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A literatura periférica no Brasil contemporâneo é um fenômeno de arte literária, é um movimento estético e político que desloca o eixo tradicional da produção literária, historicamente concentrado nas elites letradas. Quando vozes oriundas das favelas, dos bairros marginalizados e dos espaços socialmente invisibilizados passam a narrar suas próprias experiências, estamos diante uma reconfiguração do próprio campo literário.
Um marco incontestável é a obra “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus. Ao escrever, “Hoje acordei pensando no que tenho para comer”, a autora mostra sua vulnerabilidade humana e inscreve no espaço literário uma experiência que até então era tratada como estatística ou silêncio. Sua linguagem direta, por vezes abrupta, rompe com expectativas normativas de “boa escrita” e revela que a forma literária pode emergir da urgência da sobrevivência. A crítica, durante muito tempo, leu sua obra mais como documento social do que como literatura, o que revela desníveis estruturais no sistema literário brasileiro.
A literatura periférica, é importante evidenciar, que, quando falamos sobre esse deslocamento literário, a margem, na periferia da centralidade canônica, ela, a Literatura, herda essa força e amplia suas estratégias. Em Capão Pecado, de Ferréz, a narrativa mergulha na realidade do Capão Redondo, em São Paulo. O romance não suaviza a violência, nem estetiza a pobreza. Ao contrário, expõe a brutalidade cotidiana e as contradições do território. A linguagem incorpora gírias, ritmos e marcas da oralidade, afirmando que a periferia não precisa traduzir-se para ser compreendida; ela fala a partir de si.
Se pensarmos pela teoria literária, essa produção tensiona a noção de cânone. Se percebemos a ideia de Antônio Candido,, o crítico vê a literatura como um direito humano fundamental, precisamos reconhecer que o acesso à palavra literária também é uma questão de justiça social. A literatura periférica não pede licença para existir; ela reivindica o direito de narrar. E narrar, aqui, é existir simbolicamente.
Há também um deslocamento na relação entre autor e comunidade. Muitos desses escritores surgem de coletivos culturais, saraus e movimentos de literatura marginal. O texto nasce em diálogo com uma experiência coletiva. Essa dimensão dialoga com a concepção de linguagem de Mikhail Bakhtin, para quem toda palavra é atravessada por vozes sociais. Na literatura periférica, essas vozes não são somente representadas; elas se tornam protagonistas.
A poesia de Sérgio Vaz, especialmente em Colecionador de Pedras, exemplifica essa perspectiva. Quando escreve que “a periferia nos une pelo amor e pela dor”, Vaz transforma o espaço estigmatizado em lugar de pertencimento e potência. A palavra poética, nesse contexto, é instrumento de autoestima coletiva e resistência simbólica.
Ao olharmos a produção literária Amazônica, Bruno de Menezes subverte a representação dada ao negro na Literatura, expõem vivências, mazelas e a contribuição deste na formação da sociedade. A Academia do Peixe Frito, um grupo de escritores na Amazônia Paraense, busca a centralidade de suas literaturas e um reclame de suas vozes diante de uma literatura branca e masculina e escrita a partir do olhar do outro
É importante perceber que essa literatura não se limita à denúncia social. Ela constrói estética. A escolha lexical, o ritmo da frase, a organização narrativa revela consciência formal.
   A oralidade por vezes empregada é estratégia. Ao incorporar marcas da fala cotidiana, os autores desafiam a hierarquia que coloca a norma culta como única forma legítima de expressão literária. Há, portanto, um gesto político na própria construção da linguagem. Abguar bastos, aqui na Amazônia marca essa construção ao afirmar na ultima pagina do seu livro “Terra de Icamiaba” que a ortografia segue as normas estabelecidas pelo autor.
Ao mesmo tempo, a crítica acadêmica é convocada a rever seus critérios de legitimação. Por muito tempo, o sistema literário brasileiro valorizou narrativas que observavam a periferia de fora. Agora, a periferia escreve a si mesma. Essa inversão de perspectiva altera o foco narrativo e redefine o lugar do leitor, que deixa de ser apenas observador e passa a ser interpelado.
Outro aspecto relevante é a relação entre memória e território. A periferia é cenário e personagem. As ruas, os becos, os coletivos, os bares e as vielas compõem uma cartografia afetiva. Essa espacialização da narrativa constrói uma memória coletiva que confronta o discurso midiático dominante, frequentemente marcado pela criminalização desses espaços.
Não se pode ignorar que a circulação dessas obras ainda enfrenta barreiras estruturais. O mercado editorial continua seletivo e muitos autores dependem de editoras independentes ou da autopublicação. Ainda assim, o reconhecimento crescente em universidades, feiras literárias e prêmios sinalizam uma transformação em curso. A academia começa a compreender que a literatura periférica é também literatura brasileira contemporânea.
Neste sentido, estamos diante de uma ampliação do conceito de literatura. Se a literatura é, como afirmou Roland Barthes, um espaço onde a linguagem se põe em estado de questionamento, a literatura periférica realiza esse gesto de forma radical. Ela questiona quem pode falar, sobre o quê e a partir de qual lugar.
A literatura periférica e as vozes marginalizadas no Brasil contemporâneo ampliam o arcabouço temático da literatura. Elas deslocam o centro, tensionam o cânone, reinscrevem a linguagem e exigem da crítica uma postura ética e estética mais aberta. Ao transformar a experiência da exclusão em palavra literária, esses autores demonstram que escrever é também um ato de insurgência e afirmação de humanidade.




* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

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