Publicado em: 27 de fevereiro de 2026
Jean-Paul Sartre, filosofo, escritor, dramaturgo e crítico Literário, especialmente em seu ensaio crítico literário, “o que é Literatura?”, desloca a função estética da arte literária e apela para uma tomada de posição ética diante da escrita. Publicado em 1948, no contexto do pós-guerra europeu, o livro nasce de uma inquietação concreta: qual é a responsabilidade do escritor em um mundo marcado pela violência, pelo fascismo e pela reconstrução política?
Sartre formula uma pergunta direta: “Que é escrever?” Para ele, escrever não é ornamentar o mundo com palavras bonitas, é agir. A literatura é uma forma de ação no mundo. O escritor, ao escolher as palavras, escolhe também uma posição diante da realidade histórica. Não existe neutralidade possível.
Um dos trechos mais conhecidos do livro afirma: “O escritor está em situação na sua época; cada palavra sua repercute.” Essa ideia é central. A escrita é situada. Ela nasce em um tempo histórico específico e dialoga com conflitos concretos. Para Sartre, fingir que a literatura é pura contemplação estética é ignorar essa condição.
Ao discutir a natureza da prosa, ele diferencia claramente prosa e poesia. A prosa, diz Sartre, é utilitária no melhor sentido da palavra: ela se serve das palavras como instrumentos para revelar o mundo. O prosador “serve-se das palavras”, enquanto o poeta as contempla. Essa distinção para além do julgamento de valor, é uma diferenciação de função.
Quando afirma que “falar é agir”, Sartre retoma o núcleo de sua filosofia existencialista. O homem é responsável por seus atos, e a linguagem é um desses atos. Escrever é um gesto que compromete. Não se trata apenas de expressar sentimentos individuais, é assumir uma posição que pode transformar consciências.
No texto, Sartre também discute a ideia de literatura engajada. Para ele, o escritor deve engajar-se, esse engajamento deve ser profundo. Não é escrever panfletos políticos. É reconhecer que a obra literária participa da construção do mundo social. A liberdade do escritor está no enfrentamento da realidade. Há um ponto decisivo quando ele afirma que o escritor “apela à liberdade do leitor”. Isso é fundamental. A obra literária não é fechada em si. Ela só se completa na leitura. O leitor é convocado a responder, a interpretar, a tomar posição. A literatura, portanto, é um espaço de encontro entre duas liberdades.
Essa relação entre escritor e leitor mostra que, para Sartre, a literatura é um ato de confiança. Ao escrever, o autor pressupõe que o leitor é livre e capaz de compreender. A leitura torna-se um ato de colaboração. Não é consumo passivo, mas participação ativa.
Em outro momento, Sartre critica a ideia de “arte pela arte”. Para ele, essa postura seria uma forma de fuga. Em um mundo atravessado por injustiças, calar-se ou refugiar-se na neutralidade estética também é uma escolha. E toda escolha implica responsabilidade.
Essas reflexões dialogam com o contexto histórico da França ocupada pelos nazistas e da experiência da Resistência. Sartre viveu esse período intensamente. Sua concepção de literatura nasce dessa experiência concreta de opressão e de luta pela liberdade.
No entanto, reduzir sua proposta a um compromisso político seria empobrecer o pensamento. O que está em jogo é mais amplo: a concepção de que o ser humano é liberdade. A literatura é um dos modos privilegiados de exercer essa liberdade e de convocar a liberdade alheia.
A temática provocada por Sartre em 1948 é decisiva porque desloca a discussão do campo puramente formal para o campo ético e histórico. Ele nos obriga a perguntar: o que estamos fazendo quando escrevemos? Estamos apenas organizando palavras ou estamos intervindo no mundo?
Ao final, fica claro que, para Sartre, a literatura é um gesto de responsabilidade. Não há escrita inocente. Cada texto carrega uma visão de mundo, uma escolha, uma aposta. E talvez a maior provocação de “O que é Literatura?” seja justamente esta: se escrever é agir, então o escritor nunca escreve sozinho. Ele escreve diante da história.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




Comentários