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No dia 31 de dezembro, um jovem e uma jovem, amigos recentes, foram realizar uma trilha no Pico do Paraná, a montanha mais alta da região Sul do Brasil. O rapaz é um homem branco, bombeiro, com formação técnica em segurança do trabalho e tem 19 ou 20 anos – li idades distintas nas reportagens. A moça, jovem negra, que não teve sua ocupação e idade destacada em nenhuma reportagem que li,tem 19 anos (achei a idade, após ir pesquisar).

Ambos jovens adultos, conseguiram chegar ao topo da montanha e ver o nascer-do-sol. O rapaz havia passado mal na subida e por isso descansaram ao chegar em seu destino. No retorno, a moça resolveu ir na frente, considerando que o rapaz era lento. Segundo seu relato, havia mais um casal próximo, fato que a fez ficar despreocupada, não se sentindo na obrigação de esperar, e se permitindo seguir adiante, já que não tinham uma relação próxima de intimidade que os deixassem atrelados corpórea e afetivamente, como costuma ocorrer entre casais ou pessoas amigas.

Somente após um tempo, e aparentemente após preocupação de terceiros, percebeu que ele não havia voltado.

O rapaz foi resgatado e está vivo. Não vou entrar no mérito de solidariedade aqui, nem de ética, que levaria até a uma reflexão filosófica. Sim, também sei que é esperado, sobretudo de nós mulheres, o cuidado com próximo, especialmente em condições atípicas que possam envolver alguma condição limite de saúde, por exemplo. Mas, acho importante que possamos sair da individualização e moralidade, para analisar o entorno social em torno do caso.

O primeiro ponto que gostaria de refletir foi a insistência das reportagens em destacar o fato da moça ser amazonense. Aparentemente a pouca idade, o fato de ser mulher, a ocupação, tempo de amizade, nada disso era relevante, mas a região de nascimento sim. E o que será que isso revela quando a mídia tenta responsabilizar uma pessoa por um acidente e ressalta sua origem regional?

Não preciso dar uma de professora para falar do colonialismo que coloca Nortistas e nordestinos/as como selvagens perigosos, quando não burros e incapazes – o que for mais conveniente no momento. O racismo estrutural nem sempre é declarado, para os menos atentos/as ou sem letramento racial e de gênero, passa despercebido. Mas o racismo está nestas nuances, no destaque ou falta de destaque que você dá, na forma que faz apelos, na forma que informa, nos julgamentos e sentimentos que tenta despertar ou desperta. Aqui, a violência de gênero e raça são usadas estrategicamente pela condução das perguntas para culpabilização da moça.

Dito isso, já avanço na minha reflexão focando nas matérias jornalísticas que foram publicadas cujas manchetes carregaram toda uma carga misógina, tal como a que destaco a seguir: “Mulher que abandonou amigo desaparecido alegou ser ‘Seu estilo de vida’”.

Reparem no jogo linguístico, “mulher” e “amigo” cria uma bipolaridade, em que cada um ocupa lugar distinto. Em muitas matérias ela foi chamada de “mulher” e ele de “jovem”, embora ambos tivessem a mesma idade. Ou seja, ela como uma adulta experiente e ele como uma vítima indefesa.

Não consigo me imaginar com 19 anos, sem assessoria, tendo que responder notícias televisivas que tentam induzir e me imputar um crime.

A primeira notícia que vi era uma reportagem com perguntas quase que inquisitórias, tendenciosas e que fizeram a moça ficar em atitude defensiva, afinal tinham o direcionamento de responsabilizá-la, como impiedosa e desumana. Como se ela tivesse visto alguém desfalecendo e negado ajuda, deixando para trás. Perguntavam como ela acreditava que o encontrariam e como ela ficaria se algo fatal tivesse ocorrido, quase que indagando: você vai se culpar? A moça, por sua vez, tentava se manter firme e dizer que não era responsabilidade dela. Obviamente esta atitude não é esperada para mulheres, estas que devem ocupar lugar de fragilidade e culpa quando não correspondem a ocupação de cuidadora.

Fui ler os comentários de outra reportagem e todos eram na mesma via. “Como uma amiga faz isso?”, “que pessoa é essa?” E o mais grave, infelizmente feito por outra mulher, “e se ela foi paga para matar ele. Já pensaram nisso?”. Logo começaram uma enxurrada de falas acusatórias e afirmativas infundadas (algumas gravíssimas, como a que cito acima), questionando a conduta e moral feminina.

É interessante pautar que o “abandono” feminino foi logo responsabilizado e julgado, mas as pessoas esquecem quantos homens abandonam mulheres todos os dias, seus filhos e filhas, e ninguém fala nada. São homens que logo estão sendo exaltados e continuam explorando e violentando outras mulheres, porque ninguém liga pros seus feitos anteriores. Cheios de liberdade para errar, para ir e vir e para serem egoístas.

E quando falo em abandono, não falo apenas do abandono paterno, como o da ausência de pensão, mas de situações semelhantes que envolvem espaço geográfico e território. Eu mesma já fui deixada em lugar perigoso, de madrugada, sem dinheiro, porque a pessoa que me acompanhava, ficou brava. Sim, o senhor homem não teve empatia, cuidado ou minimamente responsabilidade com minha saúde mental e integridade física. Mas não fui só eu, outro dia uma amiga me contava a mesma cena. Outra vez, um Uber abandonou outra amiga no canal, tarde da noite, porque ela era de posição política distinta da dele. Se acontecesse algo, provavelmente nós que seríamos julgadas: “bebeu?”, “Por que falou demais?”, “O que ela fez pra isso acontecer?”, “Ele não tinha como saber o que iria acontecer”, “Foi ela quem provocou”.

Mas vou lembrar mais um episódio recente, noticiado na mídia, embora com baixa repercussão: dia 05 de dezembro, na Áustria, um rapaz abandonou sua companheira inexperiente em uma trilha, por mais de seis horas em temperaturas de até -20°C, fato que a levou a óbito. Ta certo que não foi no Brasil, mas homens nos abandonam o tempo todo e ninguém faz alarde social por isso (ressalva que neste caso, ele irá responder processo pela intencionalidade).

Queria ainda problematizar mais um aspecto. Alguém levou em consideração o horário do retorno da trilha? Segundo informações, eram 18:30, estava próximo de escurecer.

Como mulher, eu jamais ficaria numa trilha após 18:30. Tampouco com um colega ou ficante que conheço a pouco tempo, mesmo que fosse boa gente. Só lembrando que trilhas não são seguras pra nós. Em novembro, uma mulher foi estuprada e morta, em Florianópolis, porque queria surfar. Entendem? Só esse início de ano, li duas matérias, pouco circuladas, sobre morte e estupro em Outeiro. Uma delas com violência extrema.

Mas qual a grande questão neste caso? Essa moça rompeu padrões: não chorou, não se culpou, não apassivou, não maternou, além de não ser um corpo com marcadores sociais de “passabilidade”, sulista de olhos azuis.

Para além dos julgamentos de valores de certo e errado, é preciso pensarmos como reagimos e como os discursos são produzidos e circulam, a depender do gênero. Nada é neutro. Nem nossas indignações. Como já disse, não conheço a moça e seu passado, tampouco o rapaz. Portanto, se aparecerem fatos sobre isso ou aquilo, não vem ao caso. Essa coluna aqui não é pra defender ou acusar alguém, é pra chamar atenção para como a sociedade – especialmente a mídia – reage de forma distinta e machista.

Eu gosto quando Cazuza diz que “há o certo, o errado e todo o resto”, mas proponho aprofundar: o tal certo e errado são iguais para todos e todas?

Pelo que li, a família pedia que não fizessem acusação contra a moça, chegando a afirmar que o foco não era esse, mas a população e grande mídia ignoraram aos pedidos.

Após o resgate, a moça já gravou um vídeo reconhecendo o erro de ter seguido em frente, não respeitando regras de trilheiros. Parece também que durante o desaparecimento do rapaz reagiu falando na defensiva, até realizando ataques a pessoas sedentárias, mas por fim agradeceu pela vida do rapaz.

Aliás, que bom que ele foi achado com vida. Minha solidariedade a ele e toda sua família. Concordo inteiramente que o foco deveria ser o seu resgate e bem-estar. Não imagino seu desamparo e trauma. Espero, do fundo do coração, que ele receba todo apoio para sua saúde. Contudo, ressalto, que pena que trocaram o foco para linchamento feminino, como sempre o fazem.

Por fim, finalizo essa coluna sabendo que minha opinião pode soar impopular. Já deixo dito que não me importo o suficiente ao ponto de não escrever aqui. Sim, tem um tempo que tento sustentar minhas posições políticas e sei que isso tem um custo. E minha posição política é a favor de análises interseccionais, a partir de uma ética feminista, que interpreta as nuances das desigualdades das relações de gênero. Escrevo, inclusive, pra compartilhar essa lente com vocês. As lentes feministas não nos permite “desver” (palavra de memes e figurinhas da internet). Eu não consigo ver os ataques às mulheres e seguir em silêncio. Espero que vocês também não.

Bárbara Sordi
Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Psicologia Hospitalar da Saúde, Facilitadora de Círculos de Paz, Professora da Universidade da Amazônia, coordenadora do Projeto “Sobre-viver às violências” e do Grupo de estudos “Relações de gênero, Feminismos e Violências”, Mestre e Doutora em Psicologia pela Ufpa e coordenadora/assessora da Vereadora Lívia Duarte. Mãe da Luísa e Caetano, Feminista Terceiro Mundista.

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