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Entre o fim de janeiro e os primeiros dias de fevereiro, Portugal enfrentou terríveis adversidades climáticas. Tormentas incomuns, com ventos em cólera a derrubar árvores e destelhar casas; enchentes destruindo estradas e isolando cidades e aldeias, submetendo milhares de pessoas e animais a flagelos insondáveis. Leiria, por exemplo, restou parcialmente destruída pela Tempestade Kristin, e a Rodovia A1, que corta o país de sul a norte, ligando Lisboa ao Porto, teve um trecho interrompido à altura de Coimbra em razão da caudalosidade anormal do Rio Mondego.

Aparentemente, o avançar de fevereiro vai trazendo um pouco mais de tranquilidade e esperança, e a bravura dos nossos irmãos lusíadas vem se fazendo notar, mas muito ainda há por fazer. Nesse cenário, cheguei a Lisboa neste fim de semana e a encontrei numa impressionante oscilação entre sol e chuva, alternando temperaturas amenas e momentos de frio intenso, acentuado pela ventania que vem do Tejo.

De pronto me ocorreu ter desembarcado no mesmo país descrito por Vergílio Ferreira em seu diário – Conta Corrente, Vol. III, 1989-1992, Ed. Quetzal -, no dia 16 de outubro de 1990: “Extraordinária a violência do temporal. E de novo a reflexão sobre a fúria latente na doce paz da natureza. O que nos toma então não é o medo de um desastre que pudesse acontecer-nos na segurança em que estamos. O que nos toma é o pânico da fúria em si, do espetáculo da loucura que é de si pavoroso. Um vento feroz investe contra o pinhal e os pinheiros só não fogem porque a terra os tem seguros pelos pés…”

Na capital, contudo, a situação me pareceu um pouco mais serena, e novamente faço uso do talento do Mestre Vergílio para descrever, muito melhor do que eu jamais faria, a beleza que a destaca mesmo em períodos de instabilidade: “Ontem à noite voltou a cair uma enorme carga de água até ao limite de um possível dilúvio. Mas hoje o sol teimou na sua e lá conseguiu abrir um espaço para brilhar. Mas uns restos de nuvens ainda o provocaram e havia assim que haver cedências de parte a parte. E o resultado foi um efeito de lágrimas e riso com uma chuva esparsa e luminosa. Riso e choro. Era belo e triste como a ternura.”

Embora nascido em Melo, Gouveia, o famoso escritor fixou-se em Lisboa a partir de 1959 e nela morou até falecer, em 1996, aos 80 anos de idade. Desde sua chegada até aposentar-se, foi professor no Liceu Camões, localizado na Praça José Fontana, num prédio histórico da Freguesia de Arroios. E foi justamente nesse prédio, mais precisamente em sua biblioteca, que fui ouvir outro homem das letras, poeta e prosador, vencedor do Prêmio Vergílio Ferreira 2026, outorgado pela Universidade de Évora: José Luís Peixoto, distinguido “pela força criativa da sua ficção, que parte da experiência vital do Alentejo e chega ao mundo inteiro, com uma escrita rica em densidade emocional que aborda temas como identidade, memória, ruralidade e diáspora.”

Peixoto, desta feita, estava participando de um encontro lítero-musical com o pianista Amílcar Vasques-Dias, o primeiro encarregado de encantar a plateia com palavras, enquanto ao segundo, imbuído do mesmo propósito, competia utilizar a música. Ao final ambos desincumbiram-se com louvor das suas respectivas missões.

Num dos pontos altos do evento, Amílcar falou dos vinte e poucos anos em que morou no Alentejo, boa parte deles fascinado pelo silêncio que havia numa grande azinheira, espécie típica da região, avistável da sua janela. Durante a noite a altivez da árvore continha sons que só existem no silêncio, motivando-o a compor a melodia que nos apresentou parcialmente no recital.

Pode até parecer estranho para quem não conhece o Alentejo e, sobretudo, para quem ignora o valor do silêncio. Aos que sabem a que me refiro, contudo, é quase possível escutar a azinheira, eis que o chão português que fica além do Rio Tejo, vencida a travessia da Ponte 25 de Abril, em meio aos incontáveis ninhos das cegonhas, por entre videiras, oliveiras e sobreiros, é território afeito à magia, dotado de beleza sobrenatural e de traços humanos e arquitetônicos inconfundíveis, inspirados pelo frio extremo do inverno e pelo calor escaldante do verão, pela valentia das cepas que resistem a climas limítrofes e tão ambíguos e, mais que tudo, pela simplicidade de uma gente trabalhadora, solidária e cortês.

Quanto ao silêncio, por seu turno, basta compreender que nele habitam todos os sons e todas as melodias, nele estão guardadas todas as vozes, contidas todas as palavras, nele repousam todos os cantos e todas as harmonias. Nada se cria que dele não parta, e nele se concentra a gênese de tudo o que a inteligência humana já produziu ou produzirá.

Depois de dita, uma palavra se esgota em si mesma, e só terá sentido se outra vier em seu socorro, buscada nos recônditos do silêncio. Depois de escutado, um som se esvai no infinito, e só se traduz em música se outra nota for subsequente, percebida pelo compositor no seu silêncio mais íntimo e eloquente, onde nascem a arte e a comunicação.

Não é à toa, portanto, que os escritores tanto prezam o silêncio, cientes que são de tudo o que ele representa e contém. O próprio José Luís Peixoto, num trecho iluminado de sua última obra – A Montanha, publicada pela Ed. Quetzal em 2025 -, escreveu que “os livros são horas na vida de pessoas. Os livros são tempo, pulmões a encherem-se de ar, o coração no seu ritmo, a bater, a bater, como agora, os livros são o momento em que foram escritos, o momento em que são lidos, mas são também todo o tempo que passam à espera de serem abertos. As palavras dos livros são tempo guardado no silêncio.”




* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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