Publicado em: 3 de março de 2026
O Governo português confirmou ter concedido autorização condicional aos Estados Unidos para utilização da Base das Lajes, nos Açores. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, assegurou à imprensa que a permissão foi concedida apenas no sábado, após o ataque inicial, o que significa que nenhuma das aeronaves usadas na primeira ofensiva partiu das Lajes.
Segundo Rangel, a autorização está sujeita a três condições: a base só pode ser utilizada em caso de resposta ou retaliação a um ataque iraniano; qualquer ação deve obedecer aos princípios da necessidade e proporcionalidade; e os alvos devem ser exclusivamente de natureza militar. O ministro atestou que os EUA se comprometeram a cumprir as condições.
No sábado, cinco aviões reabastecedores KC-46 Pegasus da Força Aérea estadunidense levantaram voo da Base das Lajes. Há mais de uma semana, 15 aeronaves desse modelo estavam estacionadas no local. Após a partida dos reabastecedores, descolaram também um P-8 Poseidon, destinado a operações de guerra antissubmarino, e um C-130, usado para transporte de tropas e cargas.
Rangel declarou ainda que, ao receber o pedido de autorização, o executivo informou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente-eleito António José Seguro e três líderes de partidos da oposição, sem especificar quais.
Enquanto o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, condenou de forma explícita a ação israelo-estadunidense, o governo português, liderado por Luís Montenegro, optou por uma posição alinhada com Washington e Tel Aviv, criticando apenas Teerã.
A diferença de posicionamento tornou-se evidente nas primeiras reações oficiais. Sánchez manifestou reprovação sem reservas à ofensiva conduzida por Israel e pela administração de Donald Trump. Em sentido oposto, o executivo português divulgou comunicado no qual condena as ações do Irã, sem qualquer crítica à operação militar desencadeada pela aliança entre Trump e Benjamin Netanyahu.
No texto, posteriormente republicado por Montenegro na rede social X, o primeiro-ministro afirma que “condena os injustificáveis ataques do Irão aos países vizinhos da região – entre eles, a Arábia Saudita, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e a Jordânia -, que devem cessar imediatamente”. Em nenhum trecho há menção crítica à ofensiva inicial conduzida por Estados Unidos e Israel. Montenegro acrescenta ainda que “o fim do programa nuclear iraniano é essencial para alcançar a paz e a estabilidade na região”.
A postura portuguesa distancia-se não apenas da adotada por Madrid, mas também da posição expressa pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que foi primeiro-ministro de Portugal na década de 1990. Guterres condenou a ofensiva e afirmou que os ataques dos Estados Unidos e de Israel, assim como a retaliação iraniana, comprometem a segurança internacional.
A oposição portuguesa tem contestado o uso da infraestrutura açoriana nas operações militares. O partido Livre anunciou que pretende questionar o governo na Assembleia da República sobre a utilização das Lajes no contexto da incursão contra o Irã. A controvérsia envolve não apenas a dimensão diplomática, mas também a interpretação do grau de envolvimento de Portugal em uma ação militar internacional.
Portugal pode enfrentar consequências econômicas relevantes caso a instabilidade no Oriente Médio se prolongue. A avaliação é de que o primeiro reflexo será sentido nos preços dos combustíveis, seguido por pressão inflacionária mais ampla e eventual aumento das taxas de juros, com impacto nas prestações do crédito à habitação.
Embora o petróleo do Oriente Médio não represente parcela dominante das importações portuguesas (que se concentram em fornecedores como Nigéria, Argélia e Brasil), a redução da oferta global tende a pressionar o preço do barril no mercado internacional.
Um ponto crítico da equação é o Estreito de Ormuz, corredor marítimo de 53,5 quilômetros que separa o Irã de Omã e dos Emirados Árabes Unidos. Por essa rota passam diariamente 20,1 milhões de barris de petróleo, o equivalente a 1,29 mil milhões de euros a cada 24 horas. Segundo dados do Marine Traffic, nas últimas 48 horas o tráfego de petroleiros e cargueiros na região diminuiu cerca de 70%. Um quinto de todo o comércio marítimo mundial de petróleo transita por esse estreito, o que transforma qualquer perturbação ali em fator de risco global.
A sequência de impactos tende a seguir um padrão já observado após a invasão da Ucrânia. Primeiro, a alta dos combustíveis. Em seguida, o encarecimento de um conjunto alargado de bens e serviços. A inflação desencadeia o aumento das taxas de juros e os efeitos são diretos sobre famílias e empresas, envolvendo combustíveis mais caros, inflação generalizada, subida das taxas de referência pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela Reserva Federal dos EUA (FED), prestações da casa mais elevadas e, por fim, risco de abrandamento do crescimento global.
Image em destaque: Base de Lajes (Guido Melo, U.S. Air Force, Public domain, via Wikimedia Commons)









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