante e deliberado ataque ao conhecimento e à educação.
Só que o ataque externo é operado por tropas, ou melhor, gangues políticas daqui mesmo, os vendilhões da pátria. Por isso vão implorar fora que nos invadam… E, pra piorar, esta votação deixou claro que a retirada do investimento na ciência, foi uma das fontes para manter as emendas impositivas que esvaziam a capacidade de investimento público sem qualquer justificativa de interesse público. O que torna qualquer silêncio ou omissão em cumplicidade com o que há de pior no Brasil.
Como bem apontou o economista Jeffrey Sachs, a América Latina, e o Brasil em particular, está presa na “armadilha da renda média”, exportando commodities enquanto negligencia o avanço tecnológico e o capital humano. “Precisamos de investimentos muito maiores em pesquisa e desenvolvimento”, clama Sachs, ressaltando que nossos níveis de investimento são baixos em comparação com outras regiões do mundo. Gunnar Myrdal, prêmio Nobel de economia, já alertava que o desenvolvimento das nações ricas e pobres poderia jamais convergir, especialmente se as últimas não realizassem investimentos estratégicos com forte intervenção estatal. Nossos parlamentares, ao que parece, caminham na contramão da história, da razão econômica e do patriotismo que dizem os motivar.
O geógrafo Milton Santos, um dos maiores pensadores brasileiros, oferece a chave para compreendermos a gravidade do que está em jogo. Para ele, a globalização se manifesta de duas formas: como “fábula”, a narrativa de um mundo conectado e cheio de oportunidades, e como “perversidade”, a realidade da desigualdade e da exclusão. Ao cortarmos os investimentos em ciência, aprofundamos a nossa inserção perversa na globalização, como meros fornecedores de matéria-prima, abdicando da capacidade de inovar e agregar valor. “Um país que não controla sua tecnologia também não controla seu desenvolvimento”, sentenciou Santos. A decisão do Congresso é, portanto, uma ameaça à nossa soberania, mais grave e estrutural do que qualquer interferência externa, pois nos desarma intelectualmente.
Este corte não é apenas um número em uma planilha. Ele retira de nossa juventude o direito de sonhar com um futuro digno, de se tornar cientista, pesquisador, inovador. Tira de nossos empreendedores a oportunidade de criar tecnologias de alto impacto, capazes de gerar riqueza e internalizá-la. Condena o país a um ciclo vicioso de dependência e subdesenvolvimento, onde a riqueza produzida aqui continua a fluir para os países que detêm o monopólio do conhecimento.
O verdadeiro desenvolvimento, como nos ensinou Milton Santos, “ocorre quando a técnica é colocada a serviço da emancipação, e não da dominação”. A decisão dos parlamentares que votaram a favor desses cortes escolheu o caminho da dominação, da submissão. Uma escolha que o futuro, implacável em seu juízo, não lhes perdoará.



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