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Nunca me importei. Desde que me entendo, a partir dos moleques da minha rua que me chamavam. Eu sempre chegava por último. Se era para sair ou jogar bola, eu demorava de propósito, para ser o último. Assim, ganhava a atenção de todos. Nada começava antes da minha chegada. Sim, meu nome também ajudou. Meus pais me chamaram de Zuchre, nome de um avô perdido no tempo. Quando entrei na escola, chamada diária pela professora, nem me preocupava. Era o último nome. Fiz natação por algum tempo e em dia de competição, tinha um adversário. Era um bobo, desses moleques sem vontade de nada. Desses que a vida tem de mexer, balançar, até  acordar. Nas provas que disputávamos, só eu sei como precisava me conter, para ser o último. O moleque era manhoso, dava umas braçadas lentas e eu, quase a remar para trás. Quase o empurrava para que chegasse à minha frente. Finalmente, levantava os braços e gritava: Fona! Estava contando as minhas peripécias e uma colega disse que não sabia o significado da palavra. Outras colegas também. Talvez fosse uma gíria de moleques. Enquanto todos queriam ser Pri, Bi, Tri, eu queria ser o Fona. Já entenderam? Quando saía o listão do antigo Vestibular, eu preferia ler o de ordem alfabética. Uma delícia ser o último da lista. Gosto de futebol, mas prefiro torcer pelas equipes de menor potencial. Elas perdem. Elas chegam em último. Igual àquela equipe do Recife, Ibis, que nunca venceu uma partida. Esta sim, uma equipe Fona. Não concordo com essa mania no mundo de todos sermos os primeiros em qualquer competição que aparece. É boa a frase “o importante é competir”. Claro, sem a aflição de ganhar, a tensão à véspera, o medo de perder, não se chega a lugar algum. Não me aperto. Na piscina, chego a saltar por último. Vou olhando para a torcida, pais e mães alucinados, gritando para seu pimpolho ir mais rápido e quando eu passo, com pena, alguns também me incentivam. Que nada! Não me aperto. Quando finalmente chego, já fizeram festa ao primeiro colocado e todos aguardam, respeitosamente a chegada do último participante para então dar sequencia às provas. Pensei se não deveria haver um prêmio para o fona? Já pensaram a luta na piscina? E se fosse uma corrida de 100 metros. A não corrida. A corrida das tartarugas. Quem chegará por último. Certamente alguém eternamente faria de conta que dava o primeiro passo e relutantemente empurrado por um juiz, finalmente pisaria na pista. Sózinho? Claro que não? Quem der o primeiro passo vai ser o fona. Ah, bom, mas será que é esse prêmio que me interessa? Fico inerte em minha posição. Após algumas horas, sou o último a dar um passo na pista, seguir lentamente, gloriosamente só, diante da vibração do público até chegar à linha de chegada onde hesitarei e voltarei até o começo. Um verdadeiro fona não pode vencer nada.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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