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FOTOS: CRISTINO MARTINS 
Danças, louvores e procissão com o santo preto pelas ruas estreitas da cidade marcaram a bicentenária festa de São Benedito, na quatrocentona Bragança(PA), que começou desde as 7h da sexta-feira, 26, com uma missa na igreja de São Benedito, com direito a um leilão na barraca da Irmandade da Marujada. Às 16h, um cortejo reunindo cerca de 40 mil pessoas já lotava o centro histórico da cidade e, por onde passava, o andor com o santo era homenageado por devotos, formando um mar em vermelho e branco com o traje da Marujada. Maria de Jesus, 57, maruja há trinta anos, estreou este ano na função de capitoa, principal cargo hierárquico do ritual, onde conheceu seu marido, que também é marujo. A Festividade de São Benedito é um dos maiores e mais representativos eventos turístico-religiosos do Estado, declarado Patrimônio Cultural do Pará por meio da Lei Estadual nº 7.330, de 17 de novembro de 2009

A fundação da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança marca o início da Marujada de Bragança. Em 1798, escravos tiveram a autorização de seus senhores para criar a organização e louvar ao santo preto, São Benedito. Em agradecimento, saíram de porta em porta comemorando. Desde então, há mais de duzentos anos, a Marujada acontece no âmbito da Festividade do Glorioso São Benedito, de 18 a 26 de dezembro, e envolve os moradores de Bragança, município localizado no nordeste paraense, não apenas durante a festa, mas também nos preparativos ao longo do ano.
Em maio tem início o período de esmolação, quando uma comitiva sai pela região com a imagem peregrina arrecadando doações para a festa. Em 8 de dezembro, uma procissão fluvial sai da localidade de Camutá até Bragança. Nos dias pares da semana que antecedem a festividade, há ensaios da Marujada no salão da Igreja de São Benedito. No dia 18 de dezembro, começa oficialmente a festa com a Alvorada, às 5h da madrugada, quando se ergue o mastro e marujas e marujos caminham descalços até a Igreja de São Benedito. As apresentações da Marujada seguem até o encerramento da festa, em 26 de dezembro. 

Organizada pela Irmandade, a Marujada é quase unicamente constituída por mulheres, que assumem o papel de direção. O cargo mais alto – e vitalício – é o de capitoa, geralmente ocupado pela mais velha do grupo, que desfila carregando um bastão dourado simbolizando sua autoridade. A subcapitoa, escolhida pela capitoa e sua substituta, está em um nível seguinte. Os homens, marujos dirigidos por um capitão, participam como tocadores ou acompanhantes.
Trajando blusa branca, faixa de fita vermelha e uma rosa de tecido, saia rodada comprida vermelha, azul ou branca e um chapéu vistoso enfeitado com fitas (quanto mais antiga, mais fitas) e plumas, as marujas visitam as casas, como na festa primeva, dançando ou andando em duas filas pelas ruas da cidade. À frente das filas, a capitoa e a subcapitoa. Acompanham-nas os marujos, vestidos com calça e camisa brancas, tocando tambor, pandeiro, cavaquinho, cuíca, viola e rabeca. No dia de natal, a saia das marujas e a blusa dos marujos são azuis. Já no dia 26 de dezembro, a saia das marujas e a fita amarrada no braço dos marujos são vermelhas. O ritmo predominante da Marujada é o retumbão, mas durante a celebração também há a execução de xote, chorado, mazurca, cada um associado a uma dança específica.
São ainda momentos integrantes da festividade em louvor a São Benedito a cavalhada, no dia 25, o leilão e a procissão, no dia 26. Na cavalhada, cavaleiros disputam argolas azuis e vermelhas, vencendo aquele que obtiver o maior número de argolas. O leilão é para que os participantes arrematem donativos arrecadados pela Igreja para a realização da festa. A procissão é um grande momento de devoção, quando o santo preto percorre a cidade, terminando com uma missa. A derrubada do mastro marca o fim do ritual, que vale muito apena ser visto.
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, presidente da Academia Paraense de Jornalismo, membro da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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